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Controle é o principal passo para uma boa administração financeira
Por Arilton Batista

Segundo especialistas, anotar os gastos, até mesmo os de menor expressão, é uma alternativa para se organizar economicamente



“O dinheiro não traz felicidade, mas provoca uma sensação tão parecida que é necessário um especialista para verificar a diferença”. A citação do glorioso cineasta norte-americano Woody Allen é uma das definições do que o dinheiro idealiza em parte da sociedade. De fato, nos dias de hoje, o dinheiro tem uma representatividade enorme dentro das famílias. Mas, mesmo que se tenha muito dinheiro – com uma renda acima da média ou um alto cargo numa grande empresa –, sem prudência e controle econômico é possível ter muita dor de cabeça e passar situações desagradáveis, como ser certificado nos órgãos de proteção ao crédito, adquirindo e mantendo um cotidiano de vida atribulado e estressante. Por isso, quase sempre junto às promessas de Réveillon, as pessoas costumam planejar um novo emprego, um pedido de aumento salarial ou uma promoção, com a ideia de que a questão principal é aumentar o capital. Muitas vezes, porém, basta um melhor gerenciamento financeiro para ajustar a situação.

O primeiro passo, segundo especialistas em finanças, é sentar e, com calma e bastante rigor, anotar todos os gastos pessoais e/ou familiar, para que, assim, se possa chegar num consenso do que é ou não exagero e do que pode ser eliminado. Além disso, o fato de anotar ou planilhar todo o movimento financeiro de determinado período possibilita uma melhor administração da renda, no sentido de saber quanto se ganha e quanto se pode gastar para não correr riscos ou passar por dificuldades. “Nossa mente funciona melhor se tiver um planejamento; souber um início, meio e fim. Essa lista de gastos certamente irá influenciar em todos os outros aspectos e tomadas de decisão em nossa vida, tanto pessoal quanto profissionalmente, pois, à medida que nos organizamos, temos mais raciocínio lógico favorável para pequenas atitudes do nosso dia a dia”, explica a psicóloga Elaine Cristina de Santa Maria Lopes, que é Master Practitioner em Programação Neurolinguista e Coach Sistêmico.

Há quem acredite ser uma tarefa trabalhosa e cansativa ter de parar, repensar os gastos e anotá-los numa planilha ou num simples cadernos. Os benefícios disso, entretanto, podem ser muito gratificantes. Segundo o professor de administração e finanças da Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação de Santos (ESAMC), Yuri Carvalho Fratelli, 27, o planejamento deve ser revisto e, se necessário, reajustado periodicamente, para que não haja um novo descontrole. É indicado que o plano seja feito para o período de pelo menos dois anos. O ideal de mudança não deve se limitar a apenas o início do ano, que é quando a maioria das pessoas costuma ‘repaginar’ os projetos. “O planejamento financeiro deve ser feito e revisado com frequência, até que se torne um ciclo natural. Em qualquer momento do ano pode-se repensar as contas, principalmente quando nota-se que algo não está saindo conforme o esperado. A vantagem do mês de janeiro no que tange o assunto ‘finanças’ é que um ciclo financeiro anual, com início em janeiro e término em dezembro, é visualizado de forma mais amigável, pois, junto com o ano novo, acabamos trazendo também a esperança de melhores condições financeiras”, orienta Fratelli.

O economista e conselheiro em finanças pessoais José Eustáquio Moreira de Carvalho, 67, concorda com a ideia de se fazer anotações, mesmo que mínimas, sobre tudo que for gasto em produtos e serviços. Segundo ele, a prática é importantíssima para que se possa ter uma noção, no fim do mês, do ‘ralo’ para onde vai o dinheiro sem que demos conta. “Parecem insignificantes, mas aquela esmola e aquela compra no semáforo, mais aquele jogo na loteria, mais aquele cafezinho ou lanche sem necessidade, mais aquela festinha no local de trabalho ou entre amigos, mais aquela compra adicional na padaria, quando totalizados, representam uma soma bastante razoável e nada desprezível”, diz Carvalho.

O desequilíbrio financeiro costuma levar as pessoas a utilizarem, de maneira desregrada, os limites de cheque especial e também os cartões de crédito, fazendo com que não haja a possibilidade de se manterem durante o mês sem a utilização desses créditos. Com isso, as dívidas com esses serviços tendem a crescer, podendo ultrapassar a renda líquida mensal do usuário. E é assim que muita gente tem o nome restrito nos órgãos de proteção ao crédito (SPC, SCPC, Serasa). A agente de viagens Deyse Nogueira, 27, se considera uma compulsiva por compras, e conta que já sofreu muito com isso. Hoje com planos de se casar e após ter o nome restrito, ela teve de se reeducar economicamente e parar de gastar com o que considera superficial e irrelevante. “A época que me vi mais desesperada foi quando meu cartão de crédito estava com um valor duas vezes maior que meu salário. Eu tive que pedir a antecipação das minhas férias para conseguir pagar a fatura. Paguei uma parcela, mas no mês seguinte tive que pedir um dinheiro emprestado para meu pai para poder pagar as contas do mês pós-ferias. Foi o pior momento que passei por conta dessa minha compulsão por compras”, conta.

Caso similar é o do jornalista Maurício Martins, 31. Leitor nato, ele admite gastar além da conta com revistas de cultura, quadrinhos, revistas de música, pizzas e lanches – mesmo tendo comida pronta em casa. Além disso, Maurício é músico amador – integrante de bandas de rock da cena alternativa – e tem gastos periódicos com manutenção de equipamentos e ensaios. “Dificilmente eu guardo uma parte do meu salário todo mês em poupanças ou apenas criando uma reserva mesmo, como a maioria dos economistas recomendam. Dá para imaginar um pouco os transtornos que isso me proporciona. Confesso que até tento, mas sempre me vejo, seja no início ou durante o próprio mês, com a minha conta no vermelho. Mas a culpa é minha, só minha, pois acredito que poderia evitar a compra de determinadas bobagens”, lamenta Maurício, que garante estar mais atento a essa situação e que, em 2014, mudará esse quadro. “Neste ano criei um objetivo: resolver todas as minhas pendências e guardar grana. Nem penso no ‘talvez dê certo’. Eu estou no ‘tem que dar certo’", enfatiza Martins.

Existe uma concordância geral sobre o limite de comprometimento da renda mensal individual. Especialistas indicam que 30% é esse teto. Entretanto alguns afirmem que o ideal mesmo é não adquirir dívidas e realizar ao máximo as compras com pagamento à vista. “O fato é que dívidas nunca são saudáveis para as pessoas. Evitar o endividamento é uma tarefa árdua e, embora não exista uma regra específica sobre níveis de endividamento, há um consenso geral de que 30% é o máximo que se deve ter de renda comprometida com dívidas”, afirma o professor de finanças Yuri Carvalho Fratelli.

Especialista em administração financeira e Sócio-Diretor Administrativo Financeiro da Praxis Business, Maurício Galhardo dá uma dica praticada por ele para manter-se financeiramente controlado e conseguir êxito nos planos estabelecidos. A ideia é colar na carteira uma foto do que se quer conquistar nos próximos meses ou anos. Por exemplo, a foto de uma casa, de um apartamento, de um carro, de uma cidade ou país – se a ideia for realizar uma viagem –, etc. “O controle financeiro não tem como objetivo fazer com que as pessoas não entrem no cheque especial ou deixem de comprar no cartão de crédito, e sim permitir que elas realizem seus sonhos, de fato. Por mais que seja um pouco difícil agora, é importante entender que o controle financeiro aumenta a chance da realização dos sonhos. Não é o simples fato de gastar menos dinheiro para ter mais dinheiro”, finaliza o Galhardo.


 

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