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Segunda língua oficial do país, Libras tem como objetivo integrar surdos e ouvintes
por Arilton Batista

Há quem estranhe, olhe diferente, com espanto ou curiosidade quando se depara com a conversação entre deficientes auditivos dentro do transporte público, em parques e centros comerciais. Todos aqueles gestos feitos com as mãos, que para os leigos parece não haver muito sentido, são a forma mais efetiva de comunicação entre os surdos e deficientes auditivos. Apesar do pouco conhecimento e acesso da população, a Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a segunda língua oficial do Brasil, atrás apenas do nosso português. E é essa comunicação gestual que possibilita a interação e integração entre a comunidade surda com os ouvintes. Segundo o Censo de 2010 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 9,7 milhões de brasileiros possuem deficiência auditiva, o que representa mais de 5% de toda a população do país.

Mesmo com tanta gente que precisa da Língua Brasileira de Sinais como forma de comunicação, são poucos os ouvintes que procuram por escolas especializadas no tema para se qualificarem e conseguirem compreender e ampliar o leque de comunicação. Hoje em dia, possuir curso de Libras não só é uma importante ferramenta de integração social, possibilitando maior interação entre as camadas sociais – neste caso, os surdos e os ouvintes –, como também é um diferencial no currículo. O mercado de trabalho para os profissionais de LIBRAS está em total expansão. Quem quer seguir a área precisa concluir o curso de no mínimo 120 horas de Libras e, se possível, procurar por pós-graduação em Educação Especial e cursos complementares de expansão e técnicos. Há também instituições espalhadas pela cidade que oferecem cursos básicos Libras.

Segundo o professor coordenador do curso de Libras da Universidade Federal do Pará (UFPA) Rafael Dias Silva, 37, há muitos espaços públicos e privados que necessitam de profissionais qualificados para a função de intérprete. “Os profissionais podem atender escolas, universidades, centros religiosos, repartições públicas de atendimento ao cidadão, unidades de saúde, trabalhar em recrutamento e seleção. Empresas de vários setores hoje estão contratando profissionais que tenham esse conhecimento. O momento é este para entrar na área”, diz. A Lei número 10.436, de 24 abril de 2002, garante o atendimento especializado aos deficientes auditivos e regulamentou a Libras como segunda língua oficial brasileira. Porém, como a formação de profissionais preparados para atuar é ainda pequena, existe um déficit no setor e, consecutivamente, no auxílio aos que precisam desse tipo de serviço. “Infelizmente os esforços para garantir o acesso da comunidade surda aos serviços públicos, de cultura e educação ainda são insipientes. Existe uma dificuldade em contratar profissionais. Os que estão trabalhando já não conseguem absorver a demanda de serviços. Espero que daqui alguns anos este cenário seja alterado. Os futuros profissionais estão estudando agora”, comenta Silva.

Uma das maneiras de incentivar e promover uma integração maior entre os surdos e os ouvintes certamente seria a disponibilização de aulas para todos os alunos das redes de ensino público e também particular. Para o professor Rafael Dias Silva, se os colégios oferecessem o curso, mesmo que de forma optativa, seria promovido um grande avanço no sentido de inclusão. “Poderiam ser incorporados não somente a Libras, mas também aspectos de outras deficiências, como dislexia, cegueira, déficit de atenção e outras. Hoje, em decorrência da inclusão escolar, os alunos devem aprender a conviver e respeitar as diferenças. E, conhecendo as limitações dos colegas, podem também ajudar”, diz.

Além das atividades na UFPA, Rafael Dias Silva dá aula de Libras na Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH - USP Leste) e é professor interlocutor de Libras na Escola Estadual Dom João Maria Ogno, no bairro de Vila Esperança, em São Paulo, onde teve a oportunidade, no ano passado, em 2013, de ministrar aulas para alunos ouvintes e mais três alunas surdas que já participavam das atividades. Foi um projeto a parte. “O resultado foi maravilhoso, pois as alunas surdas começaram a interagir com seus colegas em sala de aula e no horário de intervalo. Todos ganham nesse processo. De um lado, ouvintes aprendem uma nova língua e compreendem melhor as diferenças humanas. Por outro, a comunidade surda ganha liberdade de transitar nos locais e percebem que sua cultura é valorizada”, explica o educador.

A ausência de profissionais qualificados em escolas, faculdades, unidades de saúde, centros comerciais e instituições em geral causa, sem dúvida, um retrocesso no sentido de acessibilidade e, no geral, pode até ser uma maneira de discriminar quem necessita de um atendimento específico e que hoje é insuficiente. “Acredito que no momento que eu não ofereço acesso aos serviços públicos, quando um surdo procura uma unidade de saúde e não encontra ninguém que saiba sua língua para proporcionar um atendimento de qualidade, quando um aluno fica invisível nas escolas por falta de interpretes, a sociedade está discriminando. Por mais que nos últimos anos existam melhorias que devam ser exaltadas, infelizmente falta informação por parte das pessoas”, ressalta o professor Rafael.


 

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