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Agência de modelos com deficiência tem como foco a inclusão

Hoje com mais de 80 profissionais, o projeto começou por acaso e é pioneiro no setor de moda e beleza
Por Arilton Batista

Ela fugiu dos padrões. E deu certo. A fotógrafa Kica de Castro, 36, é a criadora e dona de uma agência de modelos com algum tipo de deficiência, que é pioneira do setor de moda no Brasil e tem como principal objetivo a quebra da discriminação e a inclusão dessas pessoas principalmente no mercado publicitário. O empreendimento começou em 2007, mas foi desencadeado antes, em 2003, quando a idealizadora trabalhava num centro de reabilitação e tinha como atividade fazer fotos científicas dos pacientes, a fim de compor seus prontuários.

Para diminuir a inibição e o constrangimento visível nos pacientes, Kica passou a levar maquiagens e assessórios para que eles desenvolvessem mais suas vaidades, pelo menos durante aqueles minutos em que posavam para a câmera. Era como fototerapia. “Com essa atitude simples, logo em seguida os pacientes começaram a procurar o setor para fazer book pessoal”, lembra a profissional, ressaltando que a cadeira de rodas foi o primeiro assessório como elemento que utilizou nos ensaios. O resultado no fator motivacional ficou muito claro. Os pacientes, que assumira então a função de modelos, se espantavam quando uma pose era sugerida ou quando viam as imagens reveladas – no modo analógico. Mas se acostumaram. Alguns indagaram Kica sobre oportunidades no mercado de trabalho e foram orientados a enviar suas fotos para agências de modelo já existentes. Não funcionou.

A autoestima voltou a ficar em baixa. Daí Kica deu, de fato, o forte pontapé inicial que o projeto precisava e começou a realizar pesquisas sobre o tema, que apontavam resultados fora do país, especialmente na Europa. A parceria com uma agência alemã, a Visible, fortaleceu e colaborou para que, já em 2007, conseguisse então iniciar seu próprio negócio, a princípio com cinco modelos. O começo foi mais complicado, porque muita gente não acreditava no crescimento do trabalho. “Assim como muitas pessoas sem deficiência, as pessoas com deficiência achavam que eu estava louca. Após anos de trabalho, provando que não era loucura minha, hoje temos 81 profissionais qualificados para atuar na moda e nas campanhas publicitárias”, conta Kica, que relembra uma situação que a desagradou, mas foi superada: algumas pessoas acreditavam que ela se aproveitava da situação. “Por ser algo novo aqui no Brasil e as pessoas não me conhecerem, o julgamento prévio era inevitável, de pessoas com e sem deficiência. Era crítica para tudo que era lado”, comenta.

Kica explica que na ocasião saiu de um emprego fixo, estável, onde era chefe do departamento de fotografia, para embarcar no projeto da agência. Para ela, este é um dos indícios de que realmente seu trabalho já nasceu sério. “Fiz pesquisa, estudei muito e vi potencial. Eu acreditei no projeto, por isso entrei de cabeça. Críticas sempre existem, mas eu resolvi trabalhar para mudar isso. Todos os dias tinha que provar que não era loucura, tinha que conquistar clientes para manter a empresa aberta. Sempre confiei em Deus, no meu trabalho e nas pessoas que estavam do meu lado. Isso foi motivo para seguir em frente e provar que a maioria estava errada”, diz.

Os modelos com maior demanda de contratação são os que possuem algum tipo de deficiência física, que usam muletas ou cadeira de rodas, por causar um maior impacto visual. Os profissionais que têm síndrome down também são mais solicitados pela mesma razão: a imagem. “Quando o cliente quer passar uma mensagem de inclusão ou de consumo, eles querem que a imagem fale por si, de forma rápida”, explica Kica. Os deficientes intelectuais e auditivos geralmente são contratados para recepção de eventos, desfiles e catálogos. Segundo Kica de Castro, assim como nas agências tradicionais os clientes escolhem por loira, negra, morena, em sua agência o contratante escolhe entre amputado, cadeirante, deficiência visual, etc. “A escolha sempre é do cliente. Oportunidades existem, basta ter foco para elas aparecerem”, ressalta.

Kica acredita no potencial de seu trabalho e no amadurecimento das empresas para a contratação dos serviços de pessoas com deficiência, o que certamente demonstra uma ampliação na quebra do preconceito e gera ainda mais inclusão social. Para ela, um marco nessa questão é conseguir espaço para suas modelos em revistas masculinas. “Queremos pessoas com e sem deficiência tendo o mesmo espaço. A partir do momento que uma empresa conceituada faz a inclusão, sem precisar fazer assistencialismo ou tratar a pessoa como super-herói, o público vê com naturalidade. Nosso objetivo é incluir os profissionais com deficiência em tudo, como campanhas publicitárias, moda e beleza”, finaliza.


 

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