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Período de luto pode ser abrandado com a ajuda da psicologia
Pensar em não conviver mais com a mãe, pai, irmãos, namorado ou esposa é doloroso. Vivenciar, de fato, a perda de um ente querido é ainda mais delicado
Por Arilton Batista



Pensar em não conviver mais com a mãe, pai, irmãos, namorado ou esposa é doloroso. Vivenciar, de fato, a perda de um ente querido é ainda mais delicado. Mesmo sendo algo imutável, a morte é e sempre foi encarada como um tabu. Ainda pouco conhecido no Brasil é o segmento da psicologia chamado de Psicologia do Luto, que, como o próprio nome sugere, é voltado para o tratamento de crianças e adultos enlutados. A especialidade é mais popular nos Estados Unidos e na Europa, tendo começado a se desenvolver na década de 1950. O principal objetivo do tratamento com o especialista é fazer com que o paciente consiga conviver e enfrentar melhor a condição.

Iris Fyrigos é especialista nesse segmento da psicologia e explica que o período de luto, por mais que a pessoa não demonstre estar sentindo tanto, é inevitável, o tempo de duração varia de caso para caso e os sintomas podem ir desde a negação do fato até o estado conhecido como Luto Complicado. Esse quadro é considerado quando o enlutado ultrapassa o período considerado normal tendo apensas ideias ligadas à perda do ente querido, sentimentos constantes de tristeza profunda, amargura, raiva, culpabilidade, desinteresse pelas rotinas, resistência em buscar outros comprometimentos afetivos, insistência em conseguir respostas para o ocorrido, ilusão de reencontro, enaltecer apenas aspectos positivos do falecido, entre outros. "Todos estes sintomas que sejam permanentes após o período de seis meses e um ano são indicativos de que o processo do luto não é saudável e é preciso o apoio especializado da psiquiatria e psicologia", orienta Iris, que presta atendimento no consultório à Rua General Sócrates, na Penha.

Há quem acredite numa sequência de fases do luto, passando por momentos de negação, raiva, negociação, depressão e aceitação, o que serve individualmente para que as pessoas deem sentido ao próprio processo. Entretanto, não há uma precisão nessa sequência, pois cada indivíduo reage de maneira diferente à perda ou ao distanciamento de um ente querido. O luto, segundo Iris Fyrigos, é importante e fundamental para a reorganização psicoemocional e nem sempre ocorre de maneira sistemática e linear, gerando o que é conhecido como recaídas – repetição de episódios já vividos. "O estilo de enfrentamento, superação e adaptação às perdas é particular e, portanto, o ritmo de cada um deve ser respeitado e compreendido", orienta a profissional.

Entender o luto é uma das finalidades do tratamento com o especialista. Saber que a morte é uma realidade a ser vivida e não uma doença que pode ser curada é essencial para a evolução do processo de luto. Segundo Fyrigos, a psicologia do luto busca através da psicoterapia aliviar as dores e o estresse, proporcionando o livre desabafo, além de revisar os conceitos sobre perda, regular a autoestima, reestabelecer os projetos futuros, conscientizar sobre a fragilidade psíquica, apoiar às possíveis adequações necessárias nesse período, etc. "O apoio do psicólogo permite este enfrentamento e toda sua adaptação necessária da melhor maneira possível, com a promoção da saúde emocional e psíquica", diz.

Em casa, os familiares e amigos podem contribuir com o processo de luto do envolvido. O constrangimento e a dúvida em como proceder e agir com a pessoa enlutada é, quase sempre, a principal barreira. Por mais simples que sejam as atividades diárias dessa pessoa, uma ajuda para lavar louça, realizar pagamentos de contas, ajudar a cuidar dos filhos ou acompanhar ao mercado são sempre de grande valia nessas condições. Geralmente, com o luto, as pessoas tendem a deixar as tarefas mais simples passarem despercebidas. Por isso o apoio nessa questão é importante. Os que estão distantes podem fazer contato por telefone, mensagem, internet, para apenas falarem de coisas cotidianas. "A melhor maneira de prestar apoio é se colocar disponível. Se puder ajudar, tenha a postura de ombro amigo, que ouve em silêncio e está junto de quem sofre sem cobranças de superação ou qualquer expectativa", orienta Iris, que ressalta também que ter mais tolerância com o enlutado é essencial, pois eles podem ter momentos de raiva. "A pessoa em sofrimento não está contra você que ajuda, e sim reagindo a sua própria dificuldade de enfrentamento e superação", comenta.

Crianças também passam pelo período de luto. Conversar sobre a morte com elas é, inevitavelmente, mais delicado. Mas falar a verdade é o primeiro passo para ajudá-las a superar essa fase. Por mais que pareça a maneira correta, utilizar de metáforas para minimizar o ocorrido não é o ideal. Dizer que ‘o papai foi morar no céu e pode ver tudo que estamos fazendo aqui’, por exemplo, pode criar medo e desconfiança nos pequenos, que quase sempre criam contos e histórias fantasmagóricas na mente. "A melhor maneira de apoiar a criança é contar a verdade, respeitando a idade dela. Diga francamente o que aconteceu. Responda às dúvidas da criança o mais simples e sincero possível, evitando rodeios", finaliza Iris Fyrigos.


 

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