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As vozes da emoção no futebol
Narrador esportivo, uma função carregada de dom e com pitadas de poesia        

por Arilton Batista

Contrariando alguns, o rádio não sobrevive apenas. Ele vive. E bem. Em meio a tantos meios de comunicação, indo da TV a internet, passando pelos jornais, revistas e transitando pelo universo móbile – dos celulares e tablets –, ele aparece ali, bem simples e humilde, mas com a mesma precisão, objetividade e romantismo de sempre. São principalmente nas narrações esportivas, especialmente no futebol, que o rádio exerce o papel fundamental de materializador de emoção. E os porta-vozes desse processo são os narradores, que, utilizando de diferentes técnicas e macetes, retratam aos ouvintes o que se passa no campo de jogo e dentro do estádio.

Diferente da TV, a narração no rádio não tem as imagens como apoio. Ou seja, requer ainda mais criatividade e poder de improvisação, sem deixar de lado, é claro, o principal objetivo da transmissão, que é informar com sobriedade e clareza. A precisão do rádio é tanta, que até nos estádios é possível flagrar torcedores assistindo ao jogo apostos com fones de ouvindo. Ele é também o bom e velho companheiro de estrada, para aqueles que estão dirigindo ou dentro do transporte público. De forma direta e reta, com o rádio, só não acompanha o jogo quem quer. E o Brasil está recheado de grandes profissionais desse setor. O criador do estilo de narração que conhecemos, em tempo real, foi o jornalista Nicolau Tuma, em 1931, pela rádio Educadora Paulista. Sem repórter na equipe, Tuma precisou ir até os vestiários dos times antes do jogo para gravar os rostos e nomes dos atletas, já que as camisas não tinham número naquela época. Vindos dessa escola e chegando mais próximos aos tempos de hoje, há outros diversos nomes que são referência na narração esportiva, como, por exemplo, Fiori Giglioti (1928-2006), Osmar Santos – que narrou a épica final do Campeonato Paulista de 1977, conquistado pelo Corinthians –, Oswaldo Maciel, Nilson César, entre outros. Há quem se arrisca dizer que no Brasil estão os melhores narradores do mundo.


           
(Nilson César - Jovem Pan) 

Hoje em dia há diversas escolas especializadas em narração esportiva, faculdades e cursos técnicos, o que certamente forma ótimos profissionais, recicla o conteúdo para radialistas de outras décadas e faz com que novas técnicas sejam implementadas. A formação de um narrador, entretanto, quase sempre se inicia na infância. Nilson César, titular da equipe de esportes da Rádio Jovem Pan, conta que o interesse pelo rádio começou quando ainda era pequeno, nos campinhos de futebol com os colegas, que o chamavam para participar do jogo não pelo simples fato de ele completar o time, e sim porque também narrava toda a brincadeira. “A função de narrador esportivo no rádio é inteiramente vocacional, é um dom. Dava para perceber isso quando eu era menino. Com 12, 13 anos eu já imitava os grandes narradores da época e ouvia todas as emissoras lá de Sorocaba, onde eu morava. Eu ia jogar futebol na rua e era o narrador do jogo. Eles me convidavam não porque eu era bom de bola, e sim porque eu narrava o jogo (risos)”, conta.

O pai de Nilson César percebeu sua vocação quando o garoto começou a subir no muro do estádio o São Bento de Sorocaba para narrar o treino da equipe usando como microfone uma lata de extrato de tomate. Era uma brincadeira, claro. Mas aquela cena chamou a atenção do pai, que o apresentou, com 17 anos, a alguns conhecidos da Rádio Clube de Sorocaba, na qual integrou a equipe de esportes por quatro anos, antes de vir para São Paulo para atuar na Jovem Pan, onde está desde 1982 e narrou grandes eventos esportivos. Entre o futebol e o automobilismo, Nilson trabalhou nos três títulos de Airton Senna, em Copas do Mundo e em diversos jogos marcantes. Entre os mais recentes está a narração do 100º gol do Rogério Ceni, contra o Corinthians, em 2010, e os dois gols do próprio Corinthians na conquista inédita e invicta da Copa Libertadores da América, em 2012. Entretanto, Nilson procura enxergar sempre o próximo como o melhor jogo de sua vida; o que ainda está por vir, que ainda vai narrar. E diz que este é segredo de um bom profissional. “Para chegar num patamar de titular de esportes da Pan não é fácil. Para manter-se é mais difícil ainda. Por isso o jogo mais importante é o próximo que se vai fazer”, comenta Nilson.

O contrato de trabalho de Nilson César pela Jovem Pan era temporário, somente até o término da Copa do Mundo de 1982. A equipe titular daquela época, formada por José Silvério, Edemar Anuzeck e o José Carlos Guedes, tinha ido para a Espanha cobrir a competição. E Nilson foi incumbido de fazer a cobertura neste período aqui no Brasil. A surpresa veio com o fim da Copa. “Eu acabei agradando eles [direção da rádio] e, em vez de ser dispensado, fui contratado. Estou aqui há 31 anos”, lembra o narrador, que reafirma a necessidade de jamais achar que já sabe tudo, pois sempre há coisas novas para se aprender, mesmo com os novatos. “É sempre uma troca de experiências entre os mais velhos e os mais novos”, destaca.


Marcas e os desafios da narração


  
(Oswaldo Maciel - Transamérica) 

“Tá na rede”, “Tirulirulá, tiruliruli, e que gol”, “Pelas barbas do profeta”, “Abrem-se as cortinas e começa o espetáculo”, “Ripa na chulipa e pimba na gorduchinha”, “E que gol”. Esses são alguns dos mais famosos bordões criados por narradores brasileiros. Os bordões servem, muitas vezes, como uma marca particular de cada profissional da narração esportiva para chamar a atenção dos torcedores. E é importante no rádio para que o ouvinte possa identificar o profissional que está trabalhando naquela partida, já que não há o recurso da imagem, como acontece nas transmissões feitas pela TV. Muitas dessas frases de efeito são criadas sem prévia intenção, como no caso do emblemático “Eeeeee queee gooool”, expressada por Osmar Santos. “Foi numa rádio de Marília. Eu estava junto com ele. Na hora gol ele deu uma engasgada, mas acabou emendando. E ficou legal, ele gostou. Ou seja, o que foi quase uma falha virou uma marca maravilhosa”, garante Oswaldo Maciel, narrador da equipe de esportes da rádio Transamérica e amigo de Osmar Santos.

Maciça também tem seus bordões. Entre eles, o mais conhecido e admirado pelos ouvintes é o “Táááá naaa rede”, que antecede o grito de gol na transmissão. “O ‘tá na rede’ acaba sendo uma coisa diferente. Porque quase todo narrador grita gol direto”, diz Maciel, que explica que suas frases são, algumas vezes, criadas por acaso, sem pensar antecipadamente. “Às vezes surge na hora. Tem coisa que pinta do acaso, que você não sabe o porquê”, conta. A maioria dos bordões feitos pelos radialistas, porém, são utilizados nos momentos mais empolgantes do jogo, quase sempre na hora do gol ou quando ele se aproxima. Ou seja, é mais comum ouvir um bordão quando o jogo está bom, com bastante ataque, com as equipes procurando o gol. E um desafio para o narrador é fazer a transmissão daqueles jogos tidos como fracos, em que as duas equipes estão em baixo rendimento. O ouvinte não tem o apoio da imagem, e o locutor tem de levar a emoção pelas ondas do rádio até os ouvidos do torcedor. Um verdadeiro desafio. “O segredo é colocar sentimento, vibração naquilo que se está fazendo. O jogo de futebol normalmente é vibrante, emocionante. Em todos os jogos eu procuro relatar exatamente aquilo que está acontecendo. Quando o jogo é ruim eu falo mesmo. Falo que está horrível. Eu não posso enganar o ouvinte”, explica Oswaldo.

Situação contrária a essa é quando aquele que tem o papel de levar a emoção para torcedor com a sua voz e empolgação não está num bom dia. Questões familiares, de saúde, financeira ou até mesmo um mal estar pode estar presente a qualquer momento na vida de qualquer um, inclusive na dos narradores de futebol. E eles precisam driblar o baixo astral para atuar de maneira fiel com o ouvinte. “É difícil, mas dá para dissimular bem o problema particular com o momento do jogo. Na hora da narração você consegue esquecer quase que tudo. Você tem que prestar muita atenção e acaba se envolve tanto que a vida particular parece ficar um pouco de lado. Eu digo que somos como os palhaços no circo. Mesmo com problemas em casa, eles têm que fazer o público se divertir. É o que acontece coma gente”, exemplifica.


(José Manoel de Barros - Jovem Pan)

Há quem utiliza algumas técnicas específicas para trabalhar naqueles dias em que não está muito bem emocionalmente, quando acorda com o pé esquerdo. José Manoel de Barros, integrante da equipe de esportes da Jovem Pan, conta que procura ter a consciência e primeiramente reconhecer que aquele determinado dia não está como ele deseja.  Depois, tenta reiniciar a narração de uma maneira diferente, a fim de fazer melhor que antes. “Se isso não funcionar eu parto para uma narração mais técnica, para cumprir a obrigação. Porque não adianta eu tentar fazer coisas muito diferentes. Faço de tudo para não comprometer”, conta Barros, que defende a ideia de que narrador esportivo precisa ter dom para seguir na carreira. Para ele, a formação acadêmica é importante para definir o ramo se ser seguido, por exemplo, de radialista ou jornalista. Mas, para ser narrador, é preciso, sobretudo, ter vocação. “Você tem que sentir a emoção para poder passar. Depois vem a técnica”, defende.


       
(Rogério Assis - Jovem Pan)

Na Jovem Pan desde agosto de 2000, há mais de 13 anos, o narrador Rogério Assis conta que um dos dois momentos mais marcantes de sua carreira foi justamente quatro meses após ser contratado pela emissora, na final da Copa João Havelange daquele ano, entre Vasco e São Caetano, em São Januário. A partida foi marcada pela queda de parte da arquibancada do estádio. “Eu estava com o Wanderley Nogueira lá. Foi uma passagem marcante e muito triste. Felizmente não morreram pessoas. Era um cenário de guerra. Nunca imaginei um dia ver aquilo”, relembra Assis. Já o segundo episódio que marcou sua carreira foi em 2012, quando teve a oportunidade de narrar um golaço feito por Neymar, no jogo entre Santos e Internacional, válido pela Copa Libertadores. No lance, o jogador rouba a bola no campo de defesa e arranca, passando por vários adversários da equipe colorada, até chegar na área e tirar do goleiro. “Essa narração não é perfeita. Porque em determinados momentos eu não sou narrador. Eu começo a torcer pelo Neymar. Eu começo torcer para que ele faça o gol, tamanha plástica e beleza da jogada. Eu começo narrando e, a partir de um certo ponto, passo a torcer, como alguém da arquibancada”, finaliza Rogério. Essa narração foi traduzida e reproduzida por emissoras do Japão e dos Estados Unidos, mostrando a empolgação de Rogério Assis naquele momento.


 

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