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Santos Dumont: 100 anos de Educação Pública na Penha de França

O ano de 1913 foi marcado por um período de incertezas. A eletricidade já era uma realidade cotidiana com as lâmpadas incandescentes e os bondes elétricos. Surgiam os primeiros automóveis nas ruas, e consequentemente os primeiros atropelamentos de pedestres. A tragédia do Titanic, obra prima da inteligência humana ocorrida no ano anterior, ainda repercutia e trazia dúvidas quanto ao avanço tecnológico do homem. A Europa era politicamente um barril de pólvora, mas ninguém poderia imaginar que no ano seguinte aconteceria uma guerra entre as nações mais poderosas do planeta.

Nesta atmosfera, a cidade de São Paulo crescia com a chegada dos imigrantes europeus e asiáticos. A colina da Penha de França, outrora reduto de famílias tradicionais que aqui buscavam uma vida mais sadia e tranquila, agora recebia portugueses, italianos, japoneses e demais nacionalidades que aqui adquiriam um pedaço da terra para plantar e morar. O bairro já era mais paulistano com a chegada do bonde e a consequente integração com o centro da capital. As festas da Penha atraíam muitos paulistanos para a colina e um comércio ativo surgia nas principais ruas.

Com este crescimento, as famílias aqui chegavam com seus filhos. E estes precisavam de uma escola para estudar.

O governo de Altino Arantes foi muito atencioso com a Penha, afinal, a chegada dos imigrantes na província era de sua total responsabilidade, e uma escola na região se fazia necessária para atender os filhos destes “novos brasileiros”. Assim, há 100 anos, a colina da Penha de França ganhava sua primeira escola púbica. O grupo Escolar Santos Dumont.

O “Santos Dumont”  está preservado até hoje na Pça. 8 de Setembro. É o edifício público mais antigo da região e um ícone da tradição penhense. Construída em estilo clássico, frontão com amplas janelas, pé direito muito alto e assoalho que permite uma isolação térmica impecável, tinha a intenção de fazer com que o aluno tivesse a sensação de adentrar o “templo do saber”, razão de existir escadas de acesso à grande porta principal quando a construção poderia ser rés-do-chão. Todas as salas ficam de frente ao pátio central em estilo romano, possibilitando uma boa ventilação e aproveitamento da luz natural. Há alguns anos, especialistas em restauração fizeram algumas introspecções em paredes e portas no intuito de conhecer as pinturas antigas e o resultado foi surpreendente. Ficou à mostra alguns detalhes da pintura original onde podemos ver molduras em estilo art-decò ornamentando todas as laterais da parede, o que reforça a expressão arquitetônica de “templo do saber”.

O edifício original tinha um jardim e horta na lateral esquerda do prédio, hoje um estacionamento, e nos fundos oficina de marcenaria e alvenaria. Até os anos 50, as aulas dos meninos e meninas eram iguais na teoria, mas se diferenciavam na prática. Por isso, não existiam turmas mistas. Os meninos aprendiam práticas de carpintaria, hidráulica, alvenaria e horticultura. As meninas tinham aulas de jardinagem, culinária e costura. É bom lembrar que naqueles tempos a classe operária construía sua própria residência com a ajuda de colegas, e o quintal para plantar era essencial. As meninas compravam tecidos numa das lojas especializadas na Rua da Penha e João Ribeiro, linhas e agulhas nos bazares e costuravam seu próprio vestido. 

Portanto, o Santos Dumont oferecia um aprendizado essencial para a cultura e costumes da época.

Para entendermos o significado desta escola e de sua importância na comunidade penhense, basta notar a logística de sua localização: a escola está exatamente no coração do bairro e bem em frente ao ponto final do bonde. Numa época em que não existiam peruas escolares, a linha do bonde terminava exatamente em frente à escola, o que era de grande importância para as crianças de famílias operárias que viviam no Tatuapé, na época um grande polo industrial ancorado pela Matarazzo, Philco e várias metalúrgicas.

O Santos Dumont esteve presente na formação da grande maioria dos habitantes da colina. Em sua história, professores que ali estudaram quando crianças, voltaram mais tarde para ensinar.  O penhense tem uma relação afetiva com o edifício e sua história, e este centenário é motivo de orgulho para todos nós.

Fotos: CityPenha e Acervo do Memorial Penha de França
Memorial Penha de França
e-mail:
bondepenha@uol.com.br  www.memorialpenha.com.br


 

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