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Boa relação com o DINHEIRO começa na infância
Mulheres têm dificuldade de poupar, mas querem que seus filhos sejam diferentes.
Especialistas mostram como conversar sobre o assunto de forma construtiva.

Quando é difícil lidar com o próprio dinheiro, como ensinar as crianças a lidarem com ele? A educação financeira de adultos e crianças é um desafio do brasileiro, mas pesquisas sobre a relação das mulheres com as finanças mostram que elas falam sobre o assunto com os filhos, mas ainda têm dificuldades para formar uma poupança. Especialistas em finanças pessoais dão dicas para a superação desses desafios.

O estudo Barômetro Internacional da Educação Financeira da Mulher, realizado pela Visa em 27 países, com 25 mil pessoas – das quais 1.005 residentes no Brasil – detectou que as brasileiras são as segundas colocadas entre as que mais conversam com os filhos de 5 a 17 anos sobre gestão do dinheiro. A pesquisa não detalhou exatamente como é essa conversa e sim o tempo que elas gastam fazendo isso. Para Sabrina Sciama, diretora de Relações Corporativas da Visa do Brasil, o dado foi avaliado positivamente. “Mostrou que o assunto não é um tabu, o que consideramos um avanço”, afirma.

No Brasil, 594 mulheres foram entrevistadas e falaram sobre quanto tempo gastam para conversar com os filhos sobre dinheiro. O resultado é que a brasileira gasta, em média, 39,5 semanas por ano, o que é um número alto se considerarmos que um ano tem 52 semanas. As mexicanas lideraram o ranking com 41,7 semanas por ano.

Elas querem mais educação

De acordo com a pesquisa da Visa, as brasileiras consideram que a idade ideal para as escolas ensinarem noções de educação financeira para seus filhos é aos oito anos, enquanto a média mundial aponta para os 11 anos de idade. “Elas querem que os filhos aprendam sobre o assunto o quanto antes na escola”, diz Sciama.

Katia Cecotosti, empreendedora e mãe de Lorenzo, de 5 anos, diz que é importante esse tema ser abordado na escola. “O que ensinamos em casa deve ser complementado na escola. A criança admira e respeita o seu professor e a escola precisa aproveitar isso”, diz. Ela é daquelas que acreditam na importância de aprender sobre o assunto desde a infância, e isso é uma herança de seus próprios pais. “Eles me mostraram que era preciso poupar e pesquisar bastante antes de comprar. E isso é importante quando você começa a conquistar o seu patrimônio, seja para fazer aquela viagem dos sonhos, comprar carro, casa e investir nos estudos”, conta.

Lorenzo tinha três anos quando começou a ouvir falar sobre dinheiro, já que Katia e o marido Edson queriam explicar a importância do trabalho. “Procuramos mostrar que é preciso guardar primeiro e comprar depois. Então eu dei uma carteira que não usava mais e coloquei notas de dinheiro de brinquedo e moedas verdadeiras de real. Ele adorou as moedas e ficou orgulhoso, fazendo planos sobre o que compraria depois”, diz. Em agosto do ano passado, Lorenzo ganhou um cofrinho quando pediu um brinquedo de preço mais elevado. “Desde então, ele deposita as moedas que ganha dos pais e, depois, usa para comprar doces e brinquedinhos “, conta.

Pensar primeiro, falar depois

Cássia D’Aquino, especialista em educação financeira, diz que antes de falar sobre dinheiro é preciso pensar. Diferentemente do exemplo de Katia, que quer transmitir exemplos construtivos sobre dinheiro para o filho, muitos pais falam sobre dinheiro em excesso e em um contexto negativo.

“Os pais devem tomar cuidado para não falar sobre esse assunto apenas de forma negativa. É comum que se fale de dinheiro com angústia, tensão e raiva, em momentos em que o recurso está fazendo falta. O ideal é conversar quando a situação estiver boa também. É um jeito de apresentá-lo sob uma perspectiva otimista, para que a criança crie uma relação boa com o dinheiro”, avalia a especialista.

De fato, quem nunca ouviu frases de desabafo como “dinheiro não é capim” ou “dinheiro não nasce em árvore”? O que a educadora defende é que o assunto seja abordado também nas fases boas da família.

No entanto, o que pode acontecer com frequência é que a família pare de falar sobre o assunto quando há dinheiro. Ao mesmo tempo, surgem exemplos de pouca atenção ao manejo de recursos, o que é observado de perto pela criança. “Quando há dinheiro, os pais compram e até se e n d i v i d a m com troca de eletrodomésticos e carro novo. A mensagem que fica para a criança é que quando não há dinheiro deve-se ficar angustiado e com raiva. E quanto há dinheiro, se é displicente e se usufrui dele sem pensar nas consequências”, comenta.

Cassia diz que a criança forma opinião observando o que a mãe faz, principalmente porque passa a maior parte do tempo com ela. “É para a mãe que a filha pede o caderno com imagens de princesas. O pai acaba ficando um pouco mais protegido”, diz. Mais do que aprender com o que escuta, a criança aprende com o que observa.
Por isso, para ensinar sobre o assunto é preciso aprender sobre ele. Mauro Calil, educador financeiro e fundador da Academia do Dinheiro, defende que os pais busquem também a educação financeira para melhorar seus hábitos e transmitir bons exemplos aos filhos.

Primeira lição para o bebê

Para Cássia, a idade certa para introduzir esse assunto é por volta dos quatro meses, quando o bebê começa a desenvolver a capacidade de esperar neurologicamente e psicologicamente. “É covardia deixar a criança chorando no berço, para não ficar manhosa, antes dos quatro meses. Isso deve ser feito só a partir dessa idade, que é quando ela desenvolve a capacidade de microesperas. Ela aprende a confiar que vai ter o que precisa. Se muita gente aprendesse a esperar, não estaria endividado com o cartão de crédito e o cheque especial”, avalia.

Mas é por volta dos dois anos de idade que a criança faz o primeiro pedido de compra. Nessa etapa, diz Cássia, os pais podem começar a explicar o que é o dinheiro, mas de forma concreta, deixando-a tocar as moedas e mostrando os desenhos. “Elas adoram descobrir as imagens de segurança que existem nas notas e aprendem a ter cuidado com o dinheiro. O que não pode é passar a imagem de que aquilo é algo sujo”, ressalta a educadora.

Para Calil, nunca é tarde para falar sobre esse assunto. A dica do educador é inserir o assunto de forma lúdica. “Quando o filho começa a brincar com peças de encaixar, uma boa ideia é dar um cofrinho e brincar de inserir moedas. Ele começa a se acostumar com o hábito. Depois, é só lavar a mão da criança”, diz.

Aos dois ou três anos de idade, a dica de Calil é ensinar a contar as moedinhas e, aos quatro, a somar. “Quando ela for à escola terá noções de matemática e pode ter um bom desempenho”, completa.

A cada etapa, o cofrinho se torna uma referência também para o aprendizado da multiplicação, subtração e divisão. Com isso, reforça o educador, é possível transmitir a noção da importância de poupar para depois comprar.

Para ele, a semanada deve ser inserida na vida do filho aos sete anos, com a regra de que, ao final do período, não pode faltar e nem sobrar muito dinheiro, já que uma parte vai para o cofrinho.

A difícil tarefa de poupar

A pesquisa da Visa mostra que as mulheres brasileiras também têm dificuldades de fazer reserva financeira. Entre os brasileiros sem poupança, 51% são mulheres e 49% homens. “A principal razão para a maioria não ter reservas para emergências é a situação econômica. Ela acaba sendo mais responsável pela casa do que o homem e não deixa de pagar as contas”, afirma Sabrina Sciama, diretora da Visa do Brasil. Por outro lado, a pesquisa mostra que mulheres de quatro países, incluindo o Brasil, costumam seguir um orçamento. Os demais são Estados Unidos, Canadá e África do Sul.

Calil diz que para conseguir poupar não tem jeito: a mulher precisa pagar para ela mesma assim que receber o salário. “Todo mês guarde 10% da renda para emergências. Se for difícil, comece poupando 1% do valor e, a cada mês, aumente até chegar a 10%. É um valor simbólico, mas ajuda a criar o hábito”, completa.

Por Rejane Tamoto  • matéria publicada no Diário do Comércio


 

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