FOTOS

Por meio da fotografia, Gabriel Uchida registra a emoção das torcidas





Jornalista formado pela Universidade Católica de Santos, o fotógrafo Gabriel Uchida, 26, registra o futebol de uma forma diferente. Há mais de quatro anos ele se propõe a fotografar as principais torcidas organizadas – essencialmente as da capital – dentro do estádio e a caminho dele. Já cobriu, entretanto, jogos em Porto Alegre (RS), cidades do interior de São Paulo e no Rio de Janeiro (RJ), além de alguns na Argentina, um no Uruguai e outro na Etiópia. Todo seu trabalho é publicado site fototorcida.com.br, criado pelo próprio jornalista, e também no Facebook. Gabriel respira futebol. Vive o futebol.

O projeto aconteceu por acaso, durante a partida entre Portuguesa e Santo André, válida pela última rodada do Campeonato Paulista de 2009, no estádio do Canindé, em que as duas equipes tinham chance de partirem para a segunda fase da competição. Sendo santista e apenas a fim de acompanhar alguns amigos andreenses ao jogo, o fotógrafo resolveu registrar imagens da torcida. Daí surgiu a ideia do blog – hoje site –, que também veio com a proposta de mudar a forma como o futebol é mostrado e fazer algo que saísse do lugar comum. “Como jornalista e torcedor, eu já sentia falta de um conteúdo mais voltado ao torcedor, algo que fugisse dos resultados, estatísticas e vida dos jogadores. Sempre me interessei bastante por um lado mais cultural do futebol. Frequentemente compro livros e vejo filmes de futebol. E existe um universo incrível pouco explorado, que é a arquibancada”, conta Gabriel Uchida. Segundo ele, há poucos registros sobre torcidas nas últimas décadas. “É triste, porque a arquibancada também faz parte do futebol e muitas histórias sensacionais acontecem lá”, complementa.

O fato de ele ser santista nunca o atrapalhou. Curiosamente, muita gente achava que ele fosse palmeirense. “Eu tenho uma relação muito boa com as organizadas do Palmeiras. Muitos são meus amigos pessoais. Mas esse tipo de relacionamento também acontece com torcidas de outros times. Até fico feliz quando acham que sou torcedor de outro time, que não o Santos, porque mostra que meu lado torcedor não prejudica o projeto”, explica o jornalista. O trabalho contínuo nos estádios e a relação estreita com os líderes das torcidas gerou uma confiança de ambos os lados. “Minha relação com as torcidas é muito boa. Mas foi algo conquistado com o tempo e com muita conversa. Hoje existe uma confiança muito grande. Já participei de reuniões fechadas com lideranças e pude até opinar em certas questões, mesmo sendo de fora”, conta. Gabriel também conquistou o respeito e admiração de torcedores de outros países, como Argentina, Colômbia, Bolívia e Chile. Muitos, quando vêm ao Brasil, ligam para ele por já conhecerem seu trabalho e a proposta do projeto.

Uchida é, talvez, o único jornalista brasileiro a fazer esse tipo de cobertura. O motivo é o preconceito ainda existente por parte das organizadas com a grande imprensa, que, segundo o fotógrafo, muitas vezes deixa de apurar os fatos com um pouco mais de precisão. “Existem milhares de ótimas histórias na arquibancada, mas geralmente só se fala de brigas e o discurso é sempre com pouco conhecimento e muito carregado de preconceitos e sensacionalismo”, diz. Isso já fez com que ele passasse algumas vezes por situações delicadas. A pior delas foi num clássico entre Palmeiras e Corinthians no Pacaembu. Foi pouco tempo antes do rebaixamento do alviverde para segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Ou seja, o clima na torcida já não era dos mais calmos. Antes mesmo de ele começar a fotografar, um palmeirense alterado começou a discutir e chegou a tentar atacá-lo. Mas foi contido por outros torcedores e pouco depois se desculpou. “Acho que os jornalistas que cobrem futebol deveriam sair mais da sala com ar condicionado e experimentar pegar metrô ou ônibus para ir ao jogo. Deveriam ver como é o tratamento da polícia com o povão e se lembrar, principalmente, de que futebol não é apenas um jogo de onze contra onze”, defende Uchida.

Os melhores frutos do trabalho na arquibancada e em conjunto com as torcidas organizadas, segundo Gabriel, são as histórias e as amizades conquistadas. Ele conta que um episódio gratificante em sua carreira foi quando fez a foto de um garotinho erguido no meio da Gaviões da Fiel e a imagem passou por quase 20 países diferentes. Além de que, algum tempo depois, por intermédio de amigos em comum, o pai do menino ligou para ele e contou sobre a felicidade que toda a família estava com a repercussão da imagem. Ali foi selada uma amizade. “Desde então sempre nos vemos quando o Corinthians joga. E o garotinho até já pegou minha câmera para fotografar em alguns jogos”, lembra.
Dentre as dúvidas que muitos têm sobre o lado torcedor do fotógrafo, que tem de ser imparcial para que seu trabalho seja bem feito, é se ele não é membro de nenhuma torcida organizada e o que, de fato, o inspira para realizar todo esse registro. Uchida é categórico: “Eu não participo de nenhum grupo específico. Minha torcida é contra o futebol moderno, pela consciência de classe entre os torcedores e contra a violência policial. O meu lado é esse, não importa a cor da camisa, e sim o futebol para o povo”.

FotoTorcida mira ambientes fora da web

Em março de 2013 Gabriel Uchida deu um passo importante na finalidade de difundir a cultura do futebol. Seu trabalho foi apresentado em Addis Abada, capital da Etiópia. A exposição foi inteira do fotógrafo brasileiro e mesclada com cânticos de torcidas, o que aproximou ainda mais os espectadores do universo da arquibancada. Por enquanto as fotos viajaram apenas para o país africano. Uchida, porém, sonha em fazer algo parecido no Brasil. “Sinto muito que as pessoas das fotos e também aqueles que acompanham meu trabalho não possam ter visitado a exposição. Mas já existem convites para levar o material a outros países e espero também conseguir expor em São Paulo no futuro”, diz.
Um livro e produções em vídeo também estão nos planos do FotoTorcida, que será mantido também na plataforma digital, por meio do site, segundo Gabriel. “O site vai continuar, mas o FotoTorcida está numa fase de sair da web também”, explica. Agora, independente do local onde os registros serão expostos e a maneira como a cultura das torcidas chegará às pessoas, Uchida busca nos estádios boas histórias, gerar e manter grandes amizades. Forte nesse propósito, ele finaliza definindo o futebol ideal: “Para mim se resume em três palavras: paixão, loucura e anarquia”.


 

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