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Por que o papa Francisco fascina tanto os jovens?
por Juan Arias, publicada no jornal El País, 24-07-2013




Ninguém mais dúvida. Francisco agrada aos jovens, católicos ou não. Mais ainda, os eletriza, como se pôde comprovar nas ruas do Rio, onde pudemos ver, com um nó na garganta, o pequeno Fiat do papa materialmente invadido por uma maré de jovens peregrinos que vieram para a Jornada Mundial da Juventude.

A pergunta é por que esse fascínio de jovens que, ao mesmo tempo, como revelam as pesquisas, exigem da Igreja muito mais do que o próprio papa lhes oferece.

Dizem que não creem nos mais velhos. Menos ainda nos políticos. Dizem que são fundamentalmente egoístas e hedonistas. E sobretudo consumistas. Que não têm valores.

E chega Francisco, bem mais velho, quase um avô para eles, um papa exigente que os põe em guarda contra o "fascínio do provisório", quer dizer, a ânsia de consumir e possuir; que lhes diz que são a porta por onde entra o futuro do mundo, mas lhes propõe um futuro no qual "menos é mais". Chama-os a despojar-se do provisório e fugaz em busca do que permanece, da essência.

Gostam dele porque é diferente dos personagens do poder que eles conhecem e abominam. Dizem que Francisco "simplifica" as coisas, que para ele menos é mais.

Talvez porque os jovens sentem com força o verme do consumismo e do efêmero, sentem-se fascinados pela simplicidade de seus gestos e palavras.

Cansados das hipocrisias e do esbanjamento dos homens no poder, sentem-se atraídos e enlouquecidos vendo Francisco percorrer as ruas do Rio em um carro utilitário, sem blindagem, com a janela aberta. Veem-no sem medo de morrer, algo que excita os jovens.

E apreciam que Francisco seja um papa com "corpo". Não é um espírito nem um anjo. Não tem medo de beijar nem de abraçar. Não rejeita o contato dos corpos.

Intuem que Francisco não é um ator nem um hipócrita, que não exige o que não é capaz de fazer, que é consequente com suas palavras. Veem-no despojado, carinhoso, terno e ao mesmo tempo severo, a começar por si mesmo.

Quando soube que queriam contratar o chefe de cozinha de um luxuoso e mítico hotel do Rio, o Copacabana Palace, informou que preferia que as freiras lhe cozinhassem arroz, feijão e pão de queijo, bem à brasileira.

Gostam desse seu olhar, escreveu ontem um jovem, "que o olha e parece vê-lo por dentro".

Os jovens sabem que Francisco já foi como eles: teve namorada, pensou em se casar antes de decidir seguir sua vocação. Mais ainda, já sacerdote, durante um casamento apaixonou-se perdidamente por uma garota e passou, como ele mesmo contou a seu amigo, o rabino Skorka, uma semana sem poder dormir. Havia até pensado em deixar o hábito. Resistiu e preferiu seguir sua vocação. Isso também agrada aos jovens.

E, finalmente, os jovens sentem que Francisco acredita neles, no que representam no mundo. Acredita, como ele mesmo disse, nessa "capacidade de surpresa" que os jovens costumam oferecer.

Em tempos de descrença geral, enquanto grupos de adultos fazem ritos aqui na rua para "desbatizar-se" ou exibir seu ateísmo, uma boa surpresa é que centenas de milhares de jovens de tantos países e línguas diferentes se apaixonaram por um papa que lhes pede que se despojem da casca do supérfluo para sentir a vibração do que permanece e vale a pena saborear.

Sobretudo, disse-lhes o papa, vale a pena "fazer algo pelos outros". Parece pouco, mas é esse pouco proposto como mensagem condensada que está conquistando a simpatia e o carinho dessa juventude, sobre a qual ele disse ontem que "devemos abrir espaço" para que possa "crescer e amar em liberdade".


 

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