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Figura paterna muda, mas segue ativa para o desenvolvimento dos filhos
por Arilton Batista




Já era o tempo em que bastava um olhar mais sério do pai para que o filho voltasse a se comportar ou deixasse de fazer algo que estivesse fugindo de uma normalidade ou fosse inadequado. Há algumas décadas, por questões históricas e socioculturais, o pai tinha pouca afinidade com os filhos, restringindo-se a manter a ordem, estipular regras e puni-los quando julgava necessário. A mãe, inclusive, às vezes recorria ao argumento de “se comporte ou contarei ao seu pai”. A figura paterna se transformou. Com as reconfigurações familiares ocorridas de algum tempo para cá, o pai passou a dividir papéis com a esposa, como ir à reunião escolar do filho, levá-lo ao médico, às aulas de futebol, de dança. É verdade que com isso diversas vantagens foram descobertas. Algumas delas – talvez as mais significativas – são as questões do diálogo, da troca de ideias e o aumento do afeto. O pai não é mais entendido apenas no grito.

Essa mudança, porém, também fez com que se perdesse a mão, a dosagem e, muitas vezes, o controle das ações das crianças. O pai, que sempre representou a autoridade dentro da família, tem que tomar cuidado para não ser permissivo demais, o que pode tornar a crianças desobediente, autoritária e até insegura, já que não é sinalizada quando está errada ou não é corrigida. Impor limites é necessário, e pode ser feito com carinho e paciência. Para a psicóloga e psicopedagoga Renaura Silva Francisconi, o pai tem a função de mandar, pois hoje o jovem muitas vezes é quem tem o poder dentro de casa. “A geração adolescente de hoje apresenta dificuldades de respeitar limites. Os pais não definem esses limites e eles se sentem livres para fazer o que bem entendem. A independência do jovem encontrou suporte na educação liberal que acabou tornando-se permissiva. Cada fase da vida é ótima e tem seus encantos, desde que vivida de forma adequada, com responsabilidade”, explica Renaura.

Na ausência do pai – por separação, falecimento ou qualquer outro motivo –, a figura paterna pode ser exercida por um tio, irmão mais velho ou pelo avô. O importante é que haja essa figura, para que a criança, se menino, tenha em quem se espelhar e seguir os passos, e, se menina, tome um conhecimento maior sobre o universo masculino. “Autoridade é fundamental, porque o jovem busca na figura do pai a segurança. O filho precisa de alguém que o oriente até a vida adulta, com padrões de comportamento que sirvam de referência de limite”, explica a psicopedagoga. Ela ressalta também que a má conduta do “pai moderno” pode fazer com que as crianças de hoje se tornem adolescentes e adultos resistentes demais a acatar regras e limites, até mesmo em ambientes além da família. “Ser pai é realmente participar da vida do filho. Saber o que o jovem faz, com quem anda, quais os objetivos de vida, evitar o individualismo, mostrando um caminho produtivo a ser trilhado”, complementa Renaura.

O psiquiatra, psicodramatista, colunista e escritor brasileiro Içami Tiba explica que muito da postura do pai de hoje tem a ver com a maneira como ele próprio foi criado. A grande maioria teve pais rigorosos demais e autoritários, fazendo com que se tornassem hoje pais levianos e permissivos. A justificativa, segundo o escritor, é que os pais modernos não querem adotar com seus filhos o comportamento que tanto os incomodava em seus respectivos pais. Para Içami os pais de hoje, que tendem a ser liberais, acabam adotando uma postura mais severa quando se deparam com situações extremas, lembrado seus pais no passado. E isso não é bom para o filho. “O impressionante é verificar que esses pais, que tanto reclamavam dos pais de outrora, acabam repetindo hoje, com seus filhos, muitos dos comportamentos e atitudes de seus próprios pais. Quando a situação fica intolerável, o pai, embora avesso a isso, vê-se obrigado a lançar à criança um retumbante — e muitas vezes inadequado — não. São os dois lados de uma mesma moeda: permissivo demais e autoritário”, escreveu Içami Tiba no livro Disciplina, limite na medida certa.

Para a psicóloga e psicopedagoga Renaura Silva um dos erros capitais dos pais é deixarem o filho fazer o que quer, na hora e da forma que escolher. “O engano dos pais é acreditar que a melhor maneira de fazer o filho ser feliz é deixá-lo agir como bem entende, ou seja, ser o pai moderno”, diz. Segundo ela, há três questões importantes para a criação da criança e para formar adultos dignos – tarefa prioritária da família: é necessário confiança nos valores que os guiam e a maneira como vivem o dia a dia, além de não duvidar da força de seus princípios. “Nossos filhos têm que estar certos de que solidariedade, justiça e honestidade não estão fora de moda. O perigo maior para um jovem não são as drogas, e sim não crer no futuro e na sociedade em que vive”, defende a profissional. Renaura atua há 13 anos como psicopedagoga e alerta que a superproteção impede que a criança cresça. “Os pais estão encontrando dificuldades em administrar a liberdade dos filhos. Eles têm medo de errar, de dizer não”, complementa.

Outro ponto importante a se atentar é exposto pela psicóloga norte-americana Judith Rich Harris. Ela alerta, através do livro The Nature Assumption (O Mito da Criação), sobre a influência que o jovem recebe dos amigos, que chega a ser maior que a aplicada dentro de casa, pelos pais. A profissional ressalta, então, que o pai deve, sim, orientar para que o filho tenha companhias adequadas, que o oferecerá um bom direcionamento e lhe dê bons exemplos. No mesmo livro, Harris explica que o que o filho carrega do pai para a vida fora de casa são os genes. E que o comportamento pode se adequar conforme o ambiente e com quem o filho se relaciona. Ou seja, o comportamento dele pode ser de uma maneira dentro de casa, em meio junto com os pais, e de outra forma totalmente diferente quando junto com colegas e amigos; na escola ou na rua. Por isso é importante que o jovem esteja rodeado de boas companhias.

A figura paterna continua sendo fundamental para a educação e formação das crianças e jovens, e o entendimento disso é importante para todos os modelos de família, dos tradicionais aos novos formatos. Cada pessoa tem a liberdade de viver sua vida com as escolhas que desejar, mas é necessário ter consciência da sua responsabilidade quando decidir ter filhos e educa-los.


 

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