FOTOS

Namoro na Escola
por Arilton Batista

Diálogo e regras são fundamentais para que o namoro não prejudique o desempenho escolar

Ter um par amoroso na escola não é proibido e pode até trazer benefício ao aluno, mas tem de haver limite e é essencial a comunicação entre pais, colégio e aluno



Quase sempre é na escola que os jovens manifestam os primeiros sinais afetivos. E é no ambiente escolar que acontecem, eminentemente, as primeiras paixões e que se começa a namorar. E, nessa fase, sair de casa para ir à escola torna-se uma tarefa mais prazerosa para a maioria dos adolescentes. Encontrar o par no colégio pode trazer benefícios, como a realização de tarefas em conjunto e o auxílio em disciplinas nas quais um tem mais facilidade que o outro, além da inspiração, que tende a aumentar. Mas isso pode também fazer com que os alunos se dispersem das aulas, focando maior atenção no namoro e em situações que envolvem o relacionamento, como a troca de bilhetes durante a aula, excesso de conversa, discussões por ciúmes e até mesmo o afastamento dos demais colegas.

Dentro e fora da escola é notável a mudança ocorrida no comportamento dos adolescentes quando comparado com outras épocas. Houve o tempo em que não era comum o termo "ficar". Nas décadas de 1960, 1970, por exemplo, o namoro recente se limitava a andar de mãos dadas e, no máximo, trocar abraços. Hábitos bem diferentes dos vivenciados pelos casais hoje, em que a velocidade da informações é gigante e a tecnologia está dia a dia mais avançada, o que contribui assertivamente com a absorção de novas formas de cultura e faz com que tudo se torne mais dinâmico. Isso retrata a dificuldade que seria se os colégios ou os pais resolvessem proibir o namoro nas escolas. Diferente disso, a maioria das instituições de ensino, em parceria direta com os pais ou responsáveis, adotam a política de orientação, além de estabelecerem regras internas para os casais.

"A informação, através de rodas de conversas, palestras informativas e aulas interativas ainda é a melhor maneira de deixar bem claro os limites e regras do que pode ou não ser feito no namoro escolar. As regras têm que ser claras e negociadas, pois quando impostas geram conflitos e resistências", explica Maria Conceição, diretora pedagógica do colégio João XIII. Para ela é essencial que as regras sejam bem transparentes com relação ao namoro dentro da escola, pois há também na instituição turmas de alunos mais novos. Ligado a essas questões, a partir do 6º ano no colégio João XIII é inserida também aulas de Educação Sexual com as disciplinas de ciências e biologia. "No bimestre anterior, participaram (os alunos) de uma palestra, ministrada pelos nossos alunos do curso de enfermagem, sobre Doenças Sexualmente Transmissíveis. Nós acreditamos que a informação é a melhor forma de prevenção", conta Conceição.

A não proibição do namoro dentro da maioria dos colégios não significa, porém, que o ato deve ser interpretado como livre. E, para não haver dúvidas quanto às regras sobre o namoro nas dependências da escola, o colégio Casagrande, por exemplo, expõe aos pais ou responsáveis pelo aluno, no momento da matrícula e mediante assinatura, todas as condições, o que pode e o que não pode. Sendo assim, pais e escola trabalham alinhados. A diretora pedagógica do colégio, Cristine Almeida, ressalta a norma básica nesse sentido: "Em geral o casal permanece próximo, mas não é permitido que se namore nas dependências escolares". Mas conta também que a instituição procura - sempre - reciclar o diálogo com os alunos, em busca de mantê-los cientes das condições para o namoro ali dentro. "Raramente temos problemas com o descumprimento das regras estabelecidas, pois, quando se inicia um namoro, esses alunos logo são chamados e 'lembrados' da importância dos limites e da necessidade de que seus responsáveis saibam do relacionamento. Assim os jovens são estimulados a dialogarem com os pais, sem que seja necessário a interferência da escola no âmbito familiar", explica Almeida.

Além das orientações e exposições feitas pela escola, é papel fundamental dos pais direcionar o aluno e fazer com que ele siga à risca as normas do colégio, para que se tenha um melhor aproveitamento pedagógico, além de estimulá-lo a ter responsabilidade e a adquirir valores. "A família tem a função efetiva de formar o cidadão, quanto ao caráter e responsabilidade. Mas a escola não pode abster-se. E é aí que entra a nossa parte na transmissão de valores. Temos que ser exemplos e criar um vínculo de afetividade com o nosso grupo de alunos, para que eles tenham em nós uma figura de referência", diz Andréa Valentim, professora de língua portuguesa da Rede Estadual de Ensino. Valéria Albano, mãe de Débora Garcia, 13, do 6º ano, acredita que o melhor que os pais têm a fazer é conversar com filhos e fazer com que eles tenham em mente as consequências de atitudes inadequadas, dentro e fora da escola. "Ela (filha) paquera um garoto de sua sala. Isso tem atrapalhado seu rendimento. As notas decaíram e tenho percebido que ela pensa demais no menino. O que faço é tentar abrir os olhos dela sobre o prejuízo que pode estar tendo", conta.

O namoro, quando conduzido de forma equilibrada pelo casal, sem exageros e respeitando os limites vigentes na escola, certamente contribui para crescimento e rendimento dos alunos, tanto no aspecto psicológico, que se torna mais brando por poder estar com a pessoa amada inclusive na hora de estudar, como nas questões práticas, de tarefas. No caso de Murillo Brichesi, 17, aluno do colégio Fereguetti, fica evidente a importância de um namoro escolar consciente. Ausente da escola por conta de uma viagem, ele contou com total apoio da namorada, Kauanne Semeghini, 17, que fez cópias das atividades para ele. Eles, além de serem do mesmo colégio, também estudam na mesma classe. "Estar na mesma sala ajuda, porque quando um tem que faltar o outro pega a matéria e repassa", comenta. Para Karina Fereguetti, diretora pedagógica do colégio, tem sempre de haver um limite para o relacionamento no interior da escola. A exemplo do colégio Casagrande, no Fereguetti também são permitidos beijos em suas dependências. "A nossa preocupação é que o relacionamento não atrapalhe o processo pedagógico. Ou seja, que eles estudem e construam o conhecimento", diz Karina, que complementa: "O namoro pode ajudar no rendimento escolar, desde que seja baseado em companheirismo, amizade bastante madura, respeito e responsabilidade".

O principal motivo por qual a maior parte dos colégios não aceita comportamentos exacerbados relacionados ao namoro é a presença de alunos menores - iniciando o ensino fundamental -, que, mesmo tendo o recreio em horário diferente dos maiores, podem ainda sim estar expostos. Além disso, vale lembrar que o exagero pode se tornar constrangedor até mesmo para professores e outros funcionários da escola.


 

Voltar