FOTOS

Carnaval dá show no quesito paixão entre os brasileiros

Atrás de futebol e cerveja, a festa com raízes religiosas e marcada pelo samba é considerada uma das maiores paixões nacionais, aponta pesquisa realizada pelo IBOPE Inteligência

Comemorado às vésperas da Quaresma - período de quarenta dias de privações e jejum criado pela Igreja Católica -, as festividades de carnaval são encaradas como um deleite pela maior parte dos brasileiros, que aproveita para comer e beber de tudo, sair, dançar, namorar e extravasar de maneira geral.

Uma das maiores e mais tradicionais manifestações dessa época, sobretudo, são o desfiles das escolas de samba, em que se destacam as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. A ocasião é propulsora não somente da cultural, mas também da economia do país, que movimenta bilhões de reais em diversos setores durante os dias de festa.

Com onze títulos do Grupo Especial e dois do Grupo de Acesso (2010 e 2012) no carnaval paulista, a Nenê de Vila Matilde, tradicional escola da Zona Leste de São Paulo, desfila em 2013 falando no samba enredo sobre as várias lutas pela igualdade no Brasil. Interpretado por Celsinho Mody, o samba leva o título de “Da Revolta dos Búzios à atualidade, Nenê canta a igualdade”. Apesar de algumas adversidades que levaram a escola a disputar os carnavais de 2010 e 2012 no Grupo de Acesso, os integrantes e torcedores da Nenê de Vila Matilde acreditam no título, mas ressaltam que o amor é ainda maior que a ganância pela vitória. “Desfilamos primeiramente por amor e em segundo em busca do título. Busco sempre mais estar envolvida e tenho muita vontade de ajudar. Meu sangue é azul e branco”, diz a passista da ala Show Dentro da Escola Mônica Mariano, 27.

Envolvida no meio carnavalesco desde 2000 e com onze desfiles no currículo, Mônica é, sobretudo, um exemplo claro de brasileiro apaixonado por carnaval e carrega na genética este sentimento. A admiração pela festa começou por incentivo de um tio que foi ritmista também da Nenê de Vila Matilde. “O amor pela escola começou através de um tio. 

Representar a Nenê é uma mistura de adrenalina, com prazer e felicidade no ultimo grau. Sensação de dever sendo cumprido, de um trabalho de um ano todo sendo mostrado”, conta a passista matildense, que complementa: “O Carnaval representa alegria. A escola de samba representa vida”.

Outra escola de samba da Zona Leste que subiu do Grupo de Acesso para o Grupo Especial é a Acadêmicos do Tatuapé, que vai homenagear a sambista Beth Carvalho através do samba enredo. A escola foi vice campeã em 2012 e possui, no total, seis títulos em várias divisões do carnaval de São Paulo.

Saindo da região leste para o lado oeste da cidade, da Penha e Tatuapé para a Barra Funda, não há diferença no que diz respeito ao amor e paixão pela escola. Monalisa de Oliveira, 23, passista da Camisa Verde e Branco, também traz no sangue o sentimento pela escola e a habilidade e o prazer pelo samba. “Eu nasci praticamente sambando.
 
Admiro e frequento escola de samba desde pequena. Minha mãe já foi rainha de bateria e meu pai ritmista. A paixão pelo carnaval é herança dos meus pai”, conta. Apesar de ter e depositar todo seu amor e carinho na Camisa Verde e Branco, Monalisa admira o trabalho de outra escolas. “Apesar de desfilar e fazer parte apenas de uma escola de samba, prestigio e tenho carinho por outras. Por exemplo, Mocidade Alegre e Nenê de Vila Matilde”. Mas lembra: “É na Camisa que desfilo desde pequena. Acompanho outras agremiações, mas é aqui [Camisa Verde e Branco] que vivo o carnaval”.

O “carnaval moderno”, se assim podemos chamar, divide algumas opiniões, principalmente com relação aos que desfilaram e estiveram presentes nas escolas em outras décadas. Francisco Zamora, 49, torcedor da escola de samba Gaviões da Fiel, conta que na época em que participava diretamente dos desfiles o carnaval era encarado de maneira diferente. “Na época em que eu participava as pessoas desfilavam por amor à escola. E hoje em dia vejo que tem muito modismo, interesse. O carnaval se transformou em um produto industrializado. Quem tem dinheiro brinca. Quem não tem fica de fora. Tem gente que desfila em 4, 5 escolas”, diz Zamora, que saiu entre 1976 e 1978 pelo bloco Chorões da Tia G e, entre 1979 e 1990, pela escola Nenê de Vila Matilde. Por ser corintiano, Francisco torce para a Gaviões da Fiel, mas tem uma forte admiração e carinho pela Nenê de Vila Matilde, devido a sempre residir na região de Vila Esperança - bairro vizinho ao barracão da escola.

Nos dias 8 e 9 de fevereiro acontecem no Sambódromo do Anhembi os desfiles das escolas do Grupo Especial, no dia 10 desfilam as agremiações do Grupo de Acesso e, no dia 15, é a vez das campeãs se apresentarem. As escolas dos grupos 3 e 4, associadas à UESP - União das Escolas de Samba Paulistana, desfilarão em frente ao Metrô Vila Matilde (popular Radialzinha) no tradicional Carnaval da Vila Esperança, que acontece a 81 anos, nos dias 10 e 11 de fevereiro.

Cada qual com seu carnaval

Como todo tipo de manifestação cultural e artística; festas, gêneros musicais e segmentos esportivos, há quem goste e quem não goste. E há também os aficionados. O carnaval, como é fortemente atrelado ao samba, muitas vezes não é muito bem quisto por pessoas que gostam de rock e suas variações. É ocaso do universitário e roqueiro Victor Sbrana, 21, que, apesar de respeitar tudo que envolve as comemorações de carnaval, não consegue consumir o samba e nem o desfile. Mas ele aproveita bem uma consequência dessa época: o feriado prolongado. “Costumo viajar para o interior junto com a família. Quando não viajo, acabo ficando entre os amigos me divertindo e tomando cerveja”, conta. “Minha vida é rock’n’roll”, brinca o estudante, que admite torcer um pouco pela escola Dragões da Real. Mas só porque a agremiação representa seu time de coração, o São Paulo. “Tenho um carinho pela Dragões da Real, por ser da torcida do meu clube de futebol”, explica.

Bem diferente de roqueiro Victor é a realidade de Suzana Lopes, 25, que vive o carnaval o ano todo através das diversas micaretas que acontecem em todo estado de São Paulo, além das mais tradicionais, promovidas no nordeste do país. Envolvida nesse universo desde os 18 anos, a gerente administrativa é apaixonada pelos grupos Asa de Águia, Chiclete com Banana, Banda Eva e Timbalada. Sempre que possível vai a micareta na capital, interior e até em outros estados. “Sempre fui uma pessoa que gostei de festa, agito, de gente feliz e de bem com a vida. E nesses eventos você encontra muito disso. A energia não existe igual em nenhum outro lugar. Desde a da primeira vez que fui fiquei encantada. Virou uma mania que não consigo largar”, conta Suzana.

Naturalmente as micaretas se intensificam durante o período tradicional do carnaval, e as festas se tornam ainda mais intensas e animadas, com atrações de maior expressão. O estado da Bahia é considerado o berço desse tipo de evento. E Suzana define bem a sensação de estar presente nesta época do ano numa festa na capital baiana. “Nós foliões esperamos um ano para viver os melhores seis dias de nossas vidas. Salvador é fantástico. O lugar encanta, a energia vai a mil e a diversão é garantida”, define.


 

Voltar