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A Penha e o seu grande professor:
Glady Felix Del Buono Trama

A história da educação no Brasil começa com a chegada dos jesuítas. Não que inexistisse educação antes do descobrimento, mas os indígenas não tinham a marca repressiva do modelo educacional europeu e nem uma estrutura que tivesse um especialista, o professor. A data da fundação da cidade de São Paulo tem como referência uma igreja e uma escola. E era assim que começava um povoado no Brasil.

Foi com a chegada de D. João VI que o Brasil teve as primeiras escolas não religiosas, como a Academia Real da Marinha, a Academia Real Militar, Escola de Medicina, a Biblioteca Real, o Jardim Botânico, a Imprensa Régia e a Escola Nacional de Belas Artes. Os primeiros professores vinham de Portugal. A educação básica ainda era religiosa, e os padres recebiam subsídios do governo para manter as escolas públicas.

Durante muito tempo, a educação no Brasil continuava a ter uma importância secundária. Basta ver que enquanto nas colônias espanholas já existiam muitas universidades, sendo que em 1538 já existia a Universidade de São Domingos, e em 1551 a do México e a de Lima, a nossa primeira Universidade só surgiu em 1934, em São Paulo (USP).
Se a educação não tinha importância, obviamente o professor também não e este cenário só mudaria com a República. O Brasil precisava crescer como nação autônoma e para isso precisava de um povo preparado para as letras, o comércio, a saúde e a engenharia. 

O professor passa e ter então uma importância crucial neste processo de desenvolvimento e ganha notoriedade dentro da comunidade. É quando aparece o modelo clássico do professor: homens ou mulheres cultos, de educação refinada, conhecedor de pelo menos uma língua estrangeira, escritor de pelo menos um livro e artigo em jornais e revistas, habilidade de algum instrumento musical, praticante de um esporte olímpico, frequentador assíduo de programas culturais e científicos, conhecimento universal muito além da sua especialização, dono de uma biblioteca caseira respeitável, reservados, comedidos e muito respeitados.

Em pleno século 21, este modelo clássico ainda existe e convive conosco na colina da Penha. O professor Glady Felix Del Buono Trama.

Glady esta perto de completar 90 anos de idade e ainda está na ativa. Atualmente leciona inglês para um grupo de estudantes nas dependências da ETEC Aprígio Gonzaga. Não temos dados oficiais para confirmar, mas provavelmente seja o professor mais antigo do Brasil em atividade, com 70 anos de profissão. 

Quem estudou no Ateneu Rui Barbosa entre 1945 até 1995, com certeza se lembra do diretor da escola. Além da direção do estabelecimento, Glady dava as aulas de inglês. Mas na falta de qualquer professor, o aluno nunca ficava sem aula. Glady fazia a substituição seja qual fosse a matéria. Incrível, na opinião unânime dos alunos, a aula do Glady era muito melhor que a do professor titular.

Nas atividades esportivas das aulas de educação física, o prof. Glady às vezes fazia uma surpresa. Aparecia numa aula devidamente trajado para jogar basquetebol com a turma. E apesar de não ter estatura adequada para este esporte, era muito habilidoso e certeiro nos arremates. Pudera, Glady aprendeu o esporte no seu reduto, numa universidade americana que frequentou como estudante.

Glady era o homem que todos os garotos da geração que frequentou o Ateneu nos anos 50 e 60 gostariam de ser. Um professor de talento, um homem de classe, estudioso da arte, da ciência e das letras. Teve a sua graduação acadêmica nos Estados Unidos e o apoio da família que investiu tudo o que podia na formação do jovem que estava sendo preparado para ser um professor e dirigir o Ateneu.  Tocava jazz ao piano, falava o básico de vários idiomas, inclusive o japonês, viajou muito e conheceu o mundo todo. Escreveu alguns livros, hoje raros. Foi um grande destaque na cavalaria militar.

Um homem com todos estes atributos, é claro, chamava muito a atenção do público feminino. Antes de se casar e entre um casamento e outro, Glady estava sempre cercado pelas meninas e depois, mulheres. Quando o Memorial Penha de França toma o depoimento de moradores antigos da colina, os senhores que o conheceram tem uma lembrança glamorosa e muito respeitosa do prof. Glady. Mas nos depoimentos das senhoras moradoras antigas, as que a conheceram lembram-se também do seu charme, sua elegância, sua inteligência, e o fazem com aquele olhar vazio e até com suspiros.

O Ateneu Rui Barbosa não existe mais.  Foram muitos os penhenses e estudantes dos bairros vizinhos que tiveram sua formação naquela escola, inaugurada em 1933 na Rua da Penha , atual Av. Penha de França, e a partir de 1945 no famoso prédio próprio da Rua Padre João, uma iniciativa da profa. Ernestina Del Buono Trama, mãe do professor Glady. Foi a primeira escola da região com curso comercial de ensino médio e escola de normalistas. Foi pioneira em estrutura para a prática de educação física, laboratório e até na formação de uma banda marcial em substituição à tradicional fanfarra nos desfiles de 7 de Setembro e do Dia do Trabalhador, o que deu muitos prêmios à escola e obrigou os “concorrentes” a formarem suas bandas também. Foi também a primeira escola com curso universitário. O prof. Glady foi um dos fundadores da faculdade de Filosofia da então Faculdade Zona Leste no prédio do Ateneu. Foi a origem da atual UNICID.

O prof. Glady e o Ateneu também foram descobridores de talentos. Foram muitos professores que saíram do Ateneu para as outras escolas da Penha. Um exemplo lembrado carinhosamente pelo prof. Glady foi o do prof. Leone. Glady o descobriu saído recentemente de um seminário e o convidou para lecionar latim e ciências. Do Ateneu, Leone foi para o São Vicente, Liceu Santo Afonso e Estadual da Penha. Assim como o prof. Glady, Leone também é muito lembrado pelos estudantes das grandes escolas da colina. Se a Penha de França tem uma história de grandes escolas é porque tiveram grandes professores, e Glady Felix Del Buono Trama é um símbolo vivo deste passado glorioso.


 

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