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Artesanato e Lembranças

 

Estava ofegante, o coração acelerado, suas passadas eram rápidas conforme permitiam a neve e o relevo irregular. As explosões e os tiros do inimigo ficaram para trás. Passava das 16:00 horas e Mário Luiz estava perdido. Sua patrulha se separara após ter sido surpreendida por uma patrulha alemã. Dezembro de 1944, frio intenso. Mário Luiz era Pracinha da Força Expedicionária Brasileira e integrava o 1º Regimento de Infantaria da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (1ª DIE). Tinha 1,67 metro de altura, pela morena clara, cabelos pretos, bigode e uma marca de nascença na face direita do rosto que se assemelhava à uma tâmara. 

Naquele dia de dezembro fora destacado com mais três pracinhas para uma patrulha próxima às linhas alemãs que estavam no Monte Belvedere, na Itália. O Cabo, comandante da patrulha, não inspirava muita confiança no trato de mapas e bússola e a acabou levando além dos limites seguros dos Aliados; quando foram atacados. 

Na floresta seguiu em direção oeste achando que lá encontraria seu Regimento. A neve dificultava a caminhada encobrindo buracos e pedras que o faziam se desequilibrar e cair. Pisou em falso e rolou alguns metros para baixo, caindo sentado sobre a neve numa pequena clareira. Seu capacete uns dois metros à direita e sua carabina M-1, à esquerda, enganchada numa moita. Ainda sentado, olha para cima e vê, uns seis metros à sua frente, um soldado alemão, com seu casaco camuflado branco, apontando-lhe sua pistola Luger P08. Ficou atônito esperando o disparo do inimigo e, assim, o fim de sua vida.

Segundos se passaram e não houve disparo algum. Mário Luiz fitou o alemão nos olhos. Usava quepe, deveria ser oficial, pensou. Tinha aproximadamente 1,90 m de altura, olhos azuis penetrantes, cabelos louros, rosto grande e queixo quadrado e na face esquerda uma cicatriz horizontal, saindo da base do olho até a orelha da qual faltava a parte superior.  

O alemão não atirou. Após olhar com atenção para Mário Luiz, com sua mão esquerda fez um gesto de silêncio para ele e apontou seu dedo na direção do ombro de Mário indicando a Bandeira do Brasil. Após, apontou para a direção sul e fez um gesto para que se dirigisse para lá; também por gestos, indicou que ele iria para a direção norte e que era para Mário aguardar sua retirada dali. Mário Luiz entendeu tudo. O alemão se afastou de frente para ele e adentrou à floresta novamente. Mário esperou uns 10 minutos sem se mexer. Sentindo que era seguro se levantou, pegou o capacete e a carabina e seguiu para a direção indicada, sem nada entender. Após uma hora de caminhada chegou até suas linhas onde soube que o Cabo e outro pracinha também chegaram, mas, um terceiro fora feito prisioneiro. 

Hans Fischer era Tenente do 2º Batalhão do Regimento 1.043 da 232ª Divisão de Infantaria Alemã. A função dessa Divisão era manter uma linha de defesa que ia do Monte Belvedere até o Monte Della Torraccia, passando pelo Monte Castelo, impedindo o avanço das Forças Aliadas. Ele, todos os dias caminhava pelas linhas sob responsabilidade de seu batalhão verificando as condições da tropa e dos equipamentos, transmitindo um relatório da situação ao Quartel-general.

 


Naquele dia de dezembro Hans estava cumprindo sua obrigação quando ouviu um barulho no terreno acima de sua posição e, em seguida, viu um corpo rolando espalhando capacete e carabina pela clareira. De imediato sacou sua arma. Viu o soldado aliado cair sentado, pensou em atirar, mas uma coisa lhe chamou atenção: a Bandeira do Brasil no casaco do soldado. Nunca vira um brasileiro antes! Lembrou que tinha parentes distantes no Brasil. Percebeu que o aliado tinha uma mancha no rosto. Pensou um pouco, sua Luger apontada para o soldado. Entendeu que ele estava perdido. Então pediu silêncio e indicou a direção de suas linhas e que também se retiraria dali e, após, ele deveria ir embora.

Nem Hans, nem Mário contaram essa passagem para alguém na época ou mesmo depois.

A guerra acabou e os Pracinhas retornaram para o Brasil. Mário Luiz voltou para São Paulo. Concluiu o “colegial” e conseguiu emprego num banco. Fez uma bela carreira, inclusive concluindo curso superior. Casou e teve filhos.

Para Hans Fischer, após o término da guerra, a sorte foi outra. Passou seis meses num campo de prisioneiros americano e, após ser libertado retornou para sua cidade natal que, para sua infelicidade, ficava na parte da Alemanha ocupada pelos Soviéticos. Seus pais estavam mortos. A única irmã estava casada; e, ela e o marido não tinham como lhe ajudar. Decidiu então tentar a sorte em outro lugar.

Quarenta e cinco anos se passaram após o término da guerra. Mário Luiz, já aposentado, resolveu fazer uma viagem pelo sul do Brasil com a esposa. Era junho de 1990, embarcaram no aeroporto em São Paulo e desceram em Porto Alegre. Alugou um carro para conhecer a Capital Gaúcha, com seu Mercado Público, Praça da Alfândega, Parque Farroupilha entre outros pontos turísticos; depois rumou para a Serra Gaúcha onde conheceu as vinícolas e a gastronomia. De lá seguiu para a Serra Catarinense indo direto para São Joaquim, se hospedando no centro, na pousada Serra Verde. 

Numa manhã fria de um sol vivo, após saborearem o café da manhã da pousada, Mário e esposa decidiram caminhar pelo centro de São Joaquim. Em dado momento, na Rua Manoel J. Pinto, viram uma casa muito charmosa de linhas antigas com uma placa na porta de entrada com os dizeres “Artesanato e Lembranças”. Entraram e Mário olhou para o homem que estava atrás da caixa registradora reconhecendo a cicatriz no rosto. O homem ao ver Mário na porta reconheceu a mancha em seu rosto. Não disseram nada. Mário e a esposa olharam a loja, nada compraram e saíram. Mário levou a esposa de volta à pousada e lhe disse que precisava retornar àquela loja para rever uma lembrança que deixou passar.

Voltou à loja e não haviam clientes. Pegou uma boneca com trajes típicos e se aproximou de Hans para pagar, mas antes perguntou: porque não atirou? Hans, com um sotaque carregado respondeu: vi a bandeira de seu país e lembrei que tinha parentes distantes por aqui. Também estava cansado da matança e sabia que a guerra acabaria em breve e não seríamos nós a ganhar; além de que, você estava desarmado e.… era baixinho.... Sorriu. Mário Luiz, como que querendo mostrar à Hans que além de sua vida também salvara a de outros, disse: voltei para o Brasil, casei, tive três filhos e seis netos. Hans respondeu: fico feliz por você. Mário agradeceu e foi saindo. Hans interpelou-o dizendo: são cem cruzeiros! Mario parou sem entender e, logo lembrou que estava com a boneca nas mãos.... Ambos riram! Mário voltou pagou a boneca e foi embora. Não se perguntaram os nomes e não mais se encontraram...

 

Por Roberto de Jesus Moretti • Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. rdjmoretti@gmail.com


 

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