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Namoro no século XXI: Namorar ou ficar?

 

A sociedade atual está em estado de mutação constante. Termos novos são criados, termos antigos são reinterpretados. Não há verdades absolutas e sim opiniões e verdades particulares.

Os conceitos aprendidos em família não sobrevivem à avalanche de deseducação encabeçada pela mídia e pelos formadores de opinião. Aquele que não se adequar ao sistema será considerado como “anormal”. Desse modo, implica também as relações interpessoais que se estabelecem de uma forma cada vez mais superficial e com interesses particulares. 

O relacionamento amoroso e o desejo pelo outro, tão antigos quanto o próprio mundo sempre fizeram parte da humanidade, apenas as suas formas de expressão é que foram se contextualizando conforme as exigências das sociedades. 

O Minidicionário Luft define namorar como procurar inspirar amor a, cortejar, galantear; ser namorado de; apaixonar-se, enamorar-se, possuir-se de amor; andar em namoros com alguém. Até pouco tempo atrás, o namoro era algo pré-nupcial, com regras bem-definidas e padrão comumente aceito. Alguém, ao sentir-se atraído por outrem do sexo oposto, procurava-o, propondo-lhe namoro. Esse consistia em encontros constantes, com diálogos sobre os dois, momentos de romance, abraços e beijos limitados, com considerável reserva e planos para o futuro.
Com o advento da era pós-Beatles e o desenrolar do movimento Hippie, o namoro sofreu grandes mutações. Seus limites foram ampliados. Na década de 1980, a chamada “amizade colorida” entrou em ação. Tratava-se de algo diferente do namoro. Rapazes e moças mantinham encontros com o compromisso de não terem quaisquer compromissos! Com o passar dos anos o namoro continuou em processo de mutação.
Hoje os relacionamentos amorosos, o “ficar” caracteriza-se por ser efêmero, passageiro, fugaz, um relacionamento breve e sem compromisso que poderá apenas ter a duração de um beijo. Predomina nessa forma de relacionamento a sensorialidade, a descartabilidade do outro e a não obrigatoriedade do sentimento. 

Um código de relacionamento marcado pela falta de compromisso e pela pluralidade de desejos, regras e usos. O objetivo principal é a busca de prazer ‘Ficar com’ é a maneira mais fácil de chegar perto de um outro sem se comprometer. É um exercício da sedução. 


Onde tudo começa: o flerte

O flerte humano é uma espécie de ritual ou será uma arte?  Pode ajudar na compreensão das relações humanas, parecendo evidente que uma pessoa que tenha pontos favoráveis em sua autoestima, ocorre um aumento na probabilidade de seleção de um parceiro que venha de acordo com as suas expectativas e necessidades amorosas.

O alisar dos cabelos com as mãos, um olhar insinuante, uma súbita piscada de olhos. Esses são, entre outros, os movimentos mais conhecidos do emocionante jogo do flerte ou paquera, que fazem parte do repertório da conquista entre os jovens e adultos. O flerte sempre antecede aos namoros e até mesmo o ficar.

A atração física é o principal fator que determina um relacionamento interpessoal, esse comportamento pode ser resultado de uma sociedade capitalista, com a visão no ter, dando um valor material para as pessoas, adotando relações cada vez mais superficiais, nas quais a beleza é mais valorizada do que o próprio ser em sua essência. Isso institui o ficar como sendo o melhor, sempre acentuando a “coisificação do outro”. 
Essa situação atribui-se também às pessoas, tornando-as objetos de consumo, e estende-se às relações afetivas. A partir da descrição desse quadro, podemos entender o ficar como uma forma de consumismo, pois é um relacionamento fugaz e com uma troca sucessiva de parceiros.

Atração interpessoal

Os fenômenos de atração dizem respeito aos componentes afetivos das relações sociais, em particular, às atitudes, às emoções e aos sentimentos positivos que experimentamos na relação com os outros. Muitos afirmam que a atração interpessoal não envolve somente quem atrai, como também quem é atraído, e que, quanto mais atraente a pessoa, mais atraente, elegante e delicado espera que seja o seu par.

Relação entre ficar e namorar

 “O ficar é o namoro corporal sem compromisso social”. Diferentemente do ficar, o namoro é visto, em nossa cultura, como uma relação afetiva constante e duradoura, tendo o compromisso como o elo e a afetividade sempre presente.

O namoro é uma instituição de relacionamento interpessoal não moderna, que tem como função a concretização do sentimental e/ou ato sexual entre duas pessoas em troca de conhecimentos e uma vivência com um grau de comprometimento inferior à do matrimônio. 

A grande maioria utiliza o namoro como pré-condição para o estabelecimento de um noivado ou casamento, definido este último ato antropologicamente como o vínculo estabelecido entre duas pessoas mediante o reconhecimento governamental, religioso e social.
Namoro significa a relação afetiva mantida entre duas pessoas que se unem pelo desejo de estarem juntas e partilharem novas experiências. É uma relação em que o casal está comprometido socialmente, mas sem estabelecer um vínculo matrimonial perante a lei civil ou religiosa.

A clássica expressão “casaram e viveram felizes para sempre” está cada vez mais distante e soa como algo um pouco ultrapassado. Aspectos relativos à profissionalização e à independência econômica da mulher, à revolução sexual, ao aumento da expectativa de vida, à modernização dos costumes e o maior grau de exigência nas relações têm contribuído para o aumento da busca de novos parceiros e novas uniões buscando um eterno namorar.

A motivação que leva as pessoas a se unirem em um namoro ou casamento ou em uma união estável está associada à expectativa de viverem em harmonia, de encontrarem a felicidade constante, todo o tempo. Entretanto, a vida conjugal envolve tarefas, responsabilidades e compromissos que muitas vezes surgem divergências, conflitos, que os envolvidos não conseguem superar ou até mesmo não querem superar, por dar muito trabalho. 

Sendo esse mercado extremamente competitivo, o indivíduo se vê imerso em um universo que tem a impaciência em compreender o outro muito intenso. 

O desejo de “aproveitar” mais a vida, sem frustação, o indivíduo quer ser e se sentir livre de quaisquer leis ou limites que restrinjam as suas possibilidades de buscar a satisfação das próprias necessidades e a felicidade privada, o que significa viver em busca de mais e maiores prazeres, e manter a própria liberdade, livre de quaisquer limitações ou constrangimentos que possam ser impostos por um parceiro amoroso fixo. 

A sensação de frustação, de incompetência e ineficiência está latente em seus sentimentos e dói, por isso é mais fácil não questionar ou mexer em um campo quase inexplorado; o campo do verdadeiro sentimento, então se desiste ou interrompe uma possibilidade de um bom relacionamento pelo medo de enfrentar mais frustações e não ter alcançado os resultados esperados, é essa fuga tem que ser rápida em menor tempo possível.

Mas aos que enfrentam a situação e priorizam o verdadeiro sentimento do amor usam estratégias para fluir e firmar as possibilidades de ter um verdadeiro namorar na maior parte do tempo.

Por isso o termo de casais casados há algum tempo dizerem que ao sair para um passeio ou a um restaurante ou ate mesmo em um motel que “irão namorar”, pois, para perpetuarem a mesma sensação do que no começo do ficar ou namorar seja relembrada ou entrelaçada nesses passeios que saem da rotina.

Essas tentativas de estar envolto em namoro no maior tempo possível é que por mais modernidade que se tenha nos relacionamentos, segundo Bauman, em nossa sociedade, o indivíduo espera ter uma liberdade livre de riscos, o desfrute de sua liberdade e um “final feliz” garantido, resultados assegurados.

 

Por Cida Lopes • Gestora/Produtora de Eventos/Docente – MBA em Hospitalidade •  cida.aparecida.lopes@gmail.com


 

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