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Pecado Mortal

 

Naquele dia ele era o francês Jean Michell Wallace. Estava na primeira classe do voo Paris-Toronto, da Air France. Seria sua última missão em campo e depois encerraria sua carreira. Não tinha mais interesse em prosseguir, iria para a burocracia da agência. Já perdera muito, especialmente sua família. E, aquela missão era especial porque confrontaria seu melhor adversário. Seu nome verdadeiro, Sergei Aleksandr Ivanov; branco, 1,84 metro de altura, 95 quilos, ombros largos, rosto quadrado, olhos verdes, cabelos ruivos; agente russo, cinquenta e quatro anos de idade, trinta e sete de atividade. Começara cedo, aos dezessete. Seu alvo, Anthony Joshua Willians, agente americano, filho de pai americano e mãe canadense; branco, 1,80 metro de altura, 92 quilos, ombros largos, rosto oval, olhos castanhos claros, cabelo pretos, cinquenta e três anos, trinta e dois de atividade. As últimas informações davam conta que se encontrava na área metropolitana de Toronto, mais precisamente, em Bradford West Gwillimbury.

O avião desceu às 16:45 horas, no Toronto City Centre Airport. Jean Michell passou pela alfândega onde seu passaporte foi conferido e o guarda lhe perguntou qual o motivo de entrar no país, ao que respondeu em bom francês, sempre negócios. Liberado, dirigiu-se até o estacionamento do aeroporto onde encontrou o carro que lhe estava preparado, um Honda Civic prata, um carro popular por lá. Colocou a pasta que carregava no chão, abaixou-se e conferiu se não haveria nenhuma bomba embaixo do veículo. Foi no pneu traseiro esquerdo e pegou a chave. Abriu a porta e entrou colocando sua pasta no banco do passageiro. No porta-luvas viu a pistola 9mm Makarov e o silenciador. Ligou o veículo, ajustou o GPS com o endereço transmitido e partiu. Saiu do aeroporto pelo Ferry Boat, seguiu pela Eireann Quay, depois para a Quenns Quay W até chegar à Lake Shore Blvd W de onde seguiu para a Harbour St, chegando, por fim, à Yonge St, que o levaria direto ao seu destino.

Era um dia triste de outono no mês de outubro, a temperatura máxima não passava dos 16 graus. Ventava muito, as folhas das árvores caíam e o tráfego estava carregado. Pensava apenas em sua missão e em como encontraria seu adversário. Sabia que ele se afastara do serviço por algum motivo, mas, exatamente o porquê, não fora descoberto. Ambos tiveram passagens perigosas em comum ao longo da carreira, ora em lados diferentes ora do mesmo lado quando o inimigo era comum aos interesses de ambas as pátrias que serviam. Mas, a situação agora era de oposição. Sua missão: eliminar o alvo e, isso, não era apenas serviço, tinha um quê de pessoal.

Após sair da região central de Toronto, o tráfego ficou mais leve em direção ao subúrbio e Sergei seguiu tranquilamente. Perto das 19:15 horas chegou ao seu destino, em Bradford West Gwillimbury, na Tigertail Cres. Estava escuro e a temperatura caíra ainda mais. Parou o veículo ao lado esquerdo de um outro já estacionado defronte a uma casa assobradada com duas portas de garagem. Ao lado da garagem pode ver, na parte térrea, a fachada da casa com duas janelas envidraçadas brancas ladeando a porta de entrada em madeira, também branca, com uma pequena janelinha ao centro; e, acima, três janelas brancas, indicando a existência de três dormitórios. A casa era toda revestida com pedra reconstituída estilo capri; e na parte de trás existia um bosque. Via-se apenas a iluminação da lareira numa sala e nenhum movimento mais. Abriu o porta-luvas do carro, pegou a Makarov e, instalou o silenciador, colocou a arma no bolso direito do casaco, abriu a porta e desceu. Ninguém estava na rua naquele momento, apesar de ainda ser cedo. Percebeu uma senhora o observando de uma janela por trás de uma cortina numa casa no outro lado da rua.


Chegou devagar até a porta da frente, ficou atento a qualquer barulho e ouviu apenas o fraco crepitar da lenha na lareira. Mexeu na maçaneta e percebeu que estava destrancada. Colocou a mão direita no bolso segurando a arma e abriu. Após entrar, sacou a arma e a apontou para sua frente; tudo estava escuro e seguindo em direção à iluminação da lareira à sua esquerda chegou vagarosamente até a porta da sala quando ouviu Anthony dizer, seja bem-vindo Sergei, eu já o esperava, pode baixar a arma. Sergei olhou para os lados e não viu mais ninguém, então baixou a arma, dizendo, olá Anthony! Já faz muito tempo que não nos encontramos; e, caminhou para sua frente. Anthony estava sentado em uma cadeira de rodas com um cobertor de flanela quadriculado sobre suas pernas; e, ao seu lado uma pequena mesa de madeira adornada e redonda, com duas garrafas de cerveja por abrir e dois copos. O russo ficou curioso com o homem pálido e magro à sua frente. Anthony percebendo a curiosidade, disse, acho que você chegou tarde, meu tempo é curto neste plano, mais dois ou três dias talvez. Se demorasse um pouco mais, não iria cumprir sua missão.

O russo olhou as cervejas e os copos e disse, você esperava alguém? Anthony respondeu, sim, você! Todas as noites peço para minha enfermeira colocar as cervejas e os copos ao meu lado, aguardando a sua visita. Sente-se! Sergei viu uma poltrona de tecido de fundo bege, estampas floridas e babados cobrindo os pés voltada para a lareira e, virando-a de frente para Anthony, sentou. Por alguns momentos 

olharam-se olhos nos olhos e na mente de ambos surgiram as imagens de todas as missões em que atuaram lado a lado ou em lados opostos. Desculpe-me, disse Anthony. O russo levantou-se, pegou uma cerveja e girando a tampa a abriu, olhou para o rótulo e leu “Péché Mortel”, então disse, bem apropriada a cerveja, afinal de quantos pecados mortais somos culpados! Anthony sorriu, pegou a outra garrafa abrindo-a com a mão e levou-a à frente num gesto de brinde sendo tocada pela garrafa que estava nas mãos de Sergei; o qual teve de se 

levantar para isso.

Beberam um gole e as abaixaram. Sergei voltou a sentar e perguntou ao oponente, o que deu errado naquele dia. Ele respirou fundo e respondeu, acho que tudo...minha missão era vigiar você e impedir que os líbios o neutralizassem; mas, eu e minha equipe chegamos tarde..., e o resto você sabe melhor do que eu. Com uma lágrima no rosto o russo emendou, esse pequeno atraso custou a minha família e, além dos líbios, eu também o responsabilizo por isso, compreende! Sem tirar os olhos dos olhos do russo o americano assentiu com a cabeça e bebeu outro gole de cerveja. O russo continuou, você e sua agência incomodaram muita gente no meu país, e eles o querem neutralizado o mais rápido possível. Quando você se afastou, imaginávamos que estivesse se preparando para uma nova ação, não tínhamos ideia de que estaria morrendo. O americano sorrindo disse, é a ironia de nosso trabalho, passamos anos e anos nos expondo ao perigo e, quando menos se espera, o que vai acabar contigo estava sempre dentro de você.


Sergei colocou a mão no bolso do casaco e retirou a Makarov com o silenciador, colocando-a em seu colo. Anthony olhou o movimento e apenas assentiu com a cabeça, quando o russo falou, porque veio para esse lugar? O americano deu uma olhada ao redor da sala e respondeu, esse país foi a pátria de minha mãe e por um tempo fui feliz aqui com ela, até meu pai ter que retornar para os Estados Unidos. Teoricamente a agência não sabe que estou aqui, apenas um amigo muito ligado. Eu escolhi assim e sabia que você me acharia. Na verdade, pedi que esse amigo vazasse a informação.

O russo pegou sua arma e apontou para o americano. Por uns dez segundos a tensão se fez sentir na sala; o americano olhava-o fixamente nos olhos, quando o russo disse, Eu o entendo... Antes de vir para cá recapitulei tudo o que aconteceu naquele dia, inclusive tive uma “boa conversa” com os líbios que planejaram o ataque; e, o atraso teria acontecido com qualquer um, inclusive comigo. Nem sua agência nem a nossa conseguiram prever a pequena alteração no plano deles para aquela missão. Então, não! Termine sua cerveja e adeus!

Ele guardou a pistola no bolso, andou até a porta da entrada, a abriu, saiu e a fechou. Seguiu para o veículo, ligou-o e foi embora de volta ao aeroporto. Defronte à lareira, Anthony bebeu o último gole de sua Péché Mortel, deu um suspiro, sua cabeça reclinou para a direita e a garrafa caiu de sua mão...

 

Por Roberto de Jesus Moretti • Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. rdjmoretti@gmail.com


 

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