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Dia Difícil

 

Eram 05:45 horas da manhã de uma terça-feira de um junho frio e o relógio não despertou. Marilda, assustada, acordou atrasada ao menos uns quinze minutos. Levantou correndo, chamou sua filha Carla, dizendo-lhe para preparar o café. Marilda, sua filha Carla e a neta Rosana, residem na Penha, nas proximidades da Rua Guaiauna.
 
Com o café da manhã pronto Carla acordou a filhinha Rosana, apenas quatro anos; e, passou a arrumá-la para ficar numa escolinha nas proximidades. Avó, filha e neta alimentaram-se rapidamente, colocaram a louça dentro da pia, vestiram-se e, tomando a mochila de Rosana, saíram para o trabalho. Desceram a rua onde moram, deixaram Rosana na escolinha e seguiram à pé até o Metrô Penha. Marilda e Carla trabalhavam no Bom Retiro, numa loja de roupas que também tinha ao fundo uma oficina de costura.

Na estação do metrô enfrentaram uma grande fila para passar pela catraca e acessar a plataforma sentido centro. Após uns dez minutos de espera, passaram, desceram a escada rolante e dirigiram-se para a extremidade da plataforma que fica voltada para o bairro, lugar onde os vagões da composição estão mais vazios. Já eram 06:40 horas; o atraso cada vez maior e o patrão coreano ia pegar no pé de Marilda, pensou.

Uma composição de metrô veio e foi. Outra composição também veio e foi. Na terceira, Marilda e Carla conseguiram entrar. Espremidas, seguiram em direção à Estação Sé. No trajeto até a Sé, Marilda percebeu um homem se encostando demais. Deu-lhe uma cotovelada e ele, sem dizer nada, se afastou como pode. Dia difícil, pensou.  Marilda, na casa dos quarenta anos, 1,58 m de altura, 65 kg, morena, cabelos compridos pretos, olhos pretos, busto avantajado, o qual gostava de exibir em generosos decotes, geralmente passava por situações assim, mas sabia se cuidar. Sua filha, no entanto, era mais alta uns 5 centímetros, tinha 25 anos, cabelos castanhos claros, busto pequeno e pele mais clara que a mãe. Olhando-se a ambas dificilmente dir-se-ia serem mãe e filha.

A composição chegou na Sé. Seguiram para a linha norte-sul, sentido Tucuruvi, conseguindo entrar na composição que acabara de chegar, facilitando sua ida ao trabalho mas, não resolvendo o atraso. Deveriam entrar às 07:30 horas e já eram 07:27 horas. Desceram no Metrô Tiradentes e, em passos rápidos, foram em direção à Rua Anhaia, onde ficava a loja/oficina. 07:55 horas, chegaram! Seu patrão Kim Wang fez reclamações em português e coreano, do que Marilda só entendeu que iria ter desconto em seu dia de trabalho pelo atraso. Muito confiante, Marilda disse ao patrão que ele deveria consertar a fiação elétrica da oficina que estava uma grande porcaria e não ficar reclamando de pequenos atrasos. Kim Wang fez-se de desentendido.

 


Carla trabalhava na loja e Marilda era encarregada da oficina nos fundos da loja. Perto das 11:00 horas, Marilda foi até o depósito, ao fundo da oficina, buscar linhas para as costureiras terminarem a confecção de algumas blusas. Quando Marilda estava no depósito houve um curto-circuito na fiação que alimentava uma das máquinas de costura industriais e faíscas atearam fogo aos tecidos. Vendo aquela situação a costureira que estava ao lado gritou fogo e levantou-se para fugir. As demais oito costureiras que trabalhavam ali, vendo a fumaça, também correram para fora da oficina em direção à loja, gritando fogo e apavorando todo mundo. As pessoas que estavam na loja, fregueses, funcionários e o patrão também correram. 

Nesse ínterim, Marilda que estava no depósito, ouvira a gritaria e tentou sair, mas a porta, que abria para fora, estava emperrada. No afã de fugir do fogo as costureiras deixaram cair bobinas de tecido que travaram a porta impedindo Marilda de sair. O fogo se espalhava rápido e Marilda pode ouvir o crepitar das chamas e sentir a fumaça entrando pelas frestas da porta. Alguém ligou para o Corpo de Bombeiros, cujas unidades chegaram em menos de 8 minutos.

Os bombeiros posicionaram as linhas de mangueira e começaram a apagar o fogo da loja; e, ao mesmo tempo, policiais militares isolavam a rua e pediam que as pessoas das lojas vizinhas saíssem para garantir sua segurança. Marilda estava apavorada, gritava por socorro e não tentava mais abrir a porta pois ela estava muito quente (era de aço). A fumaça tomava conta do depósito e Marilda viu que havia uma pequena janela no fundo do depósito. Tentou alcança-la usando as prateleiras ali existentes, mas isso, foi seu erro, a fumaça subia e aquela abertura não era suficiente para ventilar, o que causou tonturas em Marilda que, descendo com dificuldades, acabou por desmaiar.

Do lado de fora os bombeiros estavam dominando o fogo na loja, mas, ainda havia fogo no depósito. Carla, recuperada do susto inicial, buscou pela mãe entre os funcionários. Um frio lhe ocorreu na barriga quando olhou para as costureiras e não viu sua mãe. Perguntou à elas sobre Marilda; e, Jucilene respondeu que a última vez que a vira ela tinha ido ao depósito. Carla entrou em desespero; olhou ao redor viu um bombeiro de capacete branco e correu até ele: minha mãe está lá dentro!! Minha mãe está lá dentro!! Gritou ao bombeiro. Calma! Calma moça! Me explique melhor! Disse o bombeiro. Minha mãe é a encarregada das costureiras e como não à vi aqui fora perguntei às costureiras onde ela estava e uma delas me disse que a última vez que a vira, ela tinha ido ao depósito!!! Disse Carla.

O bombeiro lhe perguntou onde era o depósito, Carla explicou. Então chamou o Sargento e disse para que pegasse mais dois bombeiros, vestissem o equipamento de salvamento em incêndio e adentrassem ao local até o depósito, enquanto isso outra equipe montava uma linha de refrigeração para eles.

Os bombeiros se vestiram, a linha de refrigeração foi montada e os três salva-vidas entram em meio ao fogo, tendo por cima água caindo sob a forma de garoa para lhes refrigerar.

Marilda continuava desfalecida em meio aos tecidos e linhas e, por imensa sorte, o fogo não havia chegado ao depósito, apenas a fumaça. Por um breve instante Marilda viu uma luz e, saindo dela, dois vultos com rostos luminosos que vestiam dourado e possuíam asas prateadas. Eram anjos, pensou. Sentiu seu corpo flutuar e ser levada em direção àquela luz. Estou indo embora.... Concluiu.

Do lado de fora da loja a imprensa já estava no local e noticiavam a existência de uma pessoa no interior do incêndio, anunciando a entrada dos bombeiros para o salvamento. A equipe havia entrado já faziam cinco minutos; seis; sete.... A expectativa aumentava! Dez minutos se passaram, de repente as câmeras das emissoras de televisão focavam os bombeiros com seus casacões amarelos, cilindros de ar prateados e máscaras com luzes, saindo da loja! O Sargento trazia Marilda nos braços. Todos aplaudiram. Ela foi resgatada com sucesso!  

 

 

Por Roberto de Jesus Moretti • Bacharel em Direito pela Universidade de São Paulo, Doutor em Ciências Policiais de Segurança e Ordem Pública. rdjmoretti@gmail.com


 

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