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Nossa história depois das Olimpíadas

 

O Brasil tem de extrair não só honrarias, mas ganhos reais, das Olimpíadas. A Vila Olímpica não deve ser, simplesmente, desmoronada, depois do encerramento dos jogos. Um país e uma cidade carente têm de valer-se desses episódios históricos para obter melhoramentos em favor de seu povo. Não é, tal proposição, avessa ao denominado "espírito olímpico". 

Entretanto, muitos poderão pensar e propor em sentido contrário. Afinal, grande parte dos custos das Olimpíadas foi suportado pela iniciativa privada, que, no Brasil, não imagina filantropias e, sim, compensações, sempre. É hora de mudar esse sentido de patrimonialismo privado que deixa ao Estado deveres que deveriam ser compartilhados. Depois criticam o Estado pesado e os impostos cobrados, o que é procedente, mas não podemos criticar algo quando não somos exemplares. 

A Vila Olímpica, mantida com seus principais equipamentos, será de alta importância para nossos jovens, a redução da violência e complemento de nossa educação formal. Além disso, espaços poderão ser ocupados para a educação estrita e necessária, sem a qual dizimam-se nossas esperanças de um grande país futuro. 

Evidentemente, essas medidas deverão ser resultado de negociações e não de imposições ou expropriações injurídicas, que poderão ser questionadas, como sempre, em nosso Judiciário. O espaço ficará e a iniciativa privada deverá continuar emprestando suas forças e seu apoio para termos no Rio de Janeiro e no Brasil grandes e preparados espaços educacionais, em conjunto com o esteio dos recursos humanos.  Os meninos e os pais dos meninos dos morros agradecerão imensamente; os brasileiros conscientes de que a solidariedade, e não o egocentrismo, que caracteriza boa parte de nossa elite econômica, idem. 

 


É hora de o 1% de nossa sociedade, composto dos privilegiados, mudem sua mentalidade. Não se propõe socialismo ou esquerdismo estereotipado, mas sentido de solidariedade que ultrapassa os estreitos limites de uma sociedade de classes com inclinação para perpetuar-se como uma sociedade de castas. Não se trata de romper o capitalismo, mas de administrá-lo com inteligência, pois somente os regimes do bem-estar social sobreviverão no mundo.  Os demais serão implacavelmente corroídos pelo tráfego de drogas, pelo crime organizado, pelos ataques selvagens, inclusive ao patrimônio público e, mais ainda, pela perda do norte na bússola de nossa juventude. E pela periclitação de nossa vida e saúde em nossas portas, em nossas ruas, praças e sinaleiros, em ordem tal que nossa existência se tornou insuportável, hoje, no Brasil. Pobres daqueles que nutrem a mentalidade de, simplesmente, deixar de lado suas raízes e emigrar. 

Deveríamos inserir em nossos currículos escolares, como matéria obrigatória, desde os primórdios até o fim dos cursos universitários, uma disciplina denominada "Justiça". Algo muito mais profundo que cidadania e análise de problemas brasileiros, que fazem parte do drama da justiça. E que não deve se confundir com a instituição judiciária, mas com o aprendizado do sentimento e da percepção filosófica da justiça, que nos enreda a todos, que nos põe em sociedade numa síntese superior à simples soma das partes, que esteja a todo momento inserida no cérebro dos homens, tanto para exigir como para abdicar, sob o signo superior do equilíbrio de um grupo humano sobrevivente em um dado planeta. 

Já se conta com o desapontamento, a desmontagem desse momento mágico, a tristeza que sucederá ao grande momento olímpico brasileiro. Discordamos profundamente. Além do aproveitamento material do que nos legaram os jogos, é necessária a expansão da educação criativa em todo o território nacional. E, para tanto, a imprescindível colaboração entre a iniciativa privada e o Estado, cujo tamanho está insuportável e deve ficar circunscrito ao que realmente interessa a nosso povo, livre da corrupção, que começa com propinas e termina com o costume crônico de inchá-lo cada vez mais para gastar em quinquilharias nada importantes para nosso crescimento social e humano. 
Um dos principais expedientes de nossos regimes ditatorias consistiu em tornar cada vez mais intelectualmente esquálida nossa gente. As disciplinas críticas, incluindo-se a história da filosofia universal, foi simplesmente erradicada de nossos currículos médios pela última ditadura castrense, que abriu os primeiros buracos por onde começamos a descer até hoje, sem que a democracia, que se seguiu ao regime militar,  tomasse consciência, desde logo, dos rompimentos que precisávamos fazer,  em relação a  um projeto de poder perverso de dominação de um grande povo, reduzido a um rebanho que amanhece todos os dias no mesmo diapasão, o de sobreviver para morrer, talvez com alguns mirrados reais de aposentadoria. 

A educação formal, a educação crítica e a educação esportiva deveriam emergir, de pronto, desse grande momento histórico em que passamos ao mundo muito de nossos problemas, mas, também, muitas virtudes desse povo eclético, originário de todas as partes do orbe, capaz de transformar-se e de manter a alegria que tomou conta de seus corações nos jogos olímpicos como nossa rotina diária, qualificada e construtiva no processo evolutivo da humanidade. 

 

 

Por Amadeu Roberto Garrido de Paula • Advogado e poeta • Autor do livro Universo Invisível, membro da Academia Latino-Americana de Ciências Humanas. 


 

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