FOTOS

A veia que leva ao coração da escola de samba

Dos primeiros batuques ao desfile no sambódromo, Gaviões da Fiel e Dragões da Real formam ritmistas na Escolinha de Bateria

 

Há quem espera o carnaval para assistir aos grandiosos carros alegóricos ou ver as muito bem elaboradas fantasias, coloridas e sempre cheias de glamour; muitos se encantam com a ala das baianas, das crianças, com a porta bandeira e o mestre sala. Mas todo esse corpo que compõe o desfile não seria possível sem a bateria, considerada por muitos especialistas como o coração da escola de samba. Composta por aproximadamente 300 componentes - chamados de ritmistas -, a bateria é tradicionalmente reconhecida como a ala de maior responsabilidade nas agremiações, pois é nela que nasce e se mantém a cadência do samba durante toda a passagem pelo sambódromo. Ser ritmista requer, além de habilidade, muito esforço e dedicação. E, sabendo disso, as escolas começam cedo a preparação e formação de novos componentes.

GAVIÕES DA FIEL - Uma das mais tradicionais escolas do Carnaval de São Paulo, com mais de 40 anos, a Gaviões da Fiel, oriunda da principal torcida organizada do Corinthians, dá inicio às aulas na escolinha de bateria no final do mês de abril - projeto criado em 1999 e que vem recebendo, a cada ano, mais adeptos. A média de aprendizes por ano/turma gira em torno de 300 pessoas, que são orientadas e acompanhadas nas aulas por 16 colaboradores já pertencentes à bateria principal - a Ritimão. As aulas acontecem todo sábado, na quadra da escola, entre 15h e 18h e, quando há jogo do Corinthians no dia, o horário é alterado para 12h. Os novatos podem escolher um instrumento entre cuíca, xereque, chocalho, caixas, repinique, tamborim, surdo de primeira, surdo de segunda e surdo de terceira.

Segundo o mestre de bateria da Gaviões da Fiel, Eduardo Fontes, 40, o Mestre Pantchinho, o único critério levado em conta para fazer parte da escolinha de bateria e, consequentemente, da bateria Ritimão é ser corinthiano. Na primeira aula, inclusive, há uma sessão teórica em que esse tema é explanado. "Enfatizamos a importância do nosso time em nossas vidas. E que a decisão de fazer parte um dia da Bateria Ritimão coloca nosso amor ao Corinthians em primeiro lugar. Mas respeitando sempre as tradições do samba.  Aí, sim, começamos a desenvolver as atividades", conta. Os exercícios vão desde as primeiras batidas prosseguindo até a batida inteira de cada instrumento. Depois, é iniciado o trabalho coletivo.

 


Um mês de aula é o suficiente para identificar as dificuldades de alguns e as facilidades de outros. "Em muitos  casos a persistência e a dedicação fazem o aluno aprender e a ser convidado a participar dos nossos ensaios de terça-feira, com a Bateria Ritimão", comenta o mestre de bateria, que há 17 anos comanda a bateria da Gaviões. Os aprendizes que não se destacam ou têm um pouco mais de dificuldade são incentivados a continuarem frequentando as aulas, pois um dos valores mais exaltados na Bateria Ritimão é a amizade. "O diferencial da Ritimão e da escolinha de bateria é a amizade que existem entre nós. Aqui não existe inimizade. E, se alguém chega com esse espírito, não serve para estar com a gente. Porque acreditamos que a união, junto com a técnica, nos deixa fortes e, consequentemente, nos transforma em vencedores", ressalta Pantchinho.

A estudante Débora Cristina, 19, iniciou na escolinha da Gaviões da Fiel em 2010 e, desde então, segue como integrante da Bateria Ritimão, convite que recebeu três meses após ingressar como aprendiz. Em 2016, para sua surpresa, foi convidada para ser diretora de chocalho na escola alvinegra - nunca na história da Gaviões uma mulher ocupou o cargo de diretoria na bateria. Sua história é um forte exemplo do importante papel que a escolinha tem para aqueles que gostam e se interessam por carnaval. "Pra mim foi um choque. Não sabia nem o que falar, fiquei sem reação nenhuma, pois nunca tinha imaginado que um dia iria receber esse convite. Ser diretora de chocalho era um sonho. Mas, como na história dos Gaviões da Fiel nunca uma mulher tinha sido diretora de bateria, era um desejo que já tinha me conformado em não realizar. Estou vivendo essa nova experiência dentro dos Gaviões da Fiel intensamente, e vou dar meu máximo sempre pela bateria Ritimão e pelo Corinthians", conta a jovem diretora.

DRAGÕES DA REAL - Também nascida do elo entre futebol e o carnaval, tendo como fonte a torcida organizada do São Paulo Futebol Clube, a Dragões da Real, escola de samba jovem, de apenas 15 anos, vem mostrando, ano após ano, que também tem força e que é páreo para as agremiações mais experientes e vencedoras. Sua bateria, a Ritmo que Incendeia, é composta também por muitos ritmistas pratas da casa, formados na Caverna do Dragão - como é conhecida a quadra da escola. Com um modelo similar ao praticado na concorrente veterana Gaviões da Fiel, a escolinha de bateria da escola tricolor reúne cerca de 150 aprendizes, que podem escolher entre cuíca, agogô, chocalhos, tamborins, surdos de primeira, segunda e terceira, caixas e repiniques. A preparação da bateria para o Carnaval 2017 começa no dia 04 de abril, sempre aos sábados, a partir das 17h, na quadra da escola.

A dinâmica das aulas na Dragões da Real é gerida por cerca de 12 colaboradores já integrantes da Bateria Ritmo que Incendeia, que se dividem no barracão de acordo com cada grupo de alunos, separados por instrumentos. As primeiras aulas são feitas de maneira individualizadas e, conforme acontece a evolução e o envolvimento dos futuros ritmistas, passa-se às atividades coletivas.

Segundo o diretor geral da bateria, Dennys Falco Lopes, 28, posição que ocupa há nove anos, o processo de seleção para a Bateria Ritmo que Incendeia acontece de forma natural. "O aluno vai se destacando nas aulas, tanto na parte técnica quanto na parte de dedicação e de empenho. Durante as atividades já vamos dando dicas e preparando o aluno para as situações que ele pode encontrar durante um ensaio, por exemplo. Não é preciso ter contato com o carnaval, mas é muito importante que ele tenha noção de ritmo, goste de música, de ouvir sambas. Isso ajuda muito no desenvolvimento. Acredito que nos dois primeiros meses a gente já é capaz de saber quem tem potencial para subir para a bateria", explica.

 


A Dragões da Real, apesar de representar e carregar consigo as cores da torcida do São Paulo, é uma escola que distingue bem as esferas do futebol e do carnaval. "Gostamos de frisar é que, mesmo sendo uma escola de samba oriunda de torcida, aqui o que prevalece é o samba. Uma coisa é o clube e outra é o pavilhão da escola. Essa divisão faz com o que o ambiente da escola seja muito familiar", comenta o diretor Dennys.

Formado na escolinha de bateria da Dragões, o auxiliar de escritório Carlos Leandro, 32, é ritmista da escola há pouco mais de dois anos e faz um alerta aos alunos que não tiverem a oportunidade de subir para a bateria principal na primeira tentativa: "É muito importante não desistir caso não consiga fazer parte da bateria logo de cara. Se isso acontecer, uma dica é acompanhar os ensaios da bateria para poder aprender mais e, sempre que puder, tirar as duvidas com o seu diretor", encerra o ritmista.

 

 

Por Arilton Batista

 

Gaviões da Fiel • Rua Cristina Tomás, 183 - Bom Retiro • Tel.: (11) 3222-9449 (para participar da escolinha) • Início das aulas: a partir de abril de 2016 • Mais informações: facebook.com/gavioesoficial • Site: gavioes.com.br

Dragões da Real • Av. Embaixador Macedo Soares, 1018, Marginal Tietê - Vila Anastácio • Tel.: (11) 3831-4002 (para participar da escolinha) • Início das aulas: a partir de 04 de abril de 2016 •  Mais informações: facebook.com/escoladesambadragoes • Site: escoladesambadragoes.com.br


 

Voltar