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Profissão de comediante une risos e prestação de serviços

 

Em 26 de fevereiro comemora-se o Dia do Comediante, profissional que tem como tarefa fazer as pessoas rirem e se divertirem, seja por meio de piadas, palhaçadas, danças, personagens; no teatro, na TV, na rua, no bar, na escola, na biblioteca ou até no hospital. O sinal mais claro de que o comediante realizou seu trabalho bem feito é quando o público está contente, feliz. Os que acreditam na máxima de que "a gente oferece aquilo que tem" devem crer também que comediantes e humoristas possuem muito bom humor e felicidade quase que constantemente, já que são estes sentimentos e matéria-prima para o sucesso do trabalho. Entretanto, acordar para trabalhar todos os dias com bom humor, alegre e disposto, sem problemas familiares, financeiros e de saúde é praticamente impossível. E sãos esses os momentos de maior desafio na vida dos profissionais do humor.

Atores e atrizes que atuam para o público pagante ou não, mas que está em busca de diversão, é naturalmente uma atividade que exige muito do profissional. Levar alegria e transformar o dia de enfermos dentro de hospitais é ainda mais desafiador e faz parte da rotina dos palhaços da ONG Hospitalhaços, de Campinas (SP). A organização foi criada em 1999, atende hoje 22 hospitais no interior de São Paulo e conta com mais de 300 voluntários que se dividem entre palhaços humanizadores, brinquedistas, administração, equipes de apoio, comunicação e triadores. O dia a dia da ONG é, basicamente, inserir a figura do palhaço dentro de hospitais e criar uma atmosfera menos pesada, mais atraente e descontraída tanto para os pacientes quanto para familiares e equipe médica. As atividades lúdicas executadas pelos Hospitalhaços envolvem brinquedotecas e oficinas de artes plásticas, o que cria e amplia as condições de bem-estar e diversão.

Levar a felicidade para pessoas que teoricamente têm motivos para estarem indispostas ao riso fácil pode não ser um exercício simples, ainda mais quando o próprio comediante ou humorista não está num dia bom ou num momento favorável; com mau-humor, descontente ou infeliz. Segundo a psicóloga Dra. Letícia de Oliveira, especialista em análise do comportamento, o fato de o comediante ter de fazer alguém rir não está ligado ao estado de humor em que ele mesmo se encontra naquele momento. "Você não precisa estar de bom humor para poder fazer alguém rir, assim como não precisa estar triste para fazer alguém chorar. O ator aprende a entender as emoções e treina muito para demonstra-las mesmo sem estar as sentindo. O segredo nem sempre está no real humor do humorista; o segredo de fato está na habilidade dele em modificar as emoções de seu público", diz.

 


Na Hospitalhaços os atores passam por uma orientação específica, justamente por terem um foco diferenciado de atuação, se apresentando para pessoas em condições limitadas de saúde. "Em nosso treinamento fazemos muito esta reflexão, sobre os mais diversos sentimentos e que a rejeição, a dor e tristeza permeiam o ambiente. Por estes motivos temos de estar alertas e preparados para qualquer coisa", comenta Mário Eduardo Paes, membro do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente em Campinas, voluntário da Associação Hospitalhaços desde 2001 e responsável pela coordenação geral dos projetos da ONG desde 2009. Paes complementa ressaltando que a técnica para lidar com a situação é saber das diversas possibilidades, dificuldades e lembrar que se propôs a estar ali naquele momento. "É lembrar que o outro precisa daquilo", destaca.

Muito se questiona sobre dom e aprendizado, principalmente nos ramos artísticos. No caso da Hospitalhaços, por exemplo, não trabalham apenas com artistas profissionais, mas também são capacitadas pessoas leigas mas interessadas em contribuir. "Da mesma forma como tudo na vida, alguns têm mais facilidade, o que chamo de dom, e outras desenvolvem as habilidades com o treinamento. O que não pode faltar nunca é a necessidade de levar o amor ao próximo", explica Mário Paes sobre os palhaços voluntários treinados pela ONG Hospitalhaços.

Ter uma atividade voluntária e se fazer presente para pessoas que precisam não é somente importante para quem recebe o atendimento, mas também para o voluntariado, que deve se sentir útil e inserido num grupo social, assim como pode usar o trabalho voluntário como válvula de escape para diversas situações negativas, como a depressão e o estresse. Ou seja, o que acontece nessas atividades é uma troca. Às vezes o comediante que acorda de mau humor ou passa por algum momento de tristeza pode ter em seu público a oportunidade de melhorar o astral, principalmente quando se está diante de uma platéia que não apenas quer rir, mas daquela que precisa do riso - como nos hospitais. "Isso quebra nossos paradigmas e nos faz ser uma pessoa melhor a cada dia de atuação, pois temos a possibilidade de conviver com outros referenciais da vida", comenta Mário Paes.

A psicóloga Dra. Letícia de Oliveira explica que o ambiente e as pessoas têm o poder de transformar sentimento negativos em positivos, da mesma forma que os positivos em negativos. Segundo ela, contamina. "Quando estamos próximos de pessoas com baixo astral acabamos vendo o mundo de forma mais 'cinza'; já quando estamos rindo, perto de pessoas engraçadas, acabamos ficando menos ansiosos, menos irritados e também mais tolerantes com as adversidades do nosso dia. Rir é, sim, um ótimo remédio para o bom humor", finaliza.

A ONG Hospitalhaços atua nas nas cidades de Campinas, Americana, Sumaré, Hortolândia, Paulínia, Valinhos, Indaiatuba, Cerquilho, Laranjal Paulista, Tietê, Mogi Guaçu, Mogi Mirim e Recife, administra quatro brinquedotecas e realiza mais de 30 mil atendimentos mensais, além de estar presente no Facebook (www.facebook.com/hospitalhacos) e manter atualizado o site www.hospitalhacos.org.br. Por se tratar de um Organização Não Governamental e sem fins lucrativos, os Hospitalhaços precisam e aceitam a contribuição do público das seguintes maneiras: sendo voluntário, doando serviços ou capacidade profissional, doando ou comprando produtos no bazar, adquirindo produtos institucionais, destinando parte do imposto de renda, contratando ou divulgando palestras e workshops.

 

Por Arilton Batista


 

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