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Baixo Augusta e a diversidade cultural em São Paulo

Referência na capital, a região é famosa por receber todo tipo de público e oferecer opções variadas de entretenimento

 

O relógio na estação Consolação do Metrô aponta 19h30 e o fluxo de pessoas é intenso na noite quente de sexta-feira. Apressada, a maioria ultrapassa as catracas rumo às plataformas, para embarcar no trem e seguir para casa após o provável longo dia de trabalho. Muitos, porém, estão ali à espera de outras pessoas para, juntos, aproveitarem a noite num dos polos da diversidade cultural que a cidade oferece. Imaginar São Paulo sem lembrar da rua Augusta é como falar de rock e ignorar The Beatles. Privilegiadamente localizada, a via começa na rua Martinho Prado, próximo à Praça Roosevelt, e termina junto à rua Colômbia, no bairro dos Jardins. Antes disso cruza a Avenida Paulista - o coração do estado. A região mais populosa, com maior concentração de bares, baladas, restaurantes, lanchonetes, lojas e galerias, entretanto, é o trecho que liga o centro da cidade à Av. Paulista, conhecido também como Baixo Augusta.

A Rua Augusta teve suas chamadas décadas de ouro nos anos de 1960, 1970 e 1980, quando os jovens de classe média iam com seus carros e motos, acompanhados de suas namoradas, e curtiam a noite na região. Com a entrada dos anos de 1990 o cenário mudou e a rua Augusta e seu entorno se tornaram a Boca do Lixo na cidade, pois acontecia a amplificação das casas de prostituição e a massificação do consumo de drogas. Num espaço de tempo que durou mais de uma década a rua esteve praticamente esquecida, até que, no início dos anos 2000, empresários do ramo cultural passaram a abrir casas de shows e baladas na região, elevando e dando início a uma transformação para que a carismática Augusta se tornasse o que é nos dias de hoje. A região carrega consigo uma característica única, que é justamente a diversidade de público. Caminhando por lá é possível observar várias camadas sociais e tribos urbanas dividindo o mesmo cenário - roqueiros, skatistas, regueiros, engravatados e por aí vai.

Segundo o músico e rapper Yannick Hara, 31, que nasceu, foi criado e mora na rua Augusta, não é de hoje que a região possui a particularidade de receber um público diverso e democrático. "A diversidade é histórica. A rua Augusta sempre atraiu todos os tipos de pessoas, inclusive na fase da 'Boca do Lixo', quando os esquecidos vinham para a região. Mesmo com aquele início histórico dos boêmios e dos playboys da época, a Augusta sempre foi o ponto de encontro do cara que mora no Centro com o que mora na periferia. E, pra mim, tem que ser assim mesmo. Chega de ficar 'guetificando' as pessoas", comenta.

 


Tendo em vista que ali é bastante agitado, tanto de dia, com a movimentação de carros e ônibus, e à noite, com os bares e baladas, morar na rua Augusta pode não parecer uma ideia muito boa. Yannick, há três décadas como anfitrião do bairro, garante que o local é, sim, para ele, muito bom para se morar, principalmente pelas diversas opções de acesso, comércio e serviço. "Crescemos na região da Praça Roosevelt, estudei no colégio próximo, fazemos feira e vamos à igreja aos domingos, num restaurante e no açaí do Sr. Soroko. A facilidade de acesso é importante, sim. E concordo que isso deveria estar em toda a cidade, não só no Centro", conta o Hara, que cobra as autoridades políticas: "Ouviu, senhor Geraldo Alckimin e senhor Fernando Haddad? Em todas as regiões de Sampa! Chega de dar ao Centro o que todas as Zonas têm que ter por direito constitucional".

Questão que vem gerando bastante discussão nos últimos anos é a especulação imobiliária que acontece em torno da rua Augusta, que já conta com o fechamento de algumas casas noturnas, um parque e aguarda por uma possível mudança no perfil do público que frequenta a região, principalmente no âmbito econômico. Polêmicas à parte, a Augusta vive e mantém suas raízes fincadas na base da diversidade e do respeito. Frequentador da região há mais de dez anos, o DJ e profissional de mídias sociais Felipe Barroso, 26, está à frente de dois grandes eventos que acontecem na Funhouse e no TEX Redneck Bar, ambos na Baixo Augusta. "Houve um boom que trouxe de volta a Augusta pra cena paulistana. Existem boas casas, bons restaurantes e bares. Eu vejo a rua Augusta hoje como o melhor lugar da noite de São Paulo", comenta Barroso, que confessa já ter sentido medo de que ela fosse acabar: "Algo que me incomodava era esse crescimento de residências. Meu maior medo foi que a rua morresse, e isso não aconteceu. E ela parece crescer a cada dia. Quem não conhece precisa urgentemente ir até lá".

Além das diversas baladas, na rua Augusta também é possível curtir durante o dia, já que a região é rica em restaurantes e lanchonetes, como a premiada Lanches BH, famosa por servir uma deliciosa coxinha de frango, além do tradicional sanduíche de pernil e generosos beirutes. Fundado em 1956, o espaço fica no número 1.533, bem próximo à Avenida Paulista. A Charm da Augusta é outra opção para quem procura por um ambiente aconchegante sem a característica de balada. As mesas colocadas na parte externa dão à lanchonete um clima mais familiar. O publicitário Tiago Gomes, 21, que vai à Augusta há cerca de cinco anos, ressalta que a rua também possui opções gastronômicas e é ótima também para fazer compras. "Frequento a rua Augusta hoje mais pelo comércio, que é bem amplo. É possível encontrar lojas e restaurantes de todos os tipos. Me chamam a atenção os sebos, os brechós, lojas compartilhadas e galerias. É um lugar tranquilo pra comer alguma coisa e fazer compras", diz.

Frente ao atual cenário da região, a Baixo Augusta resiste aos anseios do mercado e, mesmo com as mudanças naturais decorrentes da sociedade, mantem-se como referência no campo do entretenimento e do lazer, principalmente noturno, na capital paulista. Região onde prostitutas convivem em harmonia com universitários, executivos e skatistas; sambistas interagem com roqueiro, forrozeiro e fashionista; é a tolerância e o respeito dizendo amém.

CityPenha indica:

• Clube Outs (balada/rock), Rua Augusta, 486 • Beco 203 (balada/rock/indie), Rua Augusta, 609 • Anexo B (bar/balada/rock/MPB/Pop), Rua Augusta, 430 • Inferno Club (balada/rock/alternativo/shows), Rua Augusta, 501 • Caos Bar e Antiguidades (bar/loja/balada/80's), Rua Augusta, 584 • Astronete (balada/rock), Rua Augusta, 335 • Charm da Augusta (lanchonete/bar), Rua Augusta, 1.448 • BH Lanches (lanchonete/bar), Rua Augusta, 1.533 • Blitz Haus (balada/gastronomia/games), Rua Augusta, 657 • O Pescador (bar/sinuca), Rua Augusta, 946 • Ibotirama (bar/tradicional/lanchonete), Rua Augusta, 1.236 • Vitrine Show Bar (pizzaria/comida brasileira/bar), Rua Augusta, 1.221 • O Pedaço da Pizza (pizzaria/bar), Rua Augusta, 2.931 • Bovinu's (churrascaria), Rua Augusta, 1.513.

 

Por Arilton Batista


 

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