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Flávio Prado
um jornalista “futeboleiro”

 

O jornalista Flávio Prado é uma das vozes mais conhecidas no mundo do futebol. Ele é natural da Penha e tem muito orgulho de suas raízes da Zona Leste.

Desde a década de 90 está na rádio Jovem Pan, é comentarista nas transmissões dos jogos, participa diariamente do programa “Esporte em Discussão” e apresenta aos sábados "No Mundo da Bola". Paralelamente na TV Gazeta comanda aos domingos o tradicional "Mesa Redonda Futebol Debate", e participa do programa Gazeta Esportiva durante a semana. Casado, Flávio tem dois filhos, a cantora de pop rock Rita Graziella Vaz Martone de Prado e o jornalista Bruno Prado. Acompanhe o descontraído bate papo que fizemos com ele:

CityPenha: O que levou você a querer ser um jornalista esportivo?

Flávio Prado: Na verdade eu sou totalmente “futeboleiro”. Não me faça perguntas de basquete nem de nada, só de futebol. Isso porque eu fui criado na Zona Leste e, com certeza absoluta, na minha época não existia nenhum outro esporte, era só futebol. Eu estudei no Estadual da Penha, e lá os outros esportes eram uma obrigação. Era uma coisa séria, você tinha que praticar todos eles, mas era um “porre”. Você tinha que fazer tudo, mas eu só queria jogar futebol, só que eu era péssimo. Não é que eu jogava mal, eu era péssimo mesmo.

CityPenha: Sua infância foi na Penha?

Flávio: Eu morava na rua Embiruçu, em frente onde hoje é o Metrô Vila Matilde. Da minha casa eu via sete, oito campos de futebol. Ali só tinha campo de futebol, era um colado no outro, dava mais de trinta. Começava onde hoje é o Metrô Penha e ia até o Metrô Vila Guilhermina. Tanto que as bolas se misturavam. Tinha os festivais de domingo, era uma coisa maravilhosa, uma coisa que eu sonho muitas vezes, eu acordo revendo tudo aquilo. É realmente uma coisa maravilhosa.

CityPenha: Você disse que não sabia jogar, mas queria ser jogador?

Flávio: Para mim o mundo era futebol e obviamente eu queria ser jogador de futebol, mas eu não tinha a menor capacidade para isso, e a minha vida era longe de tudo, muito longe. Não tinha ônibus direto para o centro da cidade, então você precisava ir a pé até o centro da Penha, chegava no Largo 8 de Setembro e pegava um bonde ou um ônibus para ir até o centro da cidade. A gente para ver um jogo no Morumbi tinha que fazer uma vaquinha para alugar uma perua porque o Morumbi era muito longe. Eram torcedores de vários times que se reuniam para ir ver o jogo.

CityPenha: Era uma época em que as pessoas iam ao estádio apenas assistir um jogo de futebol!

Flávio: Exatamente! Eu lembro uma vez que era feriado e o São Paulo fez um jogo de graça da Libertadores. Ainda não tinha nem aquele Cebolão. Você ia até a marginal, entrava por dentro de Osasco e saia no Morumbi. Era um passeio.
Minha vida foi “toda futebol”. Eu fiquei ligado a tudo aquilo e minha família também sempre foi muito ligada ao futebol. Meu tio Flávio morreu por causa do futebol. Ele jogava muita bola e chegou a jogar com o Julio Botelho, que é a maior figura que a Penha já projetou. Eles jogavam juntos e passaram num teste no Juventus. Meu tio acabou não ficando e foi trabalhar como contador, mas ele jogava muita bola, era o astro na região. Um dia ele se sentiu mal no serviço e ficou constatado que tinha um problema cardíaco e que não podia mais jogar futebol.

 


CityPenha: Nossa, isso acabou com a vida dele!

Flávio: Ele tinha 18 anos e disse que não tinha o menor interesse de parar de jogar futebol. Foi atrás de vários médicos até que achou um que disse: “Você pode jogar!” Ele jogou sábado à tarde, domingo de manhã, domingo à tarde e na segunda acordou morto. Isso com 19 para 20 anos. Ele morreu no dia 14 de janeiro de 52. No dia 11 de fevereiro de 54, dia em que ele completaria 22 anos, eu nasci, ou seja, eu nasci ele. Meu nome que era para ser Julio Cesar virou Flávio.


CityPenha: Todos da sua família gostavam de futebol?

Flávio: Todos gostavam. Minha avó e meu avô eram muito ligados ao São Paulo Futebol Clube, o porque eu não sei. Eles faziam quermesse na Igreja da Vila Esperança, minha avó e minhas tias faziam comida e todo o dinheiro arrecadado era doado ao São Paulo que era um time pobre. O Leonidas e o grande time do São Paulo dos anos 40, iam lá pegar a grana, para se manter. O São Paulo era conhecido como o mais querido porque vivia de doações.

CityPenha: Então você nasceu São Paulino? 

Flávio: Eu nasci debaixo de uma bandeira que deveria ser do São Paulo, mas quando eu comecei a ter ideia do que era o mundo, o Pelé era o cara. Em 59, o Santos jogou com o Palmeiras o supercampeonato e a única televisão do bairro era da minha tia, com Bombril na antena (risos). Eu fui assistir ao jogo e estava todo mundo torcendo para o Palmeiras e eu torcendo para o Pelé, nem era para o Santos. Mas o Santos perdeu e eu chorei muito enquanto as pessoas diziam: “viu seu tonto, você tem que torcer para o São Paulo”. Foi quando começou meu apego ao São Paulo. Em 67 teve um jogo no dia 16 de dezembro, era um jogo que se o São Paulo ganhasse ele seria campeão paulista em cima do Corinthians, bastava ganhar. Eu fui ver jogo porque seria a primeira vez que eu iria ver o time da minha família ser campeão. O São Paulo fez 1 a 0 e faltando 15 segundos tomou empate e perdeu o campeonato. Sai chocado do estádio, meu time estava sendo campeão e faltando 15 segundos perdeu tudo. Fui para casa e na época eu trabalhava na feira e a gente recebia o nosso pagamento em cima do que vendia. Se você vendia uma porção de berinjela, recebia berinjela. Eu vendia banana, que embrulhavamos em jornal. Na primeira semana de janeiro eu recebo meu cacho de banana, embrulhado no jornal da Gazeta Esportiva. Eu abri o jornal para comer a banana e vi uma foto que me identificou. Tinha uma crônica escrita “Esses malditos gols de dezembro”. Era uma crônica do Horácio Marana, falando dos gols que aconteceram naquele dezembro. Foram vários gols nos últimos minutos que fizeram as pessoas se desesperarem. Eu comecei a ler aquilo e chorava copiosamente. Chamei meu pai e disse: “Pai o que é isso aqui que esse cara fez?” Ele respondeu: “jornalismo, um texto jornalístico!”  Eu falei para o meu pai que era isso que eu queria fazer. Aquele cara conseguiu contar para as pessoas o que eu senti sem me conhecer. Como eu não poderia ser jogador de futebol porque não tinha talento, vi um jeito de estar perto do futebol sem ter que ser jogador, sendo um jornalista futeboleiro.

CityPenha: Nesse momento você descobriu sua vocação e o que você precisava para conseguir chegar lá?

Flávio: Foi nesse momento. Meu pai disse que eu teria que entrar em uma universidade, estudar para isso. Segui minha vida e consegui fazer meu projeto virar. Fiz o primário no Externato São José de Vila Matilde onde as irmãs me deram uma bolsa de estudo. O colegial fiz no Estadual da Penha, e exatamente em 1967 repeti de ano. Começaram aí as coincidências, que digo sempre que Deus me ajudou. Repetir de ano foi uma das maiores tragédias familiares, tanto que em frente ao Cemitério da Penha tinha uma loja que vendia carroça. Quando passavamos por lá o pessoal falava: “olha lá, você vai puxar um desses. Repetiu de ano, burro”. Tudo aquilo foi um grande plano de Deus. O tempo foi passando, passando, eu fui estudando e entrei na faculdade. Primeiro na FIAM e fui transferido para a Casper Libero, até que em 1970 eu comecei a fazer teste em várias rádios e TVs. Desde a TV Globo até rádio comunitária. A TV Gazeta fez um teste para contratar um narrador e um comentarista, e eu, claro, me inscrevi. No dia do teste eu estava com pneumonia, tossia muito e não passei. O cara que foi escolhido desistiu rápido e eles fizeram o teste novamente, só que dessa vez só para a faculdade Casper Libero e ainda só para alunos do terceiro ano. E eu estava no terceiro ano por que repeti de ano em 67. Se eu não tivesse repetido não estaria no terceiro ano, já estaria formado, fora da faculdade. Por isso eu disse que era um projeto de Deus. Fiz o teste, fui aprovado e entrei na TV Gazeta. Um cara que foi aprovado junto comigo foi o Galvão Bueno. A partir dali as portas se abriram para mim. Comecei a fazer um monte de coisas na TV. Depois fui para a TV Record, e exatamente ontem (15/10) fez 38 anos que eu estreei com Silvio Luiz no jogo Corinthians e Ponte Preta, que foi o divisor de águas da minha vida. Eu era completamente desconhecido e a partir daquele jogo minha vida tomou projeção internacional graças a dupla com o Silvio Luiz, que também ninguém sabia mais  quem era. Ele tinha ficado famoso, depois ficou desconhecido e estava fazendo a direção da parte técnica da Record. Pegaram ele para fazer uns jogos e a partir dali começamos a narrar. Em 78 eu já estava fazendo Copa do Mundo e dali para frente não parei mais. Foi exatamente desse jeito que a coisa rolou, meio fora dos padrões né? (risos).


CityPenha: É interessante que sua trajetória é realmente focada no futebol.

Flávio: Só pelo futebol e pela Zona Leste. Se eu tivesse nascido em outro lugar, dificilmente teria a mesma paixão. Eu não tive outra escolha. Na época, ali no meu bairro, para todos os meus amigos e todos os meus familiares o grande objetivo era ser Torneiro Mecânico, nenhum amigo ou parente estudou, fez faculdade. O pessoal fazia curso primário e já fazia o curso de Torneiro Mecânico. Meu pai, por exemplo, sempre foi operário, chegou a ser gerente da Kibon, só com o ensino primário. Ele queria que eu fizesse faculdade de Direito e eu até fiz, mas não tive saco. Foi por causa daquela matéria do jornal que eu descobri que precisava fazer faculdade para ser jornalista. Depois disso minha família começou a ter um monte de jornalistas, inclusive o Bruno, meu filho e minhas duas sobrinhas.

CityPenha: Qual momento você considera ser o mais marcante da sua carreira como jornalista. Seria esse jogo com o Silvio Luiz?

Flávio: São vários. O teste da TV Gazeta, esse primeiro jogo com o Silvio Luiz, meu primeiro jogo de Copa do Mundo. É como se eu tivesse lá hoje.

CityPenha: Você começou como repórter e já virou comentarista, isso foi muito rápido?

Flávio: Eu queria ser repórter, mas só recebia não, não, e ia insistindo. Eu fiquei uns 6 ou 7 anos buscando muito isso e sempre considerei que o “não” era uma questão de tempo. Eu nunca vi o “não” como uma coisa definitiva. Tinha certeza de que isso iria virar. Quando veio, veio muito rápido. Eu comecei a trabalhar na Copa do Mundo, fazendo jogos do Brasil. Eu só fiz Copa do Mundo com a seleção brasileira o que não era uma coisa normal.


CityPenha: O que você gosta mais, rádio ou TV?

Flávio: A TV nunca foi meu projeto de vida. Eu 
não me achava com cara para isso, eu sempre fui muito esculhambado, muito relaxado. A TV caiu no meu colo. O meu objetivo sempre foi ser repórter na rádio Gazeta. Quando comecei a fazer o Mesa Redonda na TV eu brigava muito com os caras e essas brigas chamavam a atenção. A primeira vez que eu apareci fui dar uma informação, o cara contestou e eu “briguei” com ele. Ficou aquela coisa de moleque rebelde. Imagina naquela época um moleque contestando os mais velhos, mas eu tinha muito argumento e isso virou uma atração.

CityPenha: Todo mundo diz que você não vai mais aos estádios, é isso mesmo?

Flávio: Realmente não vou. Hoje isso é uma coisa pessoal. Eu acho que deram muito espaço para as torcidas organizadas, que são marginais. Ou você abre espaço para a família ou para o bandido e como os clubes abriram espaço para os bandidos eu não vou. É uma questão de postura, não vou me misturar com bandido. É claro que eu tenho respaldo da minha emissora. Se eu fosse obrigado a ir eu iria. Mas felizmente minha emissora me respalda.


CityPenha: No programa Mesa Redonda você fala que torce para a Ponte Preta, isso é verdade?

Flávio: É verdade mesmo. Como tinha sido forçado desde criança a ser são-paulino, eu comecei a cobrir o São Paulo pela Gazeta Esportiva e conheci o clube. A partir daí fiquei com convicção absoluta que eu não poderia torcer para o São Paulo, porque não tinha nada a ver comigo. Se eu tivesse a liberdade de torcer para um time, eu nunca tive essa liberdade (risos), eu teria torcido para o Corinthians. Até por ser da Zona Leste, por ser “meio maloqueiro”, a minha identificação maior no futebol seria pelo Corinthians.

No tempo em que morei em Campinas, quando meu pai foi trabalhar lá e virou conselheiro da Ponte Preta, eu vivia dentro da Ponte e me apeguei muito a ela. Eu vou ver jogos, dou palpite, corneto. Hoje a Ponte é o único time que eu torço de verdade.

CityPenha: Sua história é muito legal e acho que muita gente não conhece. Quem vê a figura do Flávio Prado hoje não imagina tudo isso.

Flávio: E tudo sempre na Zona Leste. Eu só mudei de lá porque eu casei e a minha mulher é da Zona Norte. Eu não ficava em casa e então era sacanagem deixar ela longe da família.

CityPenha: Tem algo que você gostaria que nossos leitores soubessem sobre você?

Flávio: Tem uma coisinha que eu acho legal, já que o assunto sou eu (risos). Eu sempre gostei de cantar e quando estava nesse trajeto todo para ser jornalista, a primeira rádio que meu deu um ok, foi a rádio ABC de Santo André. Lá também tinha uma rádio chamada Rádio Clube onde havia um amigo do meu pai que cantava, e eu fui cantar com ele. Acabei ficando na dúvida se eu queria cantar ou ser jornalista. Eu fazia o programa e cantava na rádio, as duas coisas ao mesmo tempo. Mas o cara que fazia o programa morreu e o sonho de ser cantor também. O curioso é que meu filho Bruno virou jornalista e a minha filha Rita virou cantora, e eu nunca falei para ele ser jornalista nem para ela ser cantora. A minha mulher é professora e ninguém quis ser. (risos).

 


 

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