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A importância da alfabetização vai além do ambiente escolar

 

Segundo uma recente pesquisa feita pelo Pnad - Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios e divulgada em 2014 pelo IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o Brasil ainda possui 13 milhões de pessoas maiores de 15 anos que são analfabetas. O número ultrapassa a população paulistana (11,8 milhões) e representa mais de 8% da população habitante no país. Considera-se analfabeto a pessoa que não consegue ler e escrever algum pequeno trecho de um simples bilhete. A importância da alfabetização, entretanto, ultrapassa as margens do caderno e os portões dos colégios. Segundo o educador e filósofo brasileiro Paulo Freire (1921-1997), ícone mundial no âmbito pedagógico, todo ato de educação é um ato político e tem o poder de conscientização.

A sociedade, mais do que nunca, cobra cidadãos alfabetizados, letrados e educados, tendo em vista as diversas ferramentas de comunicação e tecnológicas criadas dia após dia. Trazendo a questão ainda mais para o universo digital, atualmente são raras as pessoas que não possuem celulares e computadores; livros, e-books, redes sociais; sites e portais de notícias. A forma de se relacionar com o mundo sofre cada vez mais modificações. Ser alfabetizado pode ser a base para uma boa formação e para acompanhar as transformações do mundo. Há duas esferas que exercem papéis fundamentais no processo de alfabetização da criança, que são a escola e a família. Segundo a pedagoga e professora de Educação Infantil Mirian de Sousa, 33, é dar subsídios aos filhos pequenos para o acesso à educação. "O papel dos pais se constitui em estimular a criança no contato com os mais diversos símbolos e códigos linguísticos, seja por meios de livros, músicas, revistas e tantos outros recursos disponíveis", comenta.

Segundo informações do Portal Educação (portaleducacao.com.br), a idade ideal para que a criança inicie a alfabetização é entre seis e sete anos, podendo durar aproximadamente dois anos seguidos. Para a pedagoga Mirian Sousa, apesar de alguns especialistas apontarem uma idade adequada para a alfabetização, o desenvolvimento depende, essencialmente, do ritmo de cada criança. "Não é possível estabelecer um número [idade], visto que a criança é um indivíduo único em processo de desenvolvimento. Os estímulos e o processo de maturação irão depender exclusivamente de cada um, o que pode tornar o processo diferente para cada criança", explica a profissional, que ressalta a importância de atividades lúdicas para o desenvolvimento educacional. "Devem-se destacar as interações sociais e o lúdico no processo de construção do conhecimento, propondo, assim, o contato com jogos pedagógicos que estimulam o processo de alfabetização", diz.

 


A alfabetização não é um tema que gira apenas em torno do universo infantil. Infelizmente, segundo um levantamento realizado pela Plataforma QEdu a pedido da Revista Exame, 1,3 de crianças e adolescentes deixaram os estudos em todo o Brasil no ano letivo de 2013. Muitos deles não retornam logo aos estudos, tardando a retomada à escola para a fase adulta. Muitos, inclusive, já na terceira idade. Os motivos dessas desistências (evasão escolar) são diversos, como a distância entre a escola e a residência, a falta de transporte e não haver um adulto para levar até o colégio. Uma das justificativas mais comuns, entretanto, é ainda a necessidade de trabalhar fora e não haver tempo para os estudos.

Muitas instituições particulares e públicas oferecem um plano especial de estudos para as pessoas que querem retornar às salas de aula. Os dois termos e formatos mais conhecidos são os supletivos e o EJA - Educação de Jovens e Adultos, que são subdivididos eminentemente em módulos de seis meses por período. O objetivo é dar acesso para quem não pode estudar no tempo adequado, além de incentivar a continuidade aos estudos, como o ingresso na universidade. Para a professora de português e espanhol Patrícia Batista, 44, o retorno aos estudos por meio do EJA, por exemplo, proporciona benefícios que vão além do campo acadêmico. "Ao retomar os estudos, eles se socializam, aprendem conteúdo e ganham independência. Estudar, para esse grupo, significa principalmente a chance de alargar horizontes", comenta a educadora, que complementa: "A importância da educação vai além do aumento da renda individual ou das chances de se obter um emprego. É pela educação que aprendemos a nos preparar para vida".

SEMPRE É TEMPO DE ESTUDAR - Nascida na Vila Maria, Zona Norte da capital, Cleide Del Mando, 65, foi, como ela diz "praticamente criada pela avó". Nasceu com uma habilidade: aos dez anos já sabia cortar cabelo. Quando estava na 4ª série, sob oferta da avó, que sempre a incentivou na carreira, teve de escolher entre o ingresso no extinto ano de admissão (período entre a 4ª e a 5ª série) e um curso profissionalizante de cabeleireira. Cleide optou por dar continuidade na vida profissional. Se formou no curso aos 16 anos e se casou com 19. Logo teve filhos e o plano de estudos foi ficando cada vez mais distante, devido as tarefas domésticas e principalmente o trabalho fora de casa. "O tempo foi passando e eu fui deixando de lado algo que sempre quis fazer, mas que me faltou oportunidade", lamenta.

O retorno à escola aconteceu quando Cleide já estava com 49 anos, após a influência de algumas amigas do bairro. Segundo a cabeleireira - hoje dona de casa -, o que mais a incomodava antes de concluir o Ensino Médio era quando precisava preencher algum formulário ou quando era questionada em algum local público sobre seu nível de escolaridade. "Pra mim era a morte ter que responder que tinha até a 4ª série. Aquilo acabava comigo. Isso foi o que mais me motivou a voltar para a escola. Tá certo que eu sempre pensava nesse retorno, independente dessa questão", diz.

Apesar de não der dado continuidade aos estudos quando criança, Cleide sempre se mostrou uma pessoa muito interessada, sobretudo. Fez, além da profissionalização, curso de inglês e estudava outros temas em casa. "Eu sempre gostei muito de estudar. Ver meus filhos se formando e eu ter estudado apenas até a 4ª série me fazia mal. A escola me ajudou muito na autoestima, principalmente. Eu enchia a boca para dizer que voltei a estudar e que me formei", comenta.

A formatura de Cleide aconteceu no início dos anos 2000 na Escola Estadual Dom Miguel Kruse, no Jardim Danfer, Zona Leste. A vontade de dar continuidade nos estudos e se matricular no curso de psicologia foi brecada em decorrência de uma enfermidade com o marido, que demandou dela um maior empenho nas tarefas da casa. "A época da escola foi, para mim, sem dúvida, uma das melhores em toda a minha vida", finaliza.

 

 

Por Arilton Batista 


 

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