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Com equilíbrio e bom senso, pais podem ajudar a construir as escolhas dos filhos

 

Todo pai alimenta expectativas com relação ao futuro dos filhos, seja no aspecto profissional, religioso, político e até mesmo quando o tema é relativamente menos expressivo, como o estilo de se vestir, o gosto musical e o time para qual irá torcer. Pensando num futuro feliz e de sucesso para os filhos, muitos pais costumam tentar incentivá-los a seguirem seus passos. Ou, quando julgam o próprio passado como ruim, esperam que os filhos tracem caminhos diferentes dos seus. Muitos ainda se prendem à autoestima, acreditando que um filho bem-sucedido é sinal de boa educação e instrução dos pais. Mas nem sempre isso é possível, e os filhos fazem outras escolhas. Aos pais, cabe lidar com essas frustrações. Segundo especialistas, o segredo está no diálogo e na compreensão.

Para o Dr. Marcelo Katayama, 36, médico cirurgião, terapeuta e instrutor de treinamento no Núcleo Ser, é comum que os pais queiram que os filhos sigam seus exemplos ou coloquem em prática as sugestões, pois esperam que, num futuro, possam ter mais cumplicidade e realizar atividades juntos. "É muito natural um pai querer que os filhos sigam as mesmas escolhas que ele fez. Percebo que por trás deste desejo existe uma forma, até inconsciente, de demonstrar carinho e afeto. Ao ter gostos parecidos fica mais fácil compartilhar momentos juntos e isso fortalece o laço familiar, desde que sejam genuínas de ambas as partes", explica o profissional, ressaltando que também existe a outra realidade, em que os pais, por terem vivido um passado difícil, motivam os filhos a buscarem alternativas diferentes, para evitar possíveis sofrimentos.

A expectativa é algo com que se lida desde a infância, quando a criança espera ser alimentada, aguarda o presente de aniversário, espera o carinho e a atenção. Ou seja, ela é criada com base naquilo que as pessoas necessitam. Segundo o Dr. Marcelo Katayama, a frustração começa a se tornar aparente quando as pessoas se tornam mais conscientes. "A partir de certa idade, passamos a processar de maneira mais clara o pensamento. E esperamos que outras pessoas atendam às nossas necessidades. A partir daí surge a frustração, porque é impossível que todas as nossas vontades sejam realizadas", comenta Katayama, que está à frente como instrutor de treinamentos no Núcleo Ser desde 2009.

Com as mudanças ocorridas nos modelos de família, hoje em dia é possível encontrar maior liberdade de escolha e se tornou natural colocar em debate o limite da interferência dos pais nos processos de escolha dos filhos. Saber até onde se pode influenciar na vida dos filhos é tarefa que exige bom senso, sobretudo. Segundo a Dra. Inajara Simões da Cruz Santos, graduada em psicologia pela Faculdade Ruy Barbosa, de Salvador (BA), e especialista em terapia analítico comportamental pelo Núcleo Paradigma, de São Paulo (SP), os pais devem procurar sempre participar das decisões dos filhos, desde que isso ocorra sempre de forma natural. "Partindo do pressuposto de que aprendemos através das nossas experiências é fundamental criar os filhos para que eles possam fazer suas próprias escolhas e saber lidar com suas consequências", diz.

 


O campo em que os pais geralmente mais gastam energia tentando moldar o futuro dos filhos é o profissional. Muitos querem ver os filhos formados e atuando pelas mesmas profissões. Para a Dra. Inajara, os pais têm papel importante nesse processo de escolha, mas devem ter em mente que não são eles que devem decidir, tendo os filhos o papel de definir o próprio futuro profissional. "Em se tratando de escolha profissional, os pais podem e devem fazer parte do processo, pesquisar junto aos filhos e dar a eles toda munição de informações que possam auxiliá-los na tomada de decisão. Mas, ao final, é o filho quem realmente irá vivenciar as consequências da escolha e por isso precisa ser o 'arquiteto do próprio destino'", diz Inajara, que atua como orientadora educacional da Escola do Futuro, em São Paulo.

Outra situação muito comum e que perdura há anos é com relação à escolha do time de futebol. O pai, geralmente quando mais fanático, diz não aceitar que o filho torça para outro time que não seja o dele, principalmente quando trata-se de rivais diretos, que fazem, por exemplo, o clássico regional. Naturalmente a maioria das crianças acaba escolhendo torcer pelo time do pai. Mas nem sempre tudo acontece nessa harmonia, e os pequenos escolhem outro time do coração. Ainda que seja esse um tema considerado menos expressivo, é importante saber lidar com a situação para não causar incômodo e possíveis contrariedades.

A psicóloga clínica comportamental Letícia de Oliveira, que atende na cidade de São José dos Campos (SP), explica que o ideal não é o pai tentar manipular a escolha do filho sobre o time do coração. "Não acredito que nada que for forçado seja normal. Os filhos vão imitar alguns comportamentos dos pais. Mas, ao se sentirem respeitados, vão, pouco a pouco, conseguindo mostrar outros comportamentos de seus repertórios. Os filhos precisam de segurança para mostrarem o que realmente são em casa", conta a Dra. Letícia de Oliveira.

Roupas e vestimentas são outra questão em que os pais quase sempre não conseguem deixar de participar ativamente.
Mesmo quando os filhos começam a chegar na pré-adolescência alguns pais querem interferir na forma deles de se vestirem. O universo da moda rege tendências cada vez mais efêmeras, proporcionando uma enxurrada de informações e opções cada vez mais atrativas e direcionadas para o público jovem. Administrar situações em que os filhos querem escolher a própria roupa ou estilo também exige atenção e equilíbrio por parte dos pais. De acordo com a Dra. Letícia de Oliveira, não existe idade certa para deixar os filhos se vestirem sozinhos. "Os pais precisam observar o amadurecimento dos seus filhos e precisam ser equilibrados entre o permitir e o exigir. Precisamos respeitar a individualidade das crianças, mas não podemos esquecer a figura de autoridade e respeito que os pais precisam ter", comenta e finaliza a profissional.

 

 

Por Arilton Batista


 

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