FOTOS

Para especialista, respeito é a base para relacionamentos bem-sucedidos


Em tempos de overdose de informações, possuir opinião contrária a do parceiro ou da parceira é cada vez mais comum. Noutras décadas, dependendo da criação ou dos costumes familiares, eram mal vistos os casais que pensavam muito diferente, que pertenciam a religiões distintas, que tinham posições políticas contrárias e até se torciam para times rivais no futebol. Os próprios casais colocavam o relacionamento em xeque, caso percebessem divergências radicais de opinião entre eles. Houve a máxima de que apenas pessoas com costumes e gostos iguais se atraiam e construiriam um relacionamento bem-sucedido, o que, graças as transformações da sociedade, vem se tornando um mito. Especialistas defendem a ideia de que o respeito é um dos fatores mais importantes para lidar com as diferenças entre o casal e para a construção de um relacionamento de sucesso.

A prática, porém, é bem mais complicada do que a teoria. Conviver com as diferenças sempre foi um grande desafio na relação humana, independente do nível de contato – seja conjugal, de amizade, familiar ou profissional. As divergências de ideias que envolvem o casal, entretanto, parecem sempre exigir mais dos envolvidos, principalmente por conta do desgaste natural que o relacionamento atinge com o passar do tempo. Para a psicóloga coordenadora do curso de psicologia da Universidade Cruzeiro do Sul, Simone Domingues, os indivíduos precisam, sobretudo, compreenderem e aceitarem as diferenças. Segundo a profissional, que também é membro da diretoria da Associação de Psicologia de São Paulo, antiga Sociedade de Psicologia de São Paulo, alguns casais acreditam estar numa disputa. “Quando as pessoas entendem que são diferentes, porque cada um tem sua história, sua personalidade, mas apesar disso se atraem, elas aprendem a respeitar as diferenças. Administrar essas diferenças é entender que não estamos numa relação disputando, como numa brincadeira de cabo de forças, em que apenas um vai ganhar. Administrar é respeitar a diversidade”, diz Domingues.

Juntos há 25 anos, sendo 17 casados, o representante comercial Adilson Garcia, 47, e a coordenadora pedagógica da Secretaria Estadual de Educação Andréa Valentim, 42, são um exemplo de que a falta de compreensão pode ser uma pedra no sapato no convívio do casal, gerando um desconforto que, na maioria das vezes, é evitável. A história deles também ilustra muito bem a importância do diálogo e do respeito. Ela, torcedora do São Paulo. Ele, do Corinthians. No começo, tudo bem. Como o relacionamento inciou de forma rápida, o tema futebol não veio à tona. Mas ainda no primeiro ano de namoro o São Paulo sofreu uma derrota e, com isso, aconteceu a primeira discussão. "Nos conhecemos em agosto e logo em dezembro já começaram as desavenças futebolísticas. Tiração de sarro, zoação e eu logo fiquei brava, mas logo fizemos às pazes", relembra, sorrindo, Andréa.

Para ela, o que mais a incomodava no comportamento do marido, corinthiano, eram de fato as tirações de sarro e a mania, segundo ela, que todo corinthiano tem de achar que todo mundo tem inveja do Corinthians ou que eles são Ibope mesmo quando perdem. “Hoje em dia as coisas estão bem mais amenas, mas houve uma época em que ele não brincava comigo diretamente, mas ficava mandando os outros falarem as coisas, contava piadinhas prontas e bizarras em voz alta quando eu estava por perto e coisas do tipo”, conta a são-paulina. Já Adilson Garcia sempre se incomodou bastante com a postura da esposa e dos demais torcedores do São Paulo por se acharem sempre superiores, segundo ele. “Não gosto dessa mania de soberano, de achar que são melhores em tudo. Melhor estádio, com mais conquistas, pessoal mais elitizado e etc.”, comenta.

 


Apesar de todas discussões e climas desfavoráveis que se formaram devido à falta de bom senso do casal em alguns momentos, a situação, com o passar do tempo, foi se abrandando e hoje a questão time não interfere mais tanto no ambiente familiar e no cotidiano do relacionamento. Quem brecou as brincadeiras com o time rival primeiro foi a Andréa, que, numa situação oportuna, pediu ao marido, Adilson, que não a provocasse também. Eles não tiveram uma conversa sistemática, não sentaram para tratar o tema, mas a compreensão e o exercício do bom senso fez com que ambos tomassem a consciência de não provocar mais o outro. "Nós só tivemos chateações de momento. Era mais a Andréa que ficava de bico. Mas nunca rompemos ou brigamos de verdade por conta disso, ainda bem", conta Adilson Garcia.

A psicóloga Simone Domingues explica que, em algumas situações, evitar a discussão é uma forma de evitar conflitos e desgastes, e que times de futebol não devem ser encarados como problemas para um casal, já que a escolha pelo clube acontece, quase sempre, muito antes do início do namoro. “Agora, problemas que vão surgindo no decorrer do relacionamento, sim, devem ser conversados, para que a relação sempre seja transparente e adulta", diz a doutora, que acredita ser também responsabilidade do casal evitar assuntos em público ou entre os amigos sobre temas que incomodam o parceiro ou a parceira. Para ela, a intimidade facilita esse feeling. “Quando começamos um relacionamento vamos nos aproximando e iniciamos uma relação de intimidade, que nos permite antecipar o comportamento do outro e sabermos como proceder para evitarmos situações vexatórias e constrangedoras. Numa reunião de amigos o objetivo é a confraternização. Conhecendo nosso parceiro e sabendo que conversar sobre determinado assunto pode gerar uma situação constrangedora, devemos administrar essa questão", diz.

Nos casos mais agudos de incompreensão ou divergências de ideias, que podem estar de fato atrapalhando a rotina do relacionamento, é importante que um terceiro interfira no caso e oriente o casal para que a situação seja ao menos amenizada e, se possível, resolvida de vez. O contrário disso pode tornar o convívio ainda mais desgastado. “Quando um casal não consegue administrar mais sua relação, mas ainda se gosta, é importante a ajuda de outras pessoas. Muitas relações são revistas quando tem alguém que ajuda a enxergar o que as discussões e desavenças não estão permitindo mais ver”, ressalta a Dra. Simone Domingues.

É importante um resgate no tempo para haver uma comparação com os moldes dos relacionamentos atuais. Noutras ocasiões muita gente deixou de expressar seus devidos desejos, vontades e opiniões por serem divergentes às do parceiro ou parceira. Segundo a Dra. Simone, as pessoas acreditavam que existia uma alma gêmea capaz de agir e pensar iguais a elas. “Hoje sabemos que muitas pessoas se anularam para fazer somente os desejos do outro, sem respeitar sua própria individualidade. Com o avanço da sociedade e a possibilidade de se expressar, as pessoas perceberam que podem viver com as outras, desde que não percam sua individualidade e que esta seja respeitada”, finaliza.

 

 

Por Arilton Batista


 

Voltar