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Sempre altaneiro, Ernesto Teixeira é há 30 anos a voz da fiel

Quem diz que abril é marcado apenas pelo cristianismo, em virtude da Páscoa, não sabe que dia 23 é também o Dia de São Jorge e Dia do Torcedor Corinthiano. “O corinthianismo é um estado de espírito. O Corinthianismo é mais ou menos aquilo que a gente anceia de vida, de povo, de Brasil. A gente respira o Corinthians”, define Ernesto Teixeira sobre ser corinthiano. Há trinta anos como intérprete da Escola de Samba Gaviões da Fiel, Ernesto, 50, desobedeceu ao pai, um santista, para galgar os degraus da vida e se tornar hoje um dos maiores ícones e representantes da torcida alvinegra em plena atividade. Foi na arquibancada, entretanto, que tudo começou e onde o paulistano Ernesto Teixeira descobriu a marcante voz e a verdadeira paixão pelo Carnaval.

Inserido efetivamente nos estádios de futebol no final da década de 1970, Ernesto, quando criança, só podia ir a jogos entre Corinthians e Santos na companhia do pai e de um grande amigo da família chamado Valdir, que era Corinthiano e membro da Gaviões da Fiel. Ao chegarem na porta do estádio, o amigo queria que Ernesto entrasse com ele. “O moleque vem comigo, na torcida do Corinthians”, dizia Valdir. O pai, santista, não impedia. Mas não permitiria no futuro que o filho, embora já com 16 anos, fosse sozinho aos jogos do Corinthians. "De certa forma eu conquistei minha independência. E meu pai disse que se eu fosse não entraria mais em casa. Eu testei, eu fui. Retornei pra casa e a porta estava fechada. Mas minha mãe abriu. Foi com essa identidade que eu cheguei na torcida. Me identifiquei”, relembra Ernesto. Acompanhando os Gaviões, passou a integrar o departamento de bandeiras da torcida, equipe que cuida, confeccionava e leva as faixas para os jogos, além de organizar a entidade de uma maneira geral.

 

Dos estádios para a avenida do samba, Ernesto cantou muito dentro de ônibus com a Gaviões da Fiel no caminho para os jogos e sempre se destacava entre os amigos no quesito voz. Aos sábados acontecia uma roda de samba na quadra da torcida, mas, por ainda não ter alcançado a maioridade, ele não podia ficar até à noite, quando se iniciava o samba. “Como era de sábado à noite eu não conseguia frequentar. Eu chegava aqui [na quadra] sete horas da manhã, jogava bola. Quando dava sete, oito horas da noite e ia começar a roda de samba, eu ia embora pra casa”, conta. No início dos anos de 1980, já podendo atuar nas rodas de samba, quando a Gaviões ainda era bloco, Ernesto Teixeira desfilou e aprendeu a tocar alguns instrumentos da bateria. Em 1984, com a saída do Tobias para a Vai-Vai, surgiu a oportunidade como intérprete.

Daí em diante foram anos de glórias e conquistas, além de um período conturbado dentro da escola de samba, que em 1990 esteve para encerrar as atividades no Carnaval. Na ocasião, Ernesto, aliado a um grupo, propôs a ideia que hoje ele chama de MSI do Bem, fazendo alusão ao período de 2004 a 2007, quando a empresa Media Sports Investment (MSI) acordou com o SCCP de realizar investimentos no time e obter lucros futuramente. O projeto falhou e o contrato foi encerrado. Na chamada MSI do Bem Ernesto Teixeira investiu recursos próprios para reerguer a escola de samba e o lucro seria destinado para a própria agremiação. Os frutos desse investimento vieram no ano seguinte, com a conquista do Grupo de Acesso no Carnaval Paulista, com o enredo A Dança das Horas. Em 1995, com o enredo Coisa Boa é Pra Sempre, a escola alvinegra se sagrou novamente vencedora. Em 1999, 2002 e 2003 o feito se repetiu, levando a Gaviões a um patamar diferenciado, mostrando a força principalmente da bateria da escola. Em 2005 e 2007, levantou a taça do Grupo de Acesso.
“Foi um grande planejamento. Meu trabalho não se limitou apenas a cantar e ser um artista, só nos holofotes. Quando precisou empurrar carro alegórico eu empurrei também. Quando precisou trabalhar no bar eu trabalhei. Se eu não tivesse tomado aquela atitude hoje a gente não estaria aqui conversando. Porque o carnaval tinha sido extinto dentro da entidade", comenta Ernesto, que participou, inclusive, da limpeza do terreno onde hoje é a quadra da escola/torcida.

A Gaviões é pioneira no desfile de torcidas organizadas no Carnaval de São Paulo e o SCCP é o clube com maior torcida dentro do estado. Isso faz com que ser a voz da Gaviões da Fiel no sambódromo seja considerado por muitos uma responsabilidade diferenciada, quando comparada com as demais entidades do samba. “Guardadas as proporções, a minha função é a do cara que bate o pênalti na decisão do campeonato. Então, ali é o começo de todo o trabalho. Se eu entrar errado, se eu der a nota errada, todo o trabalho de um ano, de um clube, de uma escola de samba, vai pro saco”, explica. Apesar de considerar um dom a habilidade que possui com a voz, antes de conquistar o posto de intérprete Ernesto nunca havia estudado música. Após a promoção dentro da escola ele sentiu a necessidade de ingressar na Universidade Livre de Música (ULM), no coral Lumiá do Teco Galati e fez aula de canto lírico. “Isso tudo por causa da Gaviões, essa responsabilidade de representar o torcedor corinthiano no carnaval de São Paulo. Eu achava, e acho, que o Corinthians tem que estar sempre bem representado”, diz.

Todo o investimento feito por Ernesto Teixeira em prol da Gaviões da Fiel e, por consequência, do Corinthians não retornou a ele de forma material ou financeira. Ele nunca recebeu nenhum dinheiro por servir a escola com a sua voz, que é referência no Carnaval do Brasil. Em 2006, quando a Gaviões caiu para o Grupo de Acesso, ele recebeu uma proposta de uma grande escola do Grupo Especial para ganhar R$ 10 mil por mês. O convite foi negado. Mas Ernesto faz questão de salientar que ele nunca aceitou salário da escola por ter uma profissão, uma remuneração que o permite não cobrar pelos serviços prestados na Gaviões. “Sem falsa demagogia. Faço porque tenho condições de fazer. Se amanhã ou depois eu perder o emprego, não tiver mais remuneração, eu terei a humildade de pedir para ser remunerado. Pra poder viver. Hoje, como eu não preciso, eu faço dessa forma”, esclarece.

Premiado inúmeras vezes no Carnaval Paulista, Ernesto Teixeira destaca dois deles. O primeiro, concebido em 2012 pela Escola de Samba Mocidade Alegre, é o de Sambista Imortal – considerado por ele o mais importante em sua carreira. “Considero o maior prêmio dentro do mundo do samba, porque eu fui homenageado por uma outra escola de samba, uma concorrente da Gaviões. Isso mostra sinal de respeito pelo meu trabalho, de acompanhamento pela minha história”, ressalta Ernesto. O segundo aconteceu em 2015, quando o site especializado em Carnaval SRZD.com.br, editado e dirigido pelo jornalista Sidney Rezende, premiou o puxador de samba da Gaviões como Personagem Especial.

Pela experiência de mais de 30 anos convivendo no meio da Gaviões da Fiel, dentro dos estádios, nas festas, na quadra e no Carnaval, Ernesto tem bagagem e garante que o caminho melhor a ser seguido por todas as pessoas envolvidas em entidades organizadas do futebol é fugir de toda e qualquer violência, além de buscar o respeito por aquele que veste a camisa contrária. “A gente tem que ter a rivalidade, disputa, isso é saudável. Mas nunca pautar isso pela violência, porque não leva nada para ninguém. Pelo contrário, só trás dor. E o trabalho da torcida, como o do Carnaval, tem algo muito bonito a dar, que é a participação dentro do espetáculo. Coisa que as autoridades hoje estão dando pouco valor. Tratam o torcedor como um simples consumidor. E o torcedor, em especial o organizado, é parte da festa”, finaliza Ernesto, que hoje é também narrador de jogos do Timão pela web rádio Memória Corinthiana.

por Arilton Batista


 

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