FOTOS

A música e a política


“Sim vamos embora que esperar não é fazer, quem sabe faz a hora e não espera acontecer!”

Será que alguém nunca ouviu esse trecho de uma canção composta por Geraldo Vandré que juntamente com Théo de Barros também iria compor outra página imortal de nossa mú­sica: Disparada? Em pleno ano de 1968, no auge da ditadura militar que governava o Brasil, a música de onde foi extraído o trecho acima - Prá não Dizer que não Falei das Flores – foi imediatamente banida das rádios, televisões e lojas de discos por ser considerada um insulto à ordem que então reinava em nosso país. Como Geraldo Vandré já fora “penalizado” com a proibição da canção em todo o território nacional, a junta de censura foi “boazinha” e deixou livre para execução Dispara­da apesar dessa outra canção poder ser encarada como uma incitação à luta no campo principalmente quando afirma que “por que gado a gente pega, tange ferro engorda e mata, mas com gente é diferente!” 


Por ideologia ou opressão, a verdade é que uma das mani­festações que sempre caricaturou ou mesmo fez críticas nada veladas aos regimes governamentais pelo mundo afora foi a música, porém vamos nos ater ao nosso País pois é aqui que vivemos e onde temos que admitir que governo sempre deixa a desejar esse ou aquele setor da população. Houve um tempo em que as coisas podiam fluir mais abertamente e o Carnaval era, então, a oportunidade do povo se manifestar e observem que essa oportunidade sempre esteve na pauta dos composito­res nacionais. 

“Varre, varre, varre vassourinha...” essa marchinha carna­valesca louvava a figura do então candidato à Presidência do Brasil, um fenômeno eleitoreiro dos anos 50 ou seja, Jânio Qua­dros que com sua figura quase folclórica por onde aparecesse em comícios ou aglomerações populares, se munia de uma vas­soura e a prometia usar contra a corrupção que grassava por aqui (vejam como esse assunto não é tão atual assim). Milhares de adesivos e mesmo miniaturas de uma vassoura eram dispu­tados aos tapas pelos eleitores dispostos a dar seu voto contra as coisas erradas. Eleito, Jânio Quadros tratou de renunciar apenas seis meses depois alegando “forças ocultas” terem pesado nes­sa sua decisão. Tanta esperança para que ele, nosso Presidente, proibisse apenas o uso do biquíni nas praias brasileiras! 

Outro personagem que sempre mereceria a atenção do cancioneiro brasileiro sem dúvida alguma foi Getúlio Vargas, ditador e presidente com mandato mais duradouro até hoje (entre seus dois mandatos, Getúlio atravessaria os anos 40 e 50 até se suicidar para não ter que sair do Palácio do Cate­te andando e humilhado)! Haroldo Lobo, grande compositor de sucessos na voz de Miltinho e até Dalva de Oliveira não deixou por menos e compôs uma marchinha que pedia para colocar “o retrato do velho outra vez” só que ao invés de se sentir homenageado, Getúlio, grande conquistador e mulhe­rengo, não gostou de ser chamado de velho ! Nem sempre as coisas ocorrem dentro do esperado. Mas vamos avançar para tempos mais recentes. 

Alguém já ouviu o jingle * que dizia assim “leve um novo Sol para Brasília, para brilhar no senado, vote em...” Quércia ou Orestes Quércia, à época candidato ao Senado, viria a ser eleito dando um grande salto em sua carreira política que en­gatinhava e que o levaria a ser um dos políticos de maior pro­jeção, ao contrário do Eimael que com o jingle “Ei, ei, Eimael, um democrata cristão...” até hoje continua tentando alçar voos mais importantes em sua trajetória.

Ah! E tem aquele indefectível “Lulala” que de esperança de novos tempos na política nacional acabou ou ainda está passando por um inferno astral que parece não ter fim apesar de toda a blindagem que seu partido vem tentando fazer. Mas espera aí, só estou mencionando músicas e jingles que foram sucessos e, muitas vezes, são lembrados até hoje, mas o que di­zer de algumas canções que pouco devem ser lembradas e que foram igualmente banidas do cancioneiro popular moderno? 

“O tigre chegou na frente e metralhou a garganta do estu­dante” era o trecho de uma música apresentada em um festival da canção pela extinta TV Tupi de São Paulo. Apesar de pes­quisar, nada encontrei sobre ela ou seus autores e tive que me limitar à memória de meu pai! O trecho acima era o original mostrado na primeira eliminatória daquele festival. A censu­ra, lógico, quis proibir a segunda apresentação já que ela fora classificada. Então, não se sabe bem por que ou graças a quem, ela pode ir para a outra faze só que com uma “leve” mudança que deixou o trecho acima assim: “o tigre chegou na frente e metralhou a garganta do elefante”. Sutil não? 

Minha gente (sem querer fazer apologia a nenhum ex pre­sidente brasileiro), um fato é incontestável ou seja, o Brasil pródigo em criatividade, não poderia como não deixou, de fa­zer críticas ou mesmo louvar os políticos em ascensão ou já consolidados, buscando uma maneira de renovar esperanças de nosso povo em figuras muitas vezes emblemáticas e em outras, surreais, mas sempre com um lampejo de que a coisa toda pode mudar e assim deverá ser hoje e sempre. Dando rasteiras em censores, elogiando ou criticando pessoas públicas, mudando aqui e acolá uma letra para poder mantê-la viva. O Brasil segue adiante pela tenacidade de cada um de nós, mesmo tendo por vezes de remarmos contra a correnteza utilizando como remo uma colher de café !!! 
* Jingle: canção publicitária. 

Por Bruno Saike • músico e vocalista da Banda He Saike 

 

 

 


 

Voltar