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A música e a religiosidade através dos tempos

Desde que o homem percebeu que precisava de “algo mais” para continuar enfrentando suas lutas diárias, e olhe que isso já faz muito tempo, percebeu também que se expressasse sua crença não apenas pelas orações, mas também incrementando-as com um “plus”, a música passou a fazer parte dessa crença toda independente da religião a ser seguida.
Os registros mais remotos encontrados pelos pesquisadores dão conta de que os Druidas, povos antigos que habitavam parte da Europa como a conhecemos hoje, já manifestavam sua religiosidade com canções de evocação aos seus deuses esperando agradá-los além dos sacrifícios todos que a eles também ofertavam e vejam que esses povos habitaram nosso planeta muitos séculos antes das religiões como as conhecemos surgirem em nossas vidas!

Na verdade os Druidas não seriam os precursores dessa ligação entre homem e deuses. Um a parte nesse texto se faz necessário para explicar o próprio significado da palavra religião que no latim significa religare. Registros ainda muito mais antigos da história do homem em sua caminhada por aqui mostram que além de esculpir em pedras e rochas as cenas do cotidiano, o chamado homem das cavernas se dava ao luxo de desenvolver instrumentos não apenas para caça mas também para poder tocar alguma coisa parecida com música.
É arriscado afirmar que a religião e a música sempre caminharam de mãos dadas porém, ninguém pode negar a força que ela, a música, acabaria imprimindo na vida religiosa de todos nós. Dando uma rápida passada pela África, o berço da humanidade, descobrimos que os cantos religiosos sempre fizeram parte dos cultos dirigidos aos deuses fosse em celebrações, fosse nos preparativos para a guerra, onde a ajuda divina sempre era mais que bem vinda, fosse em rituais dos mais diversos significados.
Se o berço da humanidade sempre agiu assim, o que dizer do chamado berço da civilização – a Grécia, onde os vários deuses eram merecedores de canções para aceitarem dar aquela ajudazinha ao serem evocados? Os gregos de uma maneira geral ensinaram ou solidificaram as raízes dessa estreita ligação entre cantar e orar. Com a ascensão do império romano, este não somente tomou emprestado esses deuses gregos trocando-lhe os nomes, como também adotou cântigos e hinos usados nas mais diversas cerimônias.
E se os romanos procederam assim, sabiam que um rufar de tambores ao longe significariam uma batalha próxima pois era com esse expediente que os chamados bárbaros ou seja, povos que não se curvavam ao julgo dos romanos cadenciavam sua marcha para guerrear. Acredito que muitos de nós tenham assistido a algum filme onde os barcos de guerra eram impulsionados pelos remadores cadenciados por um tocador de tambor.
É interessante notarmos que os povos navegadores da Península Ibérica (Espanha e Portugal) quase nunca adicionavam cantos e hinos em suas práticas religiosas, limitando-se a poucas partituras gregorianas. Ao desembarcarem no Novo Mundo – a América, se encantaram com as danças dos nativos daquele novo continente que compunham o cenário das noites ao redor de fogueiras e causavam um certo transe para a comunicação com suas divindades. Essa prática mereceria destaque nos relatos enviados às coroas que comandavam aquelas nações principalmente pela diversidade que apresentavam!
Esse deve ter sido o legado deixado para que os missionários que em ordas se encaminhariam para essas “terras novas” passassem a entoar hinos visando aproximar aquela “gente esquisita” para a religião que iriam impor pelo bem ou pelo mal a eles! E essa preocupação em cantar enquanto oravam permaneceria séculos a frente sendo desenvolvida cada vez mais não apenas pelos católicos responsáveis pela então chamada catequese como também pelos seguidores protestantes que passariam a vir em número cada vez maior logo após a chamada cisão promovida por Martinho Lutero e que serviria de base para as diversas vertentes dos evangélicos.
Hinos, canções, mantras, não importa, importante é que a música sempre esteve presente nas manifestações religiosas tanto dos povos da antiguidade como nos cultos atuais sendo que essa presença se consolida e põe em marcha um mercado crescente e que, não poderia ser diferente, movimenta além da fé, milhões em dinheiro sempre com a máxima de que deuses ou Deus aceitarão muito mais atenção os pedidos que lhe forem dirigidos se estes estiverem acompanhados de uma boa música!

Bruno Saike • músico e vocalista da Banda He Saike


 

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