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A música e o carro

Se existem mesmo três grandes paixões entre os brasileiros, duas delas certamente são música e carros e isso pode ser facilmente percebido na história recente de ambas. Quando digo “recente” devo isso a uma rápida análise do assunto durante o século XX, tão próximo e já tão distante de todos nós!
Quem não se lembra do calhambeque cantado à exaustão por Roberto Carlos que preferiria trocar seu Cadilac pelo carrinho velho que lhe foi emprestado por um mecânico? Quando o conserto do “carrão” foi concluído, a simpatia pelo “velhinho” prevaleceu e ele, Roberto Carlos, sairia contente para suas aventuras a bordo do novo “amor”! O “Rei da Jovem Guarda” ainda exploraria essas duas paixões nas Curvas da Estrada de Santos e na composição 120, 160, 180 Quilômetros Por Hora que acabaria virando tema de um dos três filmes de cinema com sua participação, não sem antes chegar em uma Festa de Arromba com seu novo carrão.
Antes disso tudo, o mesmo RC desceria a Rua Augusta a 120 por hora sendo multado pela façanha, além de agir como um Lobo Mau, dirigindo sua “caranga” na caça às “ovelhinhas desprotegidas”. Outro “ídolo” da época, Eduardo Araújo, ficaria para sempre conhecido como O Bom graças a ter um carro vermelho e sem espelhos (retrovisores, claro).
Pouco tempo depois e talvez poucos se recordem, seria a vez de Vanderléia, outro ícone da chamada Jovem Guarda musical comprar uma “charanga velha” que encontrara. Charanga era um termo muito utilizado para designar um carro velho e caindo aos pedaços. Nessa música a “Ternurinha” (era assim que a cantora era conhecida nas tardes de domingo) pintava o carrinho de amarelo “prá poder passear”.
Depois seria a vez dos irmãos Marcos Paulo e Sérgio Valle, uma dupla de muito sucesso em composições lá pelos meados dos anos 60, sonharem com um Mustang cor de sangue porém, como a grana devia estar curta, acabavam se contentando com um Corcel cor de mel. Essa música ganharia até um clipe com os dois passeando pela orla de Copacabana sentados sobre o porta malas do famoso carro da Ford para, depois, saírem de uma garagem pilotando o pequeno Corcel.
O tempo passaria voando mais rápido que um Formula 1 para encontrar um até então desconhecido Almir Rogério se decepcionando ao perder o amor de sua vida para um carro que com seu “ronco maldito” desmoronava seu castelo tão bonito! O sucesso dessa música seria tão grande que mereceria uma continuação além de tirar do anonimato seu cantor que chegava nos shows pilotando um “Fuscão Preto”!
Já mais recentemente Ivete Sangalo chegaria à conclusão que andar de carro velho era lenha ou seja, uma aventura, isso sem citar que atrás do trio elétrico só não iria quem já morrera. O trio elétrico, uma “invenção” da dupla Dodô e Osmar viraria um verdadeiro símbolo dos carnavais pelo país afora logicamente ganhando aparatos que passariam a precisar de enormes carretas para transportá-los.
Ainda na voz de Roberto Carlos a música chegaria para homenagear os caminhoneiros brasileiros que mesmo diante das dificuldades das estradas, tudo fariam e fazem para matar a saudade. Chuva fina no parabrisas era apenas uma dessas dificuldades que eram vencidas. Mas se imaginamos que essa mania de fundir música e carros era coisa do passado estamos errados!
Dodges RAM, Fiorinos, motos CG 125 cilindradas, Camaros amarelos e outros tantos voltariam à cena musical brasileira com força, trazendo do desconhecido para a fama muitos representantes da chamada música sertaneja que de sertaneja mesmo só pode ser considerada pelo uso esporádico de uma viola e pelas vozes anasaladas de seus mais que espertos intérpretes.

A união da música e dos carros é tão intensa que nas saudosas manhãs de domingos passados, ao ouvirmos o Tema da Vitória, sabíamos que Airton Sena havia ganho mais uma corrida. E olhem que essa composição nada tinha a ver com o universo automotivo e muito menos da Formula 1 quando foi composta!
Como podemos observar, carro e música andam há tempos de mãos dadas e não será nenhuma novidade que assim continuem a caminhar e olhem que só me detive na música brasileira contemporânea pois se formos mais fundo nessa pesquisa veremos que essa dupla vem de muito mais tempo atrás, não sendo tão recente assim. Só para citar um exemplo extraído das páginas da história do automóvel, ainda nos distantes idos dos anos de 1910 descobriremos que naquele início de século uma canção se tornaria mais que popular ao enaltecer as virtudes de um carrinho chamado “Curved Dash”, algo como linhas curvas, que foi produzido pela extinta Oldsmobile norte americana e que se chamava I Love My Olds que traduzido para nosso idioma significa Eu Amo Meu Oldsmobile. Preciso falar mais alguma coisa a esse respeito?

   Bruno Saike • músico e vocalista da Banda He Saike

 


 

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