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Estímulo à imaginação é essencial para o desenvolvimento da criança

A brincadeira de faz de conta fez parte essencialmente daqueles que tiveram a infância vivida até a década de 1990. Fazia-se de conta que tinha uma família. Fazia-se de conta que iam ao mercado, que dirigiam, que eram professores; assumiam o papel de cientistas, de astronautas e jogador de futebol; de modelos e artistas de novela. A mente das crianças sempre permitiu de tudo. E esse recurso, do exercício do imaginário, é muito importante para o desenvolvimento psicológico, intelectual e social das crianças. Atualmente, com a forte ascensão da tecnologia, com celulares e computadores supermodernos, principalmente, perdeu-se um pouco dessa característica, das crianças mesmo criarem suas histórias, seus personagens e montarem, de acordo com as próprias ideias, as brincadeiras e jogos de grupo. 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A televisão já produziu alguns programas que ajudam a ilustrar esse tema, como é o caso do desenho animado O Fantástico Mundo de Bobby, em que o enredo é totalmente baseado na fértil imaginação do garoto Bobby, de quatro anos. No Brasil, entre 1991 e 1992, a TV Cultura exibiu a série Mundo da Lua, em que o personagem principal era Lucas Silva e Silva, um menino que ganhou do avô paterno, no aniversário de dez anos, um antigo gravador que lhe servia para registrar as mirabolantes ideias de como gostaria que as coisas fossem de verdade. Ou seja, a cada episódio podia-se viajar no imaginário de uma criança - no caso, representada pelo ator Luciano Amaral. Ainda na TV Cultura e com outra temática, havia o programa Rá-Tim-Bum, onde era exibido o quadro Contadores de Histórias, que nada mais era que atores da emissora contando histórias e ilustrando com objetos do cotidiano de uma casa, como colheres de pau, guardanapos, copos, prendedores de roupa, etc. Para quem assistia, era um verdadeiro passeio fora da realidade. 

Mesmo alguns brinquedos considerados evoluídos para a época em décadas passadas estimulavam a imaginação das crianças, como os famosos Legos e o Playmobil. Fazer casinhas e cidades de areia no quintal, na rua e nos parquinhos era o máximo para os meninos. Comidinha de terra, água e capim era o ápice gourmet para as garotas. Esses gestos não são tão comuns hoje em dia, em que as cidadezinhas já vêm prontas, com postos de gasolina, carrinhos e casas; algumas comidinhas para as meninas são de verdade, feitas por pequenos aparelhos de verdade. Para a coordenadora pedagógica do Ensino Fundamental no Colégio Fereguetti, Cristiane Regina dos Santos, a imaginação para as crianças é uma questão essencial. “É no imaginário que me estabeleço como cidadão, ser social. Esse processo acontece durante a vida, desde o nascimento até a fase adulta. O imaginário está para criança como ela está para a vida”, comenta. Patrícia Ortega Ricci, coordenadora pedagógica da Educação Infantil do Fereguetti, destaca a importância e os cuidados na utilização das ferramen-tas tecnológicas pelas crianças.”Hoje em dia é muito importante que as crianças conheçam as novas tecnologias para o seu desenvolvimento e conhecimento do mundo, pois tornou-se uma necessidade social. Porém esse mundo virtual, sem um direcionamento, limita a capacidade das crianças em criar, imaginar e assimilar diferentes possibilidades e descobertas”, diz Ricci.

As brincadeiras de faz de conta, por exemplo, podem ser úteis não simplesmente como entretenimento para imaginário das crianças, mas também para o desenvolvimento de habilidades muitas vezes utilizadas no futuro, noutra etapa da vida, como a adolescência. Como a criação de situações é infi nita, os pais podem colocar os filhos pequenos em cenas de histórias em que consigam treinar o controle do medo, por exemplo. Outro aspecto importante relacionado às crianças que são imaginativas é que elas podem obter mais sucesso na resolução de problemas. Esse foi um estudo feito pela Universidade Case Western Reserve, nos EUA. “O imaginário está intrínseco em nossa existência. Faz parte de nosso dia a dia. Não existe realidade sem imaginação. Por isso buscamos despertar em nossas crianças a alegria de sonhar”, explica Karina Fereguetti, diretora pedagógica do Colégio Fereguetti. 

Existem algumas atividades que ajudam a desenvolver a imaginação das crianças. Cabaninhas, quebra-cabeças, blocos para montar, roupas de bonecas, materiais para pintar e desenhar, carrinhos de bonecas ou de supermercados e brinquedos que imitam o universo adulto são algumas delas. Julgadas por muitos como as mais efi cazes para trabalhar o imaginário infantil, porém, são as relacionadas à contação de histórias. Além de ler os textos para os pequenos, convidá-los a dar o início ou fim ao enredo é uma ideia para estimulá-los. Mesclar algum acontecimento verídico da vida da criança e complementar com a ficção é, também, uma forma de envolvê-la no contexto. Aos que já escrevem, montar histórias a partir da observação de imagens e a produção de um texto coletivo também podem ser divertidas maneiras de exercitar o imaginário. A diretora do Colégio Fereguetti destaca a importância das histórias para as crianças. “As crianças adoram ouvir histórias, e é muito importante buscar temas de seu interesse. Teatro de fantoches, cinemas e livrarias com espaços lúdicos também estimulam o gosto pela leitura, auxiliando principalmente o processo de alfabetização”, comenta Karina.

José Carlos Martins é psicólogo e diretor pedagógico do Colégio Renovação, localizado no Jardim da Saúde, Zona Sul de São Paulo, explica que a criança se sentirá estimulada pela leitura vendo os adultos lendo e que, por isso, deve haver envolvimento dos pais na hora de contar as histórias para os fi lhos. “Quando lemos para as crianças, interpretando os personagens, mudando o tom de voz, gesticulando (teatralizando o texto), o interesse se amplia e o gostinho de quero mais fi ca presente. O que temos é que nós não fomos formados para sermos leitores e muitas vezes fazemos ‘leituras’ para nossos filhos sem o verdadeiro sentido que ela tem”, diz Martins.

Com a intensão de fazer com que os fi lhos se sintam interessados pela leitura e que exercitem a imaginação, muitos pais fazem trocas com eles, como na utilização do computador e do videogame. Para que eles tenham, por exemplo, o direito de jogar durante duas horas na frente da televisão, é necessário ler determinada quantidade de páginas do livro ou colorir ou pintar x números de desenhos no papel. É um método polêmico. Para alguns, é uma saída para o momento em que vivemos, de constante atualização tecnológica e certa overdose de internet.
José Carlos Martins, entretanto, acredita não ser a melhor forma de conduzir a situação. “Creio que esta é a negociação que não forma leitores, mas sujeitos distantes da leitura. O computador é atraente. Traz as respostas, as imagens, o movimento, as falas de forma imediata. Não é gostoso? O livro contendo imagens, palavras e coloridos fica um pouco distante da vivência da criança.
Faz-se então a barganha? Não acredito que isso auxilie a criança! O livro infantil faz a criança pensar seus confl itos, seus medos, suas angústias. Há nele a representação do desenvolvimento emocional, dos valores culturais, da construção histórico-educacional dos sujeitos. Utilizá-lo para estas descobertas deve ser ensinado e não negociado”, comenta José Carlos Martins 

Para Soreny de Espírito Augusti Diretora Adjunta e Orientadora Pedagógica do Colégio São Vicente de Paulo, “as livrarias estão estruturadas, atualmente, para receber o público leitor. Disponibilizam espaços para leitura, para que se faça uma seleção antes de comprarmos um livro. Levar as crianças para esses espaços é um bom estímulo à leitura. Auxiliá-la na escolha de assuntos ou histórias que desejam conhecer. Ler um pequeno trecho do livro para despertar a curiosidade, o interesse também é um importante estímulo. Essas pequenas ações agradam muito a criança e, com certeza, ajudará nessa motivação para a leitura. A criança precisa ser despertada para o gosto de pegar um livro nas mãos, ir e voltar em suas páginas, manipulá-lo, sentir o cheiro do papel, observar ilustrações etc.”

Encontrar o equilíbrio entre as tarefas físicas, de correr, se exercitar, com as atividades lúdicas, a leitura e escrita - que estimulam a imaginação - juntamente com a gama surpreendente de elementos tecnológicos é ainda um desafi o para as escolas e também para os pais. Buscar na internet, por exemplo, por sites educativos, de jogos e/ou desenhos separados por faixas de idade é uma saída que une o universo da tecnologia com o campo educativo e da imaginação. “Os pais podem fazer a mediação do uso da tecnologia de forma educativa, com sites adequados
para a faixa etária, possibilitando a interação familiar, extremamente importante na educação infantil”, finaliza a coordenadora pedagógica do Colégio Fereguetti Patrícia Ricci.

por Arilton Batista


 

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