FOTOS

Violência no trânsito é também uma questão comportamental 

Para especialista, consciência, calma, respeito e atenção são fatores essenciais para um trânsito mais pacífico 



Não é de agora que o trânsito é pauta diária dos jornais e telejornais com manchetes de acidentes envolvendo pedestres, carros, caminhões, muitas motocicletas e, mais recentemente, os ciclistas também têm ocupado as primeiras páginas na grande mídia. A impressão que o paulistano tem é de que a quantidade de veículos cresce ou que as vias de transporte encurtam. Dividir o pouco espaço nas ruas entre quem anda a pé, condutores de veículos e o transporte público não são tarefas das mais fáceis. As condições atuais do trânsito em São Paulo cada vez mais exigem da população bom senso, paciência e respeito, a fim de promover um tráfego viário menos violento. Em 2013, no estado de São Paulo, a cada 100 mil habitantes 17,7 morreram em decorrência da violência no trânsito, segundo o Mapa da Violência 2013, feito pelo Centro de Estudos Latino Americanos – Cabela. Sendo uma grande metrópole, onde as pessoas têm pouco tempo para se locomover de uma extremidade da cidade para a outra, além da cobrança natural das empresas, as metas, o cumprimento de prazos, é muito comum que motoristas dirijam falando ao telefone, comendo e, no caso das mulheres, até se maquiando. É o estilo multitarefas adotado pelo paulistano que, muitas vezes, pode prejudicar não só a si próprio, levando risco de morte ou grave acidente a demais usuários das vias da cidade. Segundo a lei de trânsito, até fumar enquanto conduz o veículo não é permitido. “A atenção no volante deve ser sempre dobrada. Além dos riscos já conhecidos, que são as nossas próprias vias, o ato de comer, beber, fumar, telefonar, distrair com crianças, manter animais soltos no veiculo, por exemplo, é ainda mais perigoso. E, apesar de termos leis que proíbem tudo isso, é cada vez mais comum vermos pessoas cometendo essas imprudências no trânsito”, comenta o diretor de ensino da autoescola Bigliazzi, Otoniel Duarte, 65. Segundo Duarte, há quatro atributos básicos que contribuem para um trânsito mais pacífico. Consciência, calma, respeito e atenção. “Acredito que se esses quatro pilares forem trabalhados constantemente e corretamente, conseguimos ter um transito mais seguro”, defende o profissional. Um exemplo de que a falta de atenção e a imprudência no trânsito pode causar acidentes é a experiência passada pelo técnico em mecatrônica Samuel Júnior, 24, que, nos seis anos de habilitação, colidiu quatro vezes com outros veículos. Por sorte, nenhuma foi grave. Numa das ocasiões, logo que arrancou com o veículo após parar no farol vermelho numa avenida movimentada abaixou a cabeça para checar o celular. Ao retomar o olhar para frente não houve tempo de frear e acabou batendo na traseira de outro veículo. “Assumi todo o prejuízo, porque eu estava errado. Mas poderia ter evitado o acidente se não tivesse mexido no celular enquanto estava no volante, como fazem a maioria dos motoristas”, conta Júnior. Respeitadas as devidas características, utilizar o celular enquanto dirigi pode ser comparado com a embriaguez ao volante, segundo um estudo feito pela Universidade Carnegie Mellon, de Pittsburg, no estado da Pensilvânia, Estados Unidos. Os pesquisadores apontam que falar ao telefone enquanto dirigi pode reduzir em 37% a concentração do condutor. Outra situação que pode levar à desatenção e causar acidentes são os congestionamentos. Neste caso, como o veículo anda e para muitas vezes num curto espaço de tempo, o motorista faz movimentos repetitivos e, num pequeno descuido, pode colidir com o veículo da frente, que freia numa das paradas do fluxo. Foi o caso do jornalista Raphael Picolo, 25, que bateu na traseira de um carro na Rua Juventus, no bairro da Mooca. “Estava distraído no trânsito. Aquele anda e para. De repente o carro da frente parou e eu bati. A culpa foi minha. O mínimo de atenção seria suficiente. Acredito que o cansaço do trânsito acaba nos aborrecendo e os cuidados básicos acabam não sendo tomados”, diz Picolo. Apesar do susto e do prejuízo financeiro, ninguém se machucou e os veículos foram consertados em uma semana. Um ponto crítico na cidade de São Paulo é a relação moto x carro. Os motociclistas, sempre apressados, utilizam os corredores – espaço entre as faixas – para se adiantarem no trânsito, o que exige ainda mais atenção dos motoristas. Um simples descuido ao trocar de faixa pode causar um acidente grave. Avenidas como Marginal Tietê e Radial Leste, por exemplo, são cenários de muitos acidentes envolvendo carros e motos todos os dias. Para minimizar essa situação e tornar o convívio mais ameno entre motociclistas e motoristas, o diretor de ensino da autoescola Bigliazzi, Otoniel Duarte, ressalta a importância do bom senso dos condutores. “Trabalhando a consciência, a calma, o respeito e a atenção é possível minimizar essa rivalidade e ter um trânsito mais seguro para motoqueiros e motoristas”, comenta. As bicicletas têm sido cada vez mais inseridas como transporte urbano. Ciclovias e ciclofaixas foram criadas pela prefeitura de São Paulo a fim de ajudar aqueles que utilizam a bike como meio de locomoção. Muitos motoristas e motociclistas, porém, ainda não se acostumaram e nem se conscientizaram que as bicicletas não são apenas para o lazer e esporte. Nos últimos anos muitos acidentes graves envolvendo ciclistas aconteceram na cidade, como é o caso do ocorrido em 2013 com David Santos Souza, que perdeu o braço direito após ser atropelado na Avenida Paulista. Um veículo o atingiu em alta velocidade e o condutor, como agravante, estava sob efeito de álcool. O analista de suporte José Albério, 25, começou a pedalar para sair do sedentarismo e hoje utiliza a bicicleta como meio de transporte para o trabalho. De metrô ele gastaria 30 minutos. De bike, 10. Para ele, entender que a bicicleta é mais uma forma de locomoção é o primeiro passo para uma relação menos violenta entre motoristas e ciclistas. “O principal é se conscientizar que a bicicleta é um meio de transporte como qualquer outro e que os ciclistas também têm o direito de estar ali, ocupando uma faixa na via. Respeitar isso é fundamental. Piscar farol, buzinar, tirar as famosas ‘finas educativas’ ao ultrapassar um ciclista deixa evidente que muitos motoristas ainda pensam que as ruas são apenas dos carros, o que não é verdade”, comenta Albério. Otoniel Duarte, da autoescola Bigliazzi, relembra que, segundo o CTB – Código de Trânsito Brasileiro, a distância segura que o motorista deve manter do ciclista é de 1,5. “A distância segura é o principal item que deve ser levado em consideração quando os ciclistas estiverem na pista”, finaliza Duarte. 

Por Arilton Batista


 

Voltar