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Do campo ao ônibus, amizade se mostra essencial para a saúde física e mental
por Arilton Batista



“Quero chorar o seu choro. Quero sorrir seu sorriso. Valeu por você existir, amigo”. Esse trecho da música A Amizade, do grupo de samba Fundo de Quintal, talvez traduza o que as pessoas esperam da amizade e qual a importância dada a esse sentimento. A começar pela saúde física, diversos estudos realizados ao redor do planeta apontam que pessoas que possuem um amplo círculo social e fortes laços de amizade tendem a se recuperar melhor de doenças de alto risco e possuem um sistema imunológico mais resistente em comparação com quem tem um número limitado de relacionamentos. Uma pesquisa realizada pela Universidade de Brigham Young, nos Estados Unidos, por exemplo, apontou que não ter amigos é tão prejudicial à saúde que se pode comparar com os malefícios do consumo de 15 cigarros por dia ou até mesmo com um quadro de alcoolismo.



Já no campo psicológico, a ausência de amizades pode acarretar o surgimento da sensação de não se enquadrar em nenhum grupo da sociedade, podendo causar a diminuição da autoestima e levar o indivíduo a ter complicações como ansiedade e depressão. Ou seja, além de ser consensualmente agradável e gostoso manter relações de amizade, é também de suma importância para a boa administração da saúde. E, se isso pode ser considerado uma recomendação profissional, tem uma turma do CEP – Clube Esportivo da Penha que segue isso a rigor. No quesito amizade eles batem um bolão, literalmente. O grupo de amigos, que hoje conta com mais de 40 integrantes, começou e se mantém em torno do futebol praticado aos domingos num dos campos do clube. O Racha do Escocês, começou há 25 anos pela inciativa de alguns amigos, entre eles ainda fazem parte, Carlinhos, Luis Antonio e Maurício Chilloti.

Ao passar do tempo e com a fama que a turma conquistou dentro do CEP por conta do entrosamento e o espírito acolhedor que possuem, outras pessoas se uniram ao grupo. Dentre eles, Edu, Sérgio Teles, João Batista, Luís Carlos, Marcelo, Berô, Thisca, Pudim, Junior, Helio, Tio João, Sierra, Carlão, Isaias, Mario, Saba, e muitos outros. Além da densidade desse grupo de amigos, demonstrada pela força da amizade que existe ente eles, outro ponto que pode ser considerado um diferencial é o fato de as famílias terem se integrado. Ou seja, além dos homens que jogam futebol uma vez por semana, as esposas passaram a frequentar o ambiente, fizeram amizade entre elas e largaram totalmente o posto de coadjuvantes. Os filhos, que antes iam apenas para ver os jogos, passaram a participar da brincadeira. “Tem os filhos do Maurício e do Edu, que já jogam. Para nós é uma grata satisfação poder dar continuidade a um grupo de amigos, em que as mulheres hoje também têm uma amizade e conhecem a cada uma, sabem o dia de aniversário de cada uma, compartilham ambientes externos”, conta João Batista.

Entre as esposas, Telma, Claudia, Nice, Solange, Valeria, Helena, Sonia, Odete, Nanci, Rose, Teresinha, Andreia, Elaine, Ednea, Rita, Silmara, Luiza, Daurea, Clarice, e outras mais que desfrutam e tiram proveito de algo que naturalmente seria apenas um entretenimento para os maridos, o futebol. Logo no primeiro ano em atividade a turma, que tem fama de festeira, já organizou um evento que pudesse englobar as famílias. Reuniram-se todos no restaurante Nova Central, que ficava no centro da Penha. “Depois disso veio Festa Junina e outras coisas. No Carnaval a gente fez o futebol com os homens vestidos de mulher. Fizemos churrascos. Já organizamos festa à fantasia. Já fomos para quatro cruzeiros marítimos juntos, com as famílias. O nosso grupo sempre foi bastante festeiro. E foi aí que trouxeram a gente para a diretoria do clube. Foi visto em nós esse espírito de festa e união”, diz Carlinhos.

Uma mostra da união desse grupo está na grande convivência deles, que a cada dois meses fazem uma festa para comemorar os aniversariantes do período – jogadores e esposas –, além de se reunirem nas festas dos filhos e eventos familiares de cada um.

Todos no grupo, apesar de divergirem em alguns pensamentos e opiniões – o que é comum –, têm a mesma consciência sobre a importância e o significado da amizade construída entre eles e o que esse envolvimento representa. “A amizade é bonita, é fiel. No futebol são pelo menos 11 possibilidades de fazer amigos. E amigo não é aquele que você vê todo dia, é o que você não esquece nunca”, ressalta Berô. Carlinhos reconhece que, apesar das adversidades naturais existentes dentro de grandes círculos de amizade, o pessoal do futebol de domingo do CEP sabe lidar bem com essas situações. “O dinheiro faz os homens ricos. A humildade faz os homens sábios. Eu sempre falo que a gente tem distinções tremendas aqui. Cada um tem uma maneira de pensar, tem um comportamento, tem uma ideia. E a gente, graças a Deus, consegue lidar com isso com muita humildade e respeito”, comenta.

Outro exemplo que ilustra bem a força da amizade é a história de um grupo formado dentro de uma linha de ônibus de São Paulo. Cansada e saturada de pegar o metrô na Linha 3 - Vermelha, a chefe administrativo Telma Aguiar, 43, mudou o trajeto para o trabalho e passou a utilizar o Pq. Dom Pedro – Vila Nova Curuçá (2582-21) para descer no centro da cidade. Apesar de estranhar no início, pois havia um pessoal que não parava de conversar na parte frontal do veículo, ela foi se acostumando e não demorou muito para achar aquela situação interessante. “Aos poucos fui me acostumando e não demorou muito para achar graça deles. Quando dei por mim já estava fazendo parte da turma. Me sentia muito bem por estar ali, rindo deles e com eles. Não era um grupo normal. Quando alguém faltava era sentido por todos”, diz Telma.

Segundo ela, entre idas, vindas, entradas e saída de integrantes, nesses mais de quatro anos cerca de 40 pessoas já participaram da “Turma do Busão”, como foi carinhosamente apelidado pelo pessoal. Atualmente são 19 pessoas, sendo sete homens e 12 mulheres. Entres eles, Eduardo (motorista), Juscelino (cobrador), Fátima, Darci, Edmilson, Luciana, Carlos, José, Batista, Lu, Bruno, Gigi e outros. O vínculo entre esses passageiros-amigos foi tão grande que, após Telma tomar nota das datas de nascimento de cada um, ainda no começo da amizade, até comemorações de aniversário eles chegaram a promover dentro do coletivo. “Comemoramos o aniversário da líder desse grupo, que é a Rose. Foi um susto pra ela quando entrou no ônibus e viu um monte de bexiga no teto. Foi uma festa surpresa linda, com direito a parabéns de toda a galera, bolo, salgadinhos e presente. Ela se emocionou. Mas não precisamos de evento ou comemoração específica. Estarmos ali, reunidos, já é uma festa e a certeza de alegria para a gente”, comenta Telma.

Além de se relacionarem ali, dentro do ônibus, o pessoal do grupo também costuma se falar por telefone, pelas redes sociais e se reúnem e organizam eventos, como um Amigo Secreto feito no fim de 2013, um Chá Bar, os aniversários da Gigi e do Bruno e um chá em comemoração ao nascimento do filho da Lu, o pequeno Pietro. As viagens diárias no ônibus e os eventos organizados pelo grupo contribuíram para a formação de um casal de namorados que segue firme até hoje. “A gente diz que vai ter o casamento no busão”, brinca Telma, que complementa: “Não tenho ideia do tamanho da nossa amizade, se é que se pode dimensionar o tamanho de qualquer sentimento. Uma das minhas maiores alegrias é ver todo o pessoal brincando, rindo e fazendo os outros rirem. Sinceramente, isso não tem preço”.

Apesar de simbólico e possuir pouca popularidade no Brasil, o Dia do Amigo e o Dia Internacional da Amizade é comemorado em 20 de julho. É uma forma de saudar os laços da amizade e valorizar aqueles que queremos bem e consideramos amigos de verdade. Vale lembrar que a amizade é uma verdadeira troca, em que existe o interesse mútuo. Ou seja, é querer bem, dar conselhos, ouvir e compartilhar experiências pensando na evolução e no bem-estar do outro. Amigo é diferente de colega. Sendo assim, a música composta por Arlindo Cruz para o grupo Fundo de Quintal continua exemplificando bem essa condição. “[...] A amizade nem mesmo a força do tempo irá destruir [...]”.

 

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