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Uma Penha de muito rock-and-roll
por Arilton Batista

   
(À esquerda, flyer do Alternative. À direita convite do Electroshock datado de 29/08/2003)

Quem fala de rock também fala de Pompéia, Bixiga, Centro e, mais recentemente, de Rua Augusta, onde hoje se mantém abrasado movimento cultural na cidade de São Paulo. Só que, por mais que muitos não saibam ou simplesmente deixaram que o tempo apagasse de suas memórias, o bairro da Penha também já foi um polo importantíssimo de cultura, música e, principalmente, do cenário rock-and-roll alternativo na capital paulista. Penha de França já teve o que a grande maioria dos bairros descentralizados da cidade não teve: o movimento de pessoas, bandas, artistas, música, noite e, essencialmente, o fomento da cultura, no sentido de oferecer boas alternativas ao público. Eram muitas as opções. Todas disputando por cima em termos de qualidade e acolhimento aos frequentadores. As ruas do centro do bairro, entre os anos de 1990 e meados de 2000, eram recheadas de bares temáticos, casas de shows, baladas e até simples botecos que tocavam algum subgênero de rock.

Para destacar alguns dos mais consagrados espaços destinados ao rock que a Penha já possuiu, pode-se citar a primeira metade dos anos 1990, quando a rua Padre Benedito de Camargo foi cenário de casas como o Pirata Bar e Revolution, espaços que plantaram a força do rock na região. Pouco antes disso existiram, ainda nos anos de 1980, as casas noturnas Massa Rara e Show Business, que faziam sucesso com música eletrônica, baladinhas e também muito rock. Ainda nos anos 90 a cena gótica tomou conta da Penha, sendo manifestada principalmente nas baladas Arkham Asylum e Plastic Alternative Bar, que ficava na rua Capitão Avelino Carneiro, 359, e manteve atividades entre 1999 e 2000. No mesmo endereço funcionaram também a lendária Caverna dos Anjos, entre 1997 e 1998, que teve seu projeto iniciado com o samba antes de chegar ao rock alternativo, e, mais tarde, entre 2004 e 2010, a Ska Skate Rock – neste período aconteceu o chamado boom da cena emocore nacional, além do hardcore melódico. Muitas bandas desses segmentos deram seus primeiros passos na música se apresentando nos palcos da Ska.

Já no início dos anos 2000, pouco antes da abertura da Ska Skate Rock, surgiram duas casas de rock de diferentes estilos e segmentos. Enquanto, entre 2002 e 2003, a Electroshock Pub, localizado na rua Henrique de Sousa Queirós, oferecia rock dos anos 80 e bastante gótico, entre 2003 e 2004, na viela Manuel Dantas o Penha Rock Bar era espaço número um dos adeptos do punk rock.

Porém, para falarmos da mais importante casa de rock da Penha, que foi precursora das apresentações autorais ao vivo na região e que abriu as portas para incontáveis bandas extremamente relevantes dentro do cenário underground é preciso estacionar a memória frente ao número 401 da rua Padre João, onde esteve aberto, entre 1997 e 1999, o Alternative Vídeo Bar. Dentre os muitos motivos que levaram a casa de shows a se tornar referência estava o fato de não haver barreiras para os segmentos. Segundo Heuler Roberto Rocha, 40, idealizador do Alternative, chegou a ocorrer show com três bandas de estilos totalmente diferentes na mesma noite. Como naquela ocasião acontecera a explosão das bandas de hardcore e o público se envolvia muito mais nesse nicho, naturalmente as bandas que se destacaram dentro do Alternative Rock Bar foram as de HC. “Tive a oportunidade de ver bandas antigas em seu auge e bandas novas, que hoje estão por aí detonando e sobrevivendo do próprio trabalho. É imensurável descrever isso. Até hoje guardo alguns flyers, cartazes, revistas e jornais da época com reportagens sobre o bar. Toda aparelhagem que utilizava eu guardo comigo. Não tem valor de venda, eram os equipamentos que eu usava para ensaiar com as minhas bandas antes de abrir o bar”, relembra Heuler.

 
(À esquerda, flyer de evento no Império do Chopp ocorrido em 2006. À direita, shows na Ska Skate Rock)

Dentre os grupos que se apresentaram nos palcos do Alternative estão Autoramas, Hateen, CPM 22, Pitty (com a banda Inkoma), Pin Ups, Muzzarelas, Dominatrix, Paura, Gritando HC, Dance Of Days, Dead Fish, Laranja Mecânica, The Books on The Table, além das bandas vindas de fora, da Argentina, Uruguai, Estados Unidos, Alemanha. O espaço recebia frequentemente a visita de artistas já consagrados, como Fernanda Takai (Pato Fu), Rodolfo (ex-Raimundos), Bacalhau (Ultraje a Rigor), Supla e outros. Para o ex-dono do Alternative, a casa não só foi importante para o cenário roqueiro da região, como também influenciou outros projetos e conseguiu dar o tratamento devido aos músicos. “Tratamos as bandas de forma profissional, oferecendo aparelhagem boa, espaço bom, camarim e até cachês para algumas delas, o que na época era algo impossível em outros locais. Várias casas surgiram depois. Tenho certeza que o Alternative contribuiu muito para essa expansão. Até hoje em as pessoas falam comigo da importância e o quanto o bar foi relevante para as bandas e a cena roqueira”, comenta.

Robson, ou Robinho Causador – como é conhecido –, 40, era vocalista de uma banda chamada Causadores de Tumulto, além de penhense e frequentador de praticamente todos os espaços voltados para o rock na região. Para ele, a importância dessas casas de shows e bares foi além da oportunidade para novas bandas e de um ambiente novo para a população. “Esses espaços potencializaram a produção musical local, incentivaram muitas pessoas a trilharem os caminhos que a música possibilita, além de terem ajudado a colocar a Penha no mapa, atraindo para o bairro pessoas que jamais viriam até ele por qualquer outro motivo. Esse intercâmbio trouxe influências muito positivas”, ressalta Robinho.


(Flyer convidando para festa no Arkham)

Apesar de estar no Tatuapé, não tem como não citar a LedSlay como ícone do rock na região. Após 40 anos funcionando na Av. Celso Garcia, 5.765, a Led fechou as portas em agosto de 2011 e, desde então, passou a promover eventos esporádicos na cidade, como no Espaço Victory, na Penha, na News Club, da rua Augusta, e no Espaço SP, no Tatuapé. A principal característica da LedSlay é o fato de ter aberto espaço para bandas cover de grupos já consagrados e dos mais variados subgêneros do rock, como o classic, heavy metal, thrash metal, new metal, grunge, gothic, black metal, etc. “De certa forma a Led se tornou um templo, quase que uma lenda para pais contarem aos seus filhos. Sob influência da Led, outras casas noturnas abriram na região. Isso demonstra a força e o potencial do nome LedSlay na cena rock da Zona Leste. Ela ficou conhecida como a tradicional casa noturna de São Paulo, um reduto do rock de qualidade”, conta Bruno Rufinoni, 35, produtor musical da LedSlay. Grandes bandas internacionais já se apresentaram nos palcos na Led, como Grave Digger, Exodus, Gorgoroth, Cannibal Corpse e Candlemass.

Um grande entusiasta do movimento roqueiro na Penha foi Adriano Pacianotto, que, além de ter vivido e frequentado a maioria das casas de rock da região, foi proprietário do Electroshock Pub. Há vinte anos ele atua no ambiente cultural, promovendo bandas alternativas e eventos do segmento cultural. Julgando ser necessário o resgate de um maior movimento de arte e cultura na Penha, foi que criou o Q.G Produção Cultural, meio pelo qual assessora bandas de rock alternativo, promove eventos como saraus, exposições, bazares, shows e tudo que tenha envolvimento com arte, cultura e rock. “A Ska Skate Rock foi nosso último suspiro. E o rock tende a trazer outras artes. Você pode ter rock no teatro, na literatura e em outros lugares. Só que hoje não existe nenhuma casa na Penha que abra espaço para isso”, comenta Pacianotto, que defende a ideia de que a arte e a cultura podem trazer benefícios para muitos campos da sociedade, podendo promover, inclusive, a paz. “Você não muda o mundo se não mudar a sua rua, sua vizinhança e não começar pelo o que está em sua volta”, finaliza.

 

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