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Do modo clássico ao moderno, namoro funciona como teste para o casal
por Arilton Batista


Assim como ocorreu em outras esferas da sociedade, o namoro também passou por nítidas mudanças nos últimos anos. É comum ouvir de quem viveu as décadas de 1970 e 1980, por exemplo, que àquela época a maneira como se namorava era bem diferente da atual. Alguns arriscam dizer que era melhor, por parecer mais inocente que nos dias de hoje. As moças tinham hora certa para retornar para casa e os casais namoravam ao alcance dos olhos dos pais, quase sempre no sofá; o sexo só ocorria após o casamento; beijo na boca não acontecia no primeiro encontro. E mesmo em tempos não tão distantes sempre houve certo tabu com relação à liberdade e principalmente ao sexo. Tudo sempre ocorria de forma mais lenta. Já os casais atuais estão acostumados a dormirem um na casa do outro, viajarem juntos e, por consequência, fazem sexo mais cedo, sem a necessidade de estarem casados. A principal característica do namoro, mesmo com essas alterações, continua sendo a de experiência e teste de uma vida a dois.

Outra diferença entre o namoro de outras épocas com o atual é o fato da programação do casal para se encontrar. Noutros anos era quase certo que o homem, por exemplo, usasse a melhor roupa e estivesse com barba e cabelo aparados, para que assim encontrasse a namorada ou a pretendente passando uma boa impressão. A liberdade atual propõe que aspectos mais naturais do casal sejam expostos, como o cabelo desarrumado e a barba por fazer; o rosto inchado pela manhã e o uso de roupas menos formais. A psicóloga Cintia Panes, que atua há mais de dez anos com atendimento para crianças, adolescentes, adultos e é especialista em casal e família, explica que, apesar das mudanças no comportamento dos casais, a paixão e a força do sentimento não diminuíram e que as pessoas ainda são capazes de se desdobrarem para ver a felicidade de alguém amado. “Com o aumento da intimidade entre o casal já não é possível esconder o mau hálito ou os olhos inchados ao acordar, mas isso não exclui o desejo de agradar, conquistar ou seduzir o outro. Hoje temos mais liberdade, intimidade e convívio. Mas continuamos nos apaixonando como antes”, diz a profissional.

A estudante de psicologia Bruna Cardoso, 22, e o jornalista Vinícius Ribeiro, 26, namoram há um ano e seis meses e começaram o relacionamento numa balada de fim de ano da família – eles são primos distantes. O namoro veio dois meses após começarem a ficar, quando o jornalista, durante uma conversa despretensiosa sobre a relação, surpreendeu a estudante com o pedido oficial de namoro. Para ele, a convivência mais solta entre o casal não tem um caráter negativo no relacionamento, pois ajuda para que eles possam se conhecer de verdade. Como Bruna mora numa cidade a mais de 300 quilômetros de distância, ela acaba dormindo na casa do namorado quando vem visitá-lo. “Acho que isso contribui. Não adianta casar com uma pessoa sem conhecê-la. Desta forma, se algo não der muito certo o casal saberá antes de consumar o casamento”, define Ribeiro. Bruna concorda com Vinícius e complementa defendendo a ideia de que o casal que mostra as “partes e situações menos glamorosas deixa de alimentar a fantasia que a pessoa é perfeita”.

Além de ela dormir na casa dele quando vem para São Paulo, eles têm o hábito de viajar juntos, o que não era comum noutras épocas, principalmente antes do casamento. Para Bruna, viajar com Vinícius é como um exercício de conhecimento, pois há a oportunidade de conversarem de assuntos pouco rotineiros e aumentar a intimidade de ambos. “Sair um pouco da rotina propicia a oportunidade de conhecer melhor as qualidades, defeitos, os gostos, manias e planos do outro. Acredito que quanto mais o casal se conhece e enxergam-se compatíveis, maior é a chance de permanecerem juntos”, diz Cardoso.

Há um conceito de que os jovens casais vivem etapas do casamento sem estarem casados, já que passam o fim de semana inteiro juntos, dormem e viajam. Essa ideia, porém, segundo a psicóloga Cíntia Panes, tem mais a ver com pessoas que já moram sozinhas e recebem o (a) parceiro (a) em casa. “Na grande maioria dos casos percebemos uma mudança relacionada à forma de viver a sexualidade. As famílias estão cada vez mais permissivas para que um durma na casa do outro, viagem juntos, durmam fora e etc. Nesses casos, normalmente os pais que hospedam o casal também assumem os cuidados com o namorado ou namorada como se fosse mais um filho na casa. E o casal tem a oportunidade de viver a sexualidade e com mais intimidade sem as responsabilidades vindas com o casamento”, explica Panes.

Entre namoro e casamento, Valéria Albano, 47, e Francisco Zamora, 50, estão juntos há 31 anos. Quando se conheceram, na década de 1980, a sociedade vivia um momento de pós-repressão, propiciado pelo Regime Militar (1964-1985), e a juventude queria mostrar, digamos, tudo que ficou recluso durante os 21 anos de ditadura. Ou seja, já era um período de maior liberdade, apesar de o modelo de namoro ser diferente do adotado hoje em dia. Para Valéria, porém, apesar do estouro da liberdade naquele tempo, a maior diferença na forma de namorar está na exposição e no respeito. “O pessoal já tinha liberdade. Mas a gente respeitava mais os pais, não era tão escrachado como agora. Em todas as épocas sempre se deu um jeito para namorar, mas era mais escondido, mais discreto”, comenta Albano. Como os casais de outras décadas transavam, eminentemente, após o casamento ou tardavam mais que os casais de hoje para transar, havia certa pressão para que houvesse um entendimento sexual após o casamento. “As questões pós casamento rondavam a sexualidade. Atualmente quase nunca recebemos no consultório, por exemplo, casais com dificuldades sexuais marcadas pelo casamento. A sexualidade é um tema ainda bastante trazido, mas as queixas pouco fazem referência ao evento do casamento”, explica a psicóloga Cintia Panes.

O que pode ser considerado vantagem do namoro de hoje em comparação ao namoro de épocas passadas é que as pessoas estão mais livres para viverem a sexualidade, sem que sejam rebatidos pela sociedade. Essa liberdade, porém, deve estar alinhada com cautela, pois, segundo a Dra. Cintia Panes, algumas pessoas mais tradicionais, que escolhem preservar a virgindade, podem sofrer algum tipo pressão. “Precisamos ter alguns cuidados, pois parece que agora é praticamente obrigatório transar antes do casamento, e as pessoas também ficam sem direito de escolha.Devemos considerarmos que alguns casais podem decidir esperar a data tão sonhada”, diz Panes, que defende a ideia de que não dá para considerar que houve uma ocasião melhor para namorar. “Não podemos dizer que somos mais felizes hoje por transarmos durante o namoro ou o contrário.Esse não é um fator determinante para a garantia da tão sonhada felicidade conjugal”, explica a profissional.

Para a psicóloga, as pessoas parecem estar cada vez mais exigentes, intolerantes e acreditando piamente na existência de um ser humano perfeito com quem viverá para sempre. O que muitos não se dão conta é que a perfeição não existe e que ditados populares, como “encontrar a tampa da panela” e “metade da laranja”, são apenas expressões simbólicas. Todo relacionamento começa com uma grande paixão, que faz com que se idealize o (a) parceiro (a) como alguém sem defeitos e que combinam em tudo. Entretanto, com o passar do tempo e a convivência, a paixão diminui, as diferenças começam a aparecer e é aí onde os casais encontram dificuldades. “Todos nós podemos ser felizes na vida amorosa, mas precisamos saber que não é aquela felicidade absoluta dos contos de fadas. Aliás, por falar nos contos de fadas, você já parou para pensar no motivo de as histórias acabarem quando o casal se uni? Penso que é porque a partir daí existirão diferenças para serem resolvidas. E nós precisamos ter calma, tolerância, flexibilidade para administrar as questões que virão com a intimidade e convivência mais próxima”, finaliza a Dra. Cintia Panes.


 

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