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Redes sociais, um relacionamento enrolado com o ciúme
Mudança de conduta e diálogo são as armas contra o ciúme causado pelo Facebook
por Arilton Batista


“Fulano curtiu aquela sua foto. O que ele tá querendo, hem?”; “Sicrano comentou sua publicação porque tá a fim de você”; “Quem é aquele cara que vive curtindo suas fotos sozinha?”; “Por que aceitou o pedido de amizade daquela menina?”. Por mais que as pessoas tentem disfarçar ou negar, o ciúme é um sentimento presente na vida da maioria dos casais, sendo mais acentuado para alguns e mais moderado para outros, podendo ter variações de persistência e intensidade de acordo, por exemplo, com grau de insegurança de cada indivíduo. Para algumas pessoas, a sensação de ameaça de perda que o ciúme causa é, muitas vezes, potencializada por conta das redes sociais. Alguns ensaiam o discurso de que o Facebook, por exemplo, é um destruidor de relacionamentos. O mofado Orkut, quando ainda era moda, também foi apedrejado por muitos casais com a justificativa de que ele era o vilão dos namoros. Especialistas apontam, porém, que o melhor caminho para evitar prejuízo no relacionamento por causa da internet é a conversa direta e o estabelecimento de alguns preceitos de utilização das redes sociais pelo casal.

Psicóloga clínica, analista do comportamento, especialista em terapia comportamental e proprietária da clínica Vivencialle, a Dra. Letícia Guedes ressalta que as redes sociais são ótimas ferramentas para a comunicação entre amigos e familiares que residem em outras cidades e estados, e que são as mulheres o público potencial que sentem-se incomodadas com os sites de relacionamento. “O importante para o casal é que exista confiança mutua e respeito na hora de utiliza-las [redes sociais]. Para isso, nada melhor do que um diálogo franco e o estabelecimento de acordos e regras pelo casal. O uso dessas redes vem se tornando a cada dia algo necessário, e isso deve ser encarado sem desconfiança. A maioria das mulheres são as que mais cobram, que mais investigam sobre o uso”, diz.

Situação muito comum no universo virtual é que, antes de assumirem um relacionamento sério, as pessoas se sentem mais à vontade na internet, comentando publicações, conversando e trocando mensagens com contatos do sexo oposto, recebendo curtidas, comentários e, como consequência dessa liberdade, paqueram e são paqueras. Afinal de contas, não há a quem prestar contas ou zelar pela imagem ou moral. Mudar esse comportamento quando se inicia um namoro pode não ser algo fácil e confortável, mas, para a Dra. Letícia Guedes, é uma ação importante para evitar desconfortos entre o casal. “Se estabelecer um relacionamento sério, é necessário se resguardar de algumas coisas. Por exemplo, se você não deseja que alguém comente sua foto demonstrando determinado interesse, tente não se expor e publicar conteúdos que favoreçam esse tipo de situação. É importante se resguardar e zelar pelo seu cônjuge, se este for o desejo de ambos”, comenta Guedes.

Mesmo com o cuidado de não se expor demais na grande rede, para não dar margem a comentários de sentido duplo ou que desrespeitem o casal, não é garantido o drible nos xavequeiros e xavequeiras do Facebook. E o fato de estar do outro lado da tela do monitor pode ajudar a desinibir quem tem a intenção de se aproximar de gente comprometida. É comum a dúvida quanto como agir quando identificar que alguém está destoando uma conversa no chat ou comentando fotos e publicações como se estivesse investindo em algo. O mais indicado nessas situações, segundo a psicóloga Letícia Guedes, é deixar bem claro que se é comprometido e não dar vazão para as investidas da pessoa. Se houver insistência, excluir o contato da rede pode ser uma alternativa. Para a psicóloga, é importante saber se o(a) companheiro(a) tem interesse de saber desses fatos e, se necessário, expor a situação a ele(a). Mas ela alerta também sobre os casais que compartilham entre si as senhas de acesso ao Facebook. “Acredito que vigiar o parceiro não seja o mais apropriado. Ao invés de gastar tempo e energia verificando cada passo do seu cônjuge, é mais adequado confiar e investir em sua relação, tentando sempre melhorá-la e fazê-la cada vez mais harmônica e intima”, orienta.

A estudante e estagiária de jornalismo Georgia Aliperti, 21, conta que viveu uma situação com o ex-namorado que hoje lhe serve como exemplo. Nos primeiros três meses de namoro ela nunca havia se preocupado com o que o parceiro fazia e com quem se relacionava no Facebook. Um dia, porém, ele esqueceu os dados de acesso gravados no notebook dela, que acreditou não haver problemas em acessar e verificar o que acontecia por lá. O resultado não foi dos melhores. Segundo a estudante, ela encontrou diversas mensagens insinuantes, que o namorado justificou como sendo apenas brincadeiras, mas que prejudicaram e muito o relacionamento entre eles. “Hoje percebo que eu era insegura, e ele não era confiável. Se a pessoa for confiável, não há motivos para sentir insegurança. Às vezes queremos tanto ver problema onde não tem, que acabamos criando um problema de verdade. É melhor relaxar e ser feliz”, diz.

Gerogia acredita que o fato de ela ter o acesso ao perfil do ex-namorado não interferiu na situação em si e não culminou com o término do relacionamento. Para a futura jornalista, o que mais prejudicou em tudo isso foi a conduta do parceiro, que não transmita segurança e mantinha conversas “insinuantes” com outras garotas. “Doce ilusão a minha de achar que, por eu controlar, ele não mandaria mais nada, agiria correto comigo. Várias outras vezes eu peguei mentiras e mensagens. O erro não estava em ele ter Facebook, e, sim, em não me respeitar. Se a pessoa com quem está não é confiável e não te respeita, você não deveria estar com ela”, comenta. Aliperti diz que se deu conta do erro que cometeu somente com o fim do relacionamento e garante não cometê-lo novamente. “A privacidade de cada um deve ser respeitada, e se você escolheu estar com a pessoa, é porque confia nela. Ter a senha não vai definir o caráter. Perder minha paz? Nunca mais!”, ressalta.

Apesar de ser um método criticado por muita gente, que acredita ser uma atitude brega, antiquada ou ultrapassada, criar um perfil duplo para o casal no Facebook é uma saída para evitar os xavecos indesejados, comentários degradáveis e possíveis assédios, deixando muito claro a todos os contatos que aquela conta, à partir de então, pertence a duas pessoas que namoram. A psicóloga Dra. Juliana Mezzalira, que atua na área de gestão de pessoas e coachlife, defende a ideia de que ter o acesso conjunto ao Facebook não necessariamente representa insegurança. “A vida do casal vai muito além das redes sociais. E, sendo uma relação séria, em que ambos são apaixonados e possuem a vontade de expor este amor, não seria insegurança. E, sim, o anseio de compartilhar a felicidade do relacionamento”, diz.

Segundo Mezzalira, não existe uma maneira ideal de comportamento para os casais dentro das redes sociais, mas é essencial que se leve em consideração que aquele site pode provocar uma exposição a nível mundial, e que deve-se refletir bem sobre as publicações e fotos, analisando as possíveis consequências a curto, médio e longo prazo; não ignorar a possibilidade de crimes digitais. “Sempre a melhor maneira de se resolver esse conflito por causa do ciúme na internet é na base da conversa, para entender o que está causando o atrito. Não existe uma receita do que deve ser seguido, mas o ideal é sempre respeitar a opinião e o relacionamento. Por isso, o casal deve ter e chegar a comum acordo”, finaliza a Dra. Juliana Mezzalira.


 

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