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Craques fora de campo, mães ajudam filhos na realização do sonho
por Arilton Batista



Quinta-feira à noite, 18h, céu aberto com estrelas e o calor é agradável, apesar da enorme quantidade de pernilongos que rodeiam os arbustos a cerca de cinco metros além da linha lateral do campo de grama sintética. Ao lado do alambrado, um grupo de aproximadamente quatro mulheres e um homem. Todos conversam baixo, com semblante confortável. Dentro do campo, no círculo central, um grupo de aproximadamente 25 meninos, que certamente não tinham mais de 13 anos. Todos sentados. Entre eles, estavam João Pedro de Santana Oliveira, 10, filho da auxiliar administrativa Nadir Santana Santos, Caio Petinatti, 12, e Matheus Petinatti, 8, filhos da produtora de eventos Cinthia Petinatti. Esse é o cenário do campo principal do CEP – Clube Esportivo da Penha, onde o professor Thiago Laurindo ensina futebol de campo.

O filho de Nadir Santana, João Pedro, que treina há dois anos, atualmente é federado no futsal do CEP e está treinando no futebol de campo após indicação do próprio professor Thiago, que percebeu talento no pequeno e fez a sugestão. Desde que o filho entrou nessa rotina, Nadir abraçou a causa e segue firme em busca da realização do sonho de João Pedro. Para ela, a mãe exerce papel fundamental nesse processo. “A mãe tem que apoiar e não deixar que ele seja influenciado. Tem que acompanhar, orientar e fazer com que ele não tire os pés do chão, não deixe de ser humilde”, comenta a mãe. O marido dela, pai de João, costuma acompanhar as atividades do filho nos fins de semana, quando não está trabalhando. O fato de ter de conviver num universo ainda eminentemente masculino não incomoda Nadir, que conta já ter se acostumado com a situação e que até se sente apoiada com a presença de outras mães nos treinamentos e nos jogos. “É um ambiente que tem muita família, com pai e mãe juntos. Então, a gente acaba criando um vínculo de amizade. Eu nunca me senti inibida com isso. Pelo contrário, a gente se apoia muito”, diz.

Há quem acreditam que a vida de atleta é moleza. A carreira de jogador de futebol é mais curta que dos demais profissionais, porém, é iniciada mais cedo também. A rotina se baseia nas atividades escolares, de realização de tarefas, ir para a escola, estudar para provas e ir, e voltar aos treinos e participar dos jogos – geralmente nos fins de semana. Ou seja, é corrido e requer esforço e dedicação, praticamente como um adulto com as tarefas do trabalho. “É difícil, porque a rotina de treinos é pesada. E tem que conciliar com a escola. A gente acaba deixando de ter vida social. Às vezes eu levo o nome de tratante, porque combino alguma coisa com a família e acabo não conseguindo ir por conta do futebol”, conta com bom humor a mãe Nadir Santana, que diz acreditar que o filho seja merecedor da realização do sonho. “Se ele conseguir ser jogador vai ser muito merecido, e eu estarei do lado dele para aplaudir. Vai ser a realização de um sonho”, comenta.

Realidade semelhante é a da Cinthia Petinatti. Com uma diferença: no caso dela são dois filhos. O marido, que é bancário e trabalha longe de casa, acompanha os jogos dos filhos Caio e Matheus nos fins de semana. Já durante a semana, nos treinos, quem corre atrás é a mãe, que se diz bastante habituada com a situação e que nunca se incomodou em ter de fazer isso pelo bem estar dos filhos. “Muitas vezes você acaba estando mais presente com a turma do futebol do que com a própria família, que até chega a cobrar da gente. Eu sinto que antes havia muito mais pais nesse meio. Hoje tem mais mães”, diz Petinatti, que atualmente não está atuando no cargo de produtora de eventos para manter a atenção exclusivamente aos pequenos atletas. O filho Caio, o mais velho, com 12 anos, foi “descoberto” na escola e convidado para treinar em outros clubes antes de chegar ao Clube Esportivo da Penha. Já Matheus, o mais novo, com 6 anos, batia bola fora de campo enquanto o irmão treinava. Foi visto e convidado a jogar pela Portuguesa, antes de ir para o Palmeiras, onde está hoje, e começar pelo CEP.

Sobre a relação dos estudos com o futebol, Cinthia conta que tenta equilibrar as partes, mesmo tendo como prioridade o colégio. Como os clubes – tanto Palmeiras quanto o CEP – contam de certa forma com os atletas nos treinos e em jogos, para Cinthia não seria responsável deixar de levá-los como uma forma de punição caso não estejam bem com as notas, por exemplo. “O técnico e o clube contam com eles em determinado treino, em determinado jogo. A gente tira videogame, passeio com os amigos, festinha de escola; é do futebol para casa, da casa para o futebol, porque tem essa responsabilidade”, explica Cinthia, ressaltando ainda que existe um bom relacionamento com os clubes e com os técnicos nesse sentido. “Sempre se dá um jeitinho de não afetar os estudos”, diz.

Sobre a importância do papel da mãe para a realização do sonho dos filhos, Cinthia diz ser fundamental principalmente para que eles tenham referência do que é certo e errado, além de colocar os pés deles no chão, no sentido de compreenderem que alcançar a realidade de jogadores como Neymar, por exemplo, é muito difícil e acontece para poucos no mundo. “Eles dizem que é a realização de um sonho e precisam ter esse afago de mãe. Porque não é só divertido. Eles sofrem bastante. Cada não que recebem é chorado, cada jogo que perde é triste. Se não tem o pai ou a mãe ali do lado para apoiar, eles desmontam, como qualquer ser humano” comenta. Contudo, se o objetivo dos meninos for alcançado e for satisfatório para eles, evidentemente que a mãe se sentirá também realizada. Cinthia Petinatti define isso como “missão cumprida”. “A gente deixa muito sonho nosso para correr atrás do deles. Então, se o deles der certo, não importa tudo que eu abandonei. Eu vou me sentir muito realizada, mas, é claro, desde que seja uma situação confortável para eles. Do contrário, eu sou a primeira a dizer para largarmos o barco. Tem que ser bom para eles”, complementa.

Em alta no futsal, Felipinho sempre tabelou bem com a mãe

A habilidade de Felipe Costa, 24, o Felipinho, sempre foi de impressionar. Dos campeonatos de futebol organizados pelo condomínio onde morava aos torneios da escola, o destaque era certo. Mesmo com uma estatura baixa, corpo franzino e muitas vezes com idade inferior a dos demais garotos, ele não se intimidava e quase sempre se consagrava artilheiro das competições que disputava. O talento era evidente. Era claro aos olhos de quem entende minimamente de futebol. E esse dom foi logo percebido pelos pais do garoto, que foi incentivado tanto para o futebol como para a prática de outros esportes. O futebol, porém, sempre foi sua preferência. Com passagens por clubes como Hebraica, A.D Wimpro, Corinthians e São Paulo, hoje Felipinho atua como pivô pelo Brasil Kirin, de Sorocaba (SP), ao lado do consagrado ala Falcão, do goleiro Tiago, do fixo Ricardinho, entre outros. “É muito bom estar ao lado desses feras, aprender e crescer junto com eles no dia a dia. Se Deus quiser iremos trabalhar para conquistar muitos títulos juntos”, diz o atleta.

A mãe de Felipinho, Hilma Silva Oliveira, 49, hoje é aposentada. Quando o filho começou nas atividades do futebol, com 6 anos, treinando pelo Clube de Regatas Tietê, ela ainda trabalhava e, mesmo assim, ao lado do marido, sempre esteve presente nas idas e vindas aos treinos e jogos, além administrar as demais atividades, como a frequência e as atividades da escola. Prova do empenho que Hilma sempre teve para ajudar Felipinho está na primeira peneira realizada por ele: ela quem foi atrás para agendar. “Meu pai foi e é o cara mais presente em todos os sentidos, até hoje. Se vou jogar com os amigos, ele vai junto. Agora, minha mãe é a grande responsável. Ela que sempre me levou aos testes e peneiras. Ela que ligava para os clubes para saber de peneiras”, conta Felipe.

Quando fez testes no São Paulo Futebol Clube [campo], no Morumbi, quem o levava era a mãe. O treino começava às 8h e, para conseguir chegar no horário, tinha de sair de casa às 5h30. As atividades se encerravam às 10h. Como ele tinha de estar na escola às 11h30, tudo era muito corrido. A mãe trabalhava meio período e acabava chegando quase sempre no limite do horário na empresa. “Já saia direto do treino para o ônibus. E fazia tudo lá. Me trocava no fundo do ônibus. Minha mãe fazia a cabaninha para eu colocar uniforme e me dava comida”, relembra Felipinho, que complementa brincando: “E ainda dava para ficar cheiroso”.

Hilma Silva nunca mediu esforços para, junto com o marido e pai de Felipe Costa, fazer com que o filho realizasse um grande sonho. Para ela, o apoio da mãe e da família é essencial para o crescimento moral e profissional do filho, além de proporcionar mais segurança e tranquilidade nas tomadas de decisões. “Tudo que fiz eu faria novamente ou até melhor. Isso só me enche de orgulho por ele estar realizando seus sonhos e objetivos. Acima de tudo eu agradeço a Deus por ter me dado um filho tão maravilhoso que amo de paixão”, finaliza a mãe do jogador.


 

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