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Escolha do ídolo pode estar ligada à formação da identidade
Pessoas com lacunas emocionais e adolescentes são os perfis predispostos ao papel de fã. Segundo psicóloga, o risco só está no fanatismo
por Arilton Batista

Ver jovens colecionando fotos e informações de artistas em pasta catálogo – aquelas com folhas de plástico transparente – não é mais cena tão comum nos tempo de internet veloz, Facebook, Twitter, blogs e celulares potentes. Entretanto, apesar das mudanças de hábito, a relação entre fãs e ídolos nunca perdeu força. Pelo contrário, a ascensão das novas tecnologias promove o estreitamento do elo entre o anônimo e o famoso. Todo mundo já teve um ídolo, seja ele um artista de novela, um atleta, um cantor, um poeta, escritor, dançarino, líder político. Segundo especialistas, se dizer fã de uma figura pública é natural. É como escolher uma referência. Como forma de homenagear, prestigiar e estar de certa forma próximo àquele artista, muita gente se veste de forma parecida com a dele, coloca pôster na parede e usa assessórios que remetem àquela figura.

Os adolescentes, justamente por terem acabado de sair da fase infantil e estarem em busca de uma identidade, que, quase sempre, forma-se através do grupo de amigos e também com a escolha de um ídolo, são suscetíveis ao papel de fã. Neste caso, a adoração pelo ídolo se dá por conta de fatores apresentados pelo ele que os jovens almejam momentaneamente, como a independência e a rebeldia, por exemplo. Segundo a psicóloga clínica Sandra Monice, que é especializada em saúde mental e transtornos psiquiátricos, o adolescente sente-se onipotente por conta das alterações hormonais e, por isso, alguns personagens se encaixam perfeitamente como ídolos. “A adolescência é uma época em que refutamos nossos modelos parentais e estamos à procura da nossa própria identidade. Ironicamente é quando estamos mais sujeitos a incorporar modelos, geralmente transgressores e idealizados, portadores de uma imagem e comportamento que, na cabeça do fã, os transforma em deuses ou demônios, portadores de poderes e possuidores de uma vida repleta de prazeres. Ou seja, alguém que está acima da sociedade e suas leis”, explica Monice.

Fã do cantor Nando Reis desde 2007, o técnico em informática e estudante de direito Lucas Teixeira, 21, é um dos administradores do Fã Clube Oficial Nando Reis. Lucas conta que o fã-clube começou através do Orkut em 2009, por meio de uma comunidade com aproximadamente 120 mil membros. Em 2010, com a ideia de centralizar todas as informações referentes ao cantor, foi criado o site fcnandoreis.com.br, além da página no Facebook, que conta com mais de 12 mil integrantes. A relação de fã e ídolo entre Lucas e Nando começou quando o estudante foi pela primeira vez a um show do cantor. Como gostou muito da apresentação, começou a pesquisar mais sobre as letras do ex-Titãs e a ouvir às músicas mais antigas. Isso o fez acreditar que cada canção do Nando Reis é feita “sob medida” para cada momento e sentimento. “A energia que ele transmite quando está nos palcos é indescritível. Acho que tanto para mim quanto para ele. É uma emoção muito forte que toca no coração das pessoas. Nando representa muitas vezes a trilha sonora de alguns momentos da minha vida”, diz Teixeira.

A maioria dos fãs tem o desejo de conhecer pessoalmente seu ídolo, para poder abraçá-lo e dizer tudo que sempre teve vontade. Mas nem todos têm essa oportunidade. Lucas, porém, já esteve mais de uma vez ao lado do ídolo Nando Reis. A primeira delas foi em 2009 num show ocorrido em São Paulo, no HSBC Brasil. De tão nervoso, não conseguiu dizer muitas coisas. Apenas agradeceu e disse que havia esperado tanto por aquele momento. E o Nando Reis retribuiu o agradecimento e o abraço. “Ele é um poeta que consegue mostrar sua essência através da música. Entra em sintonia com os fãs quando está em cima do palco”, comenta. Morador de São Paulo, Lucas já foi a shows do Nando em cidades do interior e no litoral paulista. Sua próxima parada será no Rio de Janeiro, no espaço Disco Voador.

Um dos fã-clubes do cantor Diogo Nogueira também surgiu através das redes sociais. Em 2009 a advogada Léia Teresa, 49, criou uma comunidade e um perfil no Orkut para assessorar os fãs do músico, o que gerou uma migração, em 2011, para o Facebook, onde hoje possui mais de 8 mil membros. O carinho pelo artista aconteceu após assistir a uma apresentação dele no programa Ensaio, da TV Cultura, em 2008. Léia conta que sua irmã, que faleceu vitimada por um câncer, sempre a incentivou a sair e gastar mais tempo e dinheiro com ela mesma. Foi aí que procurou por um show do Diogo para ir, mesmo sem conhecer direito o trabalho dele.

O primeiro contato dela com Diogo não foi dos melhores. Num show realizado no HSBC Brasil, em São Paulo, Léia chegou mais cedo e conseguiu acesso ao camarim. A gafe veio quando ela descobriu que o nome dele era Diogo, e não Diego. Ele a corrigiu e passou a ser chamado pelo nome correto. Como esse primeiro encontro com o cantor não foi como o esperado, Léia nem considera como a “primeira vez” que esteve com ele. Para ela, a paixão por Diogo Nogueira começou mesmo em 2009, quando mais uma vez ela pode conversar com ele e dar de presente uma corrente com um crucifixo, que substituiu o assessório dourado com a letra D que estava no pescoço dele. “Desde então virei fã incondicional da pessoa linda que ele é”, diz a advogada.

Dentre os esforços feitos por Léia para ver Diogo Nogueira estão diversas viagens bate-volta para o Rio de Janeiro e muitas outras para cidades do interior de São Paulo, além da mais distante delas: Belo Horizonte, MG. “Para mim, o Diogo, em sua simplicidade, representa esperança no ser humano. Em sua humildade, mostra que ele não é uma estrela, mas, sim, um astro como o sol, que brilha para aquecer a todos”, comenta a fã.

História semelhante às de Lucas e Léia é a da Bárbara Farra Rodrigues, 24, profissional de propaganda e marketing. Ela é fã da cantora canadense Avril Lavigne desde 2002, quando viu pela primeira vez o videoclipe Complicated passando no programa Top 20, da extinta MTV Brasil. O fã-clube Alavigne.com.br foi criado naquele mesmo ano e hoje conta com 130 mil membros no fórum. Dentre os quatro administradores, Bárbara é um das responsáveis em São Paulo, ao lado de Monique Claro. Em virtude de Avril não residir no Brasil, as dificuldades de contato com ela são naturalmente maiores, quando comparadas com as dos fãs de artistas brasileiros. Bárbara esteve nos três shows realizados por Avril no Brasil, sendo um no ano de 2005, em São Paulo, e dois em 2011, também em São Paulo. Na época em que começou a se interessar pela artista norte-americana a internet não era tão popular como hoje, que, para ouvir ou assistir a um clipe, basta acessar o YouTube, por exemplo. “Percebi realmente que era fã quando comecei a torcer para ela se manter nas paradas, e eu poder vê-la todos os dias na MTV”, relembra.

Para Bárbara, estar longe do fã e ter maior dificuldade para ver seus shows pode se tornar um atrativo maior quando a oportunidade surge, já que a expectativa é maior e não se sabe quando haverá uma nova chance de encontrá-lo. Segundo ela, a admiração pela Avril Lavigne não se limita apenas à voz e à música, mas também leva em conta questões de estilo e atitude extrapalco. “Gosto não só de suas ótimas músicas, mas também admiro a pessoas que ela é; que se tornou. Não deixou que a fama e dinheiro subissem à cabeça e mudasse quem ela é. Avril tem uma fundação que cuida de crianças com necessidades especiais e sempre faz eventos para arrecadar fundos. A pergunta é: tem como não gostar dessa loirinha?”, comenta.

Segundo a psicóloga Sandra Monice, a admiração por alguma figura pública, como artistas, atletas, atores e atrizes é extremamente normal e até saudável, desde que ocorra de maneira controlada e consciente. O problema está no extremismo. “Cabe ressaltar que existem diferentes graduações de fãs. Gostar de uma pessoa, uma banda, um personagem de filme é absolutamente normal. O que prejudica é elevar essa admiração ao status de adoração desmedida”, explica. Pessoas com dificuldades psicológicas ou exageradamente carentes são mais predispostas a adotarem algum famoso como ídolo e tomarem um sentimento fora do comum. “Todos somos carentes em certa medida e desejamos algo o tempo todo. Isso faz parte de uma sociedade que foi calcada no consumo. Entretanto, quando desejamos ser o outro, assumir a personalidade do ídolo ou incorporá-lo, podemos ir além de uma carência”, diz a Dra. Sandra Monice, que finaliza ressaltando a ideia de que apenas os casos atípicos são preocupantes. “Há casos e casos, e apenas quando essa adoração vai além do socialmente aceitável é que talvez seja a hora de uma intervenção terapêutica”.


SOBRE OS FÃ-CLUBES:

Diogo Nogueira
Facebook: FC DNogueira
Site: diogonogueira.com.br

Nando Reis
Facebook: Fã Clube Oficial Nando Reis
Site: fcnandoreis.com.br

Avril Lavigne
Facebook: Avril Lavigne Brasil
Site: alavigne.com.br


 

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