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Na contramão do grito de gol, goleiros têm papel especial no futebol
por Arilton Batista

Considerada por muitos como uma das posições mais ingratas e difíceis de exercer no futebol, o goleiro tem uma data própria e especial no calendário. Dia 26 de abril é simbolicamente comemorado o Dia do Goleiro. Nada mais justo que eles sejam saudados uma vez por ano, afinal, sem dúvidas eles estão entre os atletas mais importantes de uma equipe, seja ela profissional, amadora ou até mesmo nas peladas de fim de semana. O arqueiro, como também é conhecido o guardião das três traves, é o único atleta em campo que tem o poder de pegar a bola com as mãos. É o único jogador do time que usa um uniforme diferenciado, às vezes até com cores distintas das do clube. Ninguém, além do goleiro, usa a camisa número um. É um jogador especial. Único.

O Brasil é um país repleto de grandes goleiros e ex-goleiros que marcaram da maneira mais positiva possível o futebol nacional. Entre os diversos nomes, destacam-se Gilmar (bicampeão pela Seleção brasileira, em 1958 e 1962, foi revelado pelo Corinthians na década de 1950), Raffarel (conquistou o tetracampeonato pela Seleção, em 1994, e foi revelado pelo Internacional), Marcos (ídolo do Palmeiras, tendo conquistado títulos nacionais e internacionais pela equipe, além de ter sido o goleiro da conquista do Pentacampeonato da Seleção, em 2002), Júlio César (atual goleiro do Brasil e defendeu a seleção na conquista da Copa América de 2004), Rogério Ceni (há mais de 20 anos no São Paulo, é talvez o maior ídolo do clube) e Cássio (é goleiro do Corinthians e defendeu a equipe nas conquistas inéditas da Taça Libertadores da América de 2012 e do Mundial de Clubes). A lista se tornaria gigantesca, se todos os grandes atletas fossem mencionados.

Já no futsal, antigo futebol de salão, o destaque como o último homem da defesa está por conta do bicampeão mundial pela Seleção Brasileira, em 1992 e 1996, e que é recordista em atuações com a camisa do Brasil em campeonatos mundiais. Paulo Sérgio Baptista, o Serginho, nasceu e foi criado no bairro da Penha e iniciou a carreira de atleta pelo CEP – Clube Esportivo da Penha quando ainda tinha dez anos. Antes de ir para a Seleção Brasileira, saiu do CEP para o Gercan (Grêmio Esportivo Gercan), no Centro da cidade. No futsal ele jogou ao lado de grandes nomes do futebol de campo, como o Casagrande (ex-Corinthians, São Paulo, Flamengo e Seleção do Brasil). Para se ter ideia da grandeza e representatividade de Serginho para o futebol e para o esporte brasileiro, ele foi eleito por cinco vezes o melhor goleiro da Liga Nacional de Futsal. Quando indagado sobre ter escolhido o futsal, em vez do futebol de campo, ele brinca: “Acho que fiz a escolha certa”.

A escolha pela posição de goleiro foi algo que fluiu de forma natural. Ele conta que, quando criança, o pai dele resolveu presentear ele o irmão com camisas de futebol e que ele escolheu a de goleiro. “Por incrível que pareça, acho que nasci goleiro. Eu sempre brincava com meus primos mais velhos, que me colocavam para jogar no gol, e eu acabava jogando bem. Mesmo sendo o menorzinho da turma, eu tinha certo destaque. E eu comecei a jogar no gol dessa forma”, conta Sérgio. O estigma de que os que não se destacavam jogando na linha acabavam virando goleiro, porém, ainda existia. E esse foi um certo desafio que Serginho teve de ultrapassar. Ele mostrou que o goleiro também era um membro de qualidade dentro da equipe através de suas conquistas e pela postura dentro de quadra. Ele, por exemplo, foi um dos primeiros – quiçá o primeiro deles – a ser patrocinado por de luvas e ter o nome estampado no tênis. “Um bom time começa com um grande goleiro. Tem que ter um bom goleiro. Não é qualquer um que pode ir no gol de uma grande equipe. Um goleiro meia boca numa equipe boa pode levar o time a perder tudo, a tomar gols em horas importantes da partida e a até a perder títulos”, diz Serginho.

Muito se fala sobre a enorme responsabilidade de um goleiro. Se ele errar, mesmo que de uma forma simples, a equipe pode levar um gol decisivo, definir a partida e fazer com que o time e os torcedores voltem para casa frustrados. Os erros, entretanto, são comuns. Há o clichê de que “errar é humano”. E é, de fato. Sergio conta que, obviamente, ele também errava, mas que suas falhas nunca foram tão impactantes ao ponto de levar a equipe à derrota. “O problema está em tomar um frango e o time perder de um a zero. O goleiro tem que ter a noção de que é o último homem. Tem que estar preparado psicologicamente”, comenta. Para ele, o que também ofuscava suas falhas eram as grandes atuações em partidas importantes. “Só que eu tinha a felicidade de em grandes momentos ser o destaque da equipe; em finais, em jogos importantes, decisivos, em que se perder está fora. Eu conseguia aparecer nesses momentos”, conta.

No salão, diferente do campo, o dinamismo da partida é muito maior. Prova disso é tamanho da quadra e do campo de jogo. O campo do estádio do Morumbi, por exemplo, possui 108,2 metros de comprimento por 73 metros de largura. Já o Ginásio Presidente Ciro I, da FPFS – Federação Paulista de Futebol de Salão, tem 35m x 18m. O jogo é mais rápido e todos os jogares são exigidos muitas vezes durante a partida. Essa velocidade existente no futsal faz com que os goleiros não apenas evitem ao máximo falhar, como também superem mais rapidamente algum possível erro. “O problema do goleiro de futsal não é o gol tomado, precisamente. E, sim, a próxima bola. Não pode se abalar. Porque depois de 10 ou 15 segundos vai vir outro lance, outra bola, outra jogada. É tudo muito rápido”, explica o goleiro Serginho.

Construir a carreira que Serginho construiu, com base sólida, e superar os desafios naturais da posição de defensor da meta não é uma tarefa que demanda apenas habilidade. Os fatores psicológico e emocional podem interferir bastante para o sucesso. Segundo Sérgio, é natural que no início da carreira o goleiro se deixe levar pelas emoções. Ele mesmo já discutiu com torceres que estavam atrás do gol. Apesar de ter sido um atleta vibrante, que gritava com o restante do time e chamava a torcida, a concentração com a partida nunca foi deixada de lado. “Costumo dizer que era como num teatro. Quando o jogo começava, as cortinas eram abertas. Você tem que colocar em atuação tudo aquilo que foi treinado. E eu esquecia um pouco da torcida, dos gritos na orelha. Não dava muita bola, para não perder a concentração do jogo”, conta.

Pode soar irônico. Mas o goleiro tem como objetivo principal impedir o momento ápice da partida. Gritar gol é que todo mundo quer. Centenas de pessoas nas arquibancadas engolem a alegria. Milhares de torcedores deixam de comemorar. E vários choram a perda de um pênalti ou a desclassificação do campeonato. Por outro lado, há os torcedores que comemoram, gritam e têm motivos de imensa alegria pelo empenho do número 1 do time. De herói a vilão, o goleiro não é apenas o coadjuvante no palco da bola.


 

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