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Ondas do rádio vão além da prestação de serviço
Marcado pela incontestável prestação de serviço, o rádio é companheiro e tem ação direta na vida dos ouvintes, que não buscam apenas notícia
por Arilton Batista

A comunicação está cada vez mais voraz. E o avanço tecnológico é a engrenagem desse processo. Dia após dia surge uma nova ferramenta que permite a interação entre pessoas e o acesso à informação. A tecnologia é uma tendência. É útil e sempre será. Com o progresso dela, porém, surgem algumas teorias sobre o fim de alguns meios de comunicação, tidos como ultrapassados para a nova geração. Ouviu-se, nos últimos anos, que o rádio acabaria. Isso não aconteceu e está muito longe de ocorrer, tendo em vista a velocidade com que ele funciona, a eficácia na prestação de serviço e a fidelidade que os ouvintes possuem com os programas, com as emissoras e locutores. Além de levar informação, pura e direta, o rádio tem o poder de entrar na casa das pessoas – como dizem alguns profissionais –, lhes servindo de companhia, dando conforto e, muitas vezes, sendo até integrante da família.



“Ai de nós, porteiros de todo Brasil, se não fosse a Nativa”. Esse é o trecho final de uma carta destinada ao locutor Jones Mendes, que apresenta o programa Coração Sertanejo na Nativa FM (95.3). É uma ilustração de como os profissionais de rádio e as próprias emissoras têm a capacidade de confortar as pessoas dentro de suas casas, no trânsito e no local de trabalho. E para encurtar esse laço com o ouvinte não existe segredo ou fórmula pré-estabelecida. Leandro Senne é apresentador da Nativa FM nos fins de semana e na cobertura de férias e folgas, estando à frente, na maioria das vezes, dos programas Hora Mais Peão Nativa, Companhia de Amigos e Paixão Nativa. Para ele, apesar de não haver regra para o sucesso, existem três fatores que, juntos, devem conquistar a lealdade dos ouvintes. “É preciso um programa que agrade o ouvinte, que tenha interesse da emissora e que traga prazer para quem está apresentando. Se você tirar um desses três pontos, acho difícil que tenha sucesso”, comenta.

Leandro conta que antes mesmo de começar a atuar em rádio ele já pensava em trabalhar na Nativa FM. Na época ele se encantou, sobretudo, com a apresentadora Hebe Camargo, que pertencia ao time de vozes da Nativa. Ele se matriculou na faculdade de comunicação social e conseguiu estágio no departamento de promoção da rádio. Em seguida assumiu posições de assistente de produção, produtor e chegou a fazer alguns flashs externos, até alcançar o cargo de locutor apresentador. “Eu não queria trabalhar em rádio, eu queria a Nativa. Eu escolhi essa rádio. Sempre que chegava das ações de rua, quando ainda fazia estágio, eu pensava: ‘um dia eu vou sentar nessa cadeira’”, relembra o radialista. Sua trajetória pela Nativa conta com histórias curiosas e que reforçam a ideia de que o rádio realmente pode influenciar no cotidiano das pessoas.

O mais curioso dos casos vividos por ele é sobre uma ouvinte, hoje com aproximadamente 40 anos, que estava passando por uma instabilidade no casamento e se apegou tanto ao Leandro que pensou em romper com o marido para ficar com o locutor, sem nem mesmo conhecê-lo pessoalmente. “Todo dia ela mandava uma mensagem diferente. Pensei que devia conversar com ela. Daí eu liguei e falei ‘calma, não é bem assim a situação. Que bom que você gosta do programa, mas vamos estabelecer um limite. Tente conversar com o seu marido e resolver essa situação entre vocês’”, conta Senne, que garante ter solucionado o caso sem maiores contratempos. “Depois ela se acertou com o marido, ficou tudo bem. Eles [ela e o marido] até vieram num evento da Nativa, tiramos fotos e tudo mais”, comenta.

Um dos programas mais importantes e característicos da rádio Nativa FM é o Paixão Nativa, em que o principal tema, como o próprio nome sugere, é o amor, a paixão. O segmento musical da programação é, quase sempre, o sertanejo, abrindo espaço para alguns pagodes e MPB. Sempre com o tema amor como fio condutor. Inseridos no meio do programa há dois quadros de muito sucesso. Um deles é o Mural do Amor, que é um espaço na página do Facebook da rádio onde os ouvintes publicam seus perfis e trocam mensagens com o intuito de se conhecerem e, quem sabe, formarem casais. O outro é o Tema do Dia, em que uma questão é levantada pelo apresentador Cléber Aguirra e os ouvintes respondem e dão suas opiniões através de SMS, pelo Facebook e também por e-mail. “O Paixão Nativa é um programa amigão, é um conselheiro. É o programa que dá o ombro para o ouvinte, principalmente para quem está carente, para quem está querendo um amor, quem está na solidão; para quem busca alguém ou para quem está feliz também”, explica o apresentador Cléber, que está no comando do diário há pouco mais de um ano.



Segundo ele, o programa romântico no rádio serve para namorar ou para sonhar com um par perfeito. É um ótimo atrativo para quando se está com a (o) namorada (o) dentro do carro, indo passear. De forma prática, o programa pode criar um clima mais favorável aos casais e confortar os solteiros. Como o tema é um tanto quanto complexo – amor, relacionamento –, é preciso responsabilidade e seriedade dobradas. O quadro Mural do Amor, segundo o apresentador, já formou muitos casais, que, mais tarde, entram em contato agradecendo e até noticiando o casamento. “A gente acaba funcionando como cupido. Eu costumo dizer que o amor é o maior sentimento de todos. Você falar de amor, mexer com o amor, não é brincadeira. Mas é gratificante demais poder participar desse processo. Eu me emociono quando entra em contato um ouvinte dizendo “eu encontrei o meu amor”, diz Aguirra.

O ex-apresentador do Paixão Nativa, Edu Mello, hoje à frente dos programas Hora Mais Peão Nativa e Cia de Amigos, ressalta que o principal papel da programação da rádio e dos locutores e apresentadores é mostrar para o ouvinte que ele não está sozinho. Para ele, essa é uma característica marcante das rádios mais populares, como é o caso da Nativa, que busca o tempo todo interagir com o ouvinte. Muitas das ouvintes da Nativa, segundo o apresentador, dizem que os locutores são seus companheiros, devido à falta de um namorado ou até mesmo a ausência temporária do marido por conta de trabalho e outras responsabilidades. “A gente percebe como as pessoas são carentes. Nós passamos a ser o amante dessas ouvintes. Porque elas se apegam pelo carinho que passamos. Todo mundo quer ter alguém para se apaixonar, para cuidar; ter alguém para gostar, para ficar sonhando acordado. E a Nativa realmente pega o ouvinte no colo”, ressalta Edu Mello.



Fãs e seguidoras inseparáveis

Com outras particularidades, porém com um público tão fortemente fiel quanto o da rádio Nativa estão os locutores e apresentadores da Rádio Capital (AM 1040) Eli Correa e Paulo Lopes. Quem não se lembra do jargão “Ooooi, gente”, proferido por Eli Correa? E é impossível falar de rádio sem destacar Paulo Lopes, conhecido no meio como o “Amigão das Mulheres”. Os dois radialistas têm como característica principal a enorme quantidade de seguidores e seguidoras, na maioria dos casos. Tanto que as ouvintes dos programas do Eli Correa quanto o de Paulo Lopes costumam acompanha-los desde outros tempos, quando eles atuavam em outras emissoras. Ou seja, são realmente fãs de seus trabalhos. Paulo Lopes diz que esse elo com os ouvintes se dá por conta da intimidade que é naturalmente criada entre eles. “De onde a gente sai a gente leva o público. Já ouvi gente dizendo ‘eu te acompanho há mais de 20 anos’. E eu acho que isso é criado pela intimidade”, conta.
Como rádio não tem o artifício da imagem, como na televisão, por exemplo, cabe ao ouvinte imaginar como é o locutor, caso nunca o tenha visto. E esse fator, para Paulo Lopes, é um ingrediente que ajuda a fidelizar as pessoas com os programas, com as emissoras e também com os apresentadores. “O ouvinte cria o seu próprio Paulo Lopes e, com isso, ele tem o comunicador, o amigo, o amante, o namorado, o irmão mais velho, o psicólogo. Nós acabamos ficando mais com as ouvintes do que o próprio marido”, diz.



Experiente e colega de estúdio de Paulo Lopes, Eli Correa é conhecido como o Homem Sorriso do Rádio. É um apelido sugestivo, mas vale uma breve explicação. O Homem Sorriso surgiu justamente por causa do sorriso e a alegria que o radialista emana em suas transmissões. Com uma carreira sólida e marcada pelas histórias dos ouvintes contadas no quadro Que Saudades de Você e pelas incontáveis ajudas e auxílios conquistados pelo Clube da Amizade, Eli Correa garante que o ouvinte é capaz de ser mais fiel ao apresentador do que à própria emissora. “O objetivo é fazer companhia, é ser um dado positivo na vida dessa pessoa, seja na informação, na prestação de serviços; seja na alegria que você procura levar até a eles”, salienta Eli sobre o papel do radialista.



O Clube da Amizade é considerado uma das maiores prestações de serviço do rádio brasileiro, que começou nos anos de 1980, quando Correa recebeu um pedido inusitado de uma ouvinte: que ele fizesse contato com o Hospital Albert Einstein a fim de conseguir uma cirurgia para seu filho, que estava numa condição rara de saúde. Mesmo sem acreditar, Eli tentou e conseguiu. Não parou, desde então, a ajudar as pessoas. E criou o tal Clube da Amizade, que já conseguiu mais de 100 mil doações de cadeiras de rodas e de banho, dentre outras várias ações em que a rádio e a figura de Eli Correa são intermediadoras. “Meu objetivo é ouvir as pessoas, ver o que elas precisam e que dificuldades estão passando para ver no que eu posso ajudar. A gente convoca outras pessoas para ajudar também. Ou seja, faz-se uma corrente de solidariedade, de amizade”, explica o profissional.

Um jornalismo noutra embalagem

O programa 2 em 1, da rádio Transamérica FM (100.1), tem também como foco a prestação de serviço, com convidados especializados e opiniões diversas sobre os mais variados temas. É para auxiliar, de fato, os ouvintes. O diferencial está por conta da abordagem e da linguagem, que são carregadas com uma pitada de bom humor. O que, para os apresentadores Ricardo Sam e Gislaine Martins, deixa o conteúdo mais leve e tem o poder de fidelizar o ouvinte. “Discutir relação nunca dá com bom humor. Mas a gente faz isso. Faz piadas das coisas, das situações. E é com isso que o ouvinte se identifica. É a identificação do ouvinte com o que a gente está falando”, comenta Gislaine. Apesar de ter esse tom de humor, Ricardo Sam faz questão de grifar a seriedade do programa. “Nós não fazemos um programa engraçado, e sim bem humorado. Ele pode até provocar o riso, mas esse não é o objetivo principal. Nós aliamos entretenimento e notícia”, diz Sam.



Transmitido diariamente nas manhãs, entre 8h e 10h, o 2 em 1 recebeu esse nome justamente por contar com dois apresentadores, que emitem duas opiniões quase sempre distintas e que é sustentado pela participação dos profissionais convidados, como médicos especialistas, a sexóloga Carla Cecarello, o consultor de finanças Gustavo Cerbasi, entre outros. Os temas do programa geralmente tem ligação com o que está acontecendo na atualidade, seja no campo político, econômico, social, do esporte, etc. É um programa de variedades, literalmente. “Muita gente, antes e ir ao consultório, liga e participa do programa a fim de tirar dúvidas com o médico sobre algo que está sentindo. É um programa de jornalismo, mas com uma embalagem diferente. É uma coisa escrachada, mas séria ao mesmo tempo”, comenta Ricardo Sam.

A interação com o ouvinte é constante durante a programação. E esse contato muitas vezes cria um vínculo amistoso com os apresentadores, dando certa liberdade. Segundo Gislaine Martins, há alguns nomes que ficaram marcados no programa, justamente por conseguirem sempre participar. “Tem o Júnior da Mooca, a Grazy de Brasília. Tem esses que são bem fiéis mesmo, que marcam ponto. É muito bacana, pelo carinho que eles têm com a gente”, lembra Gislaine, que diz haver uma situação um pouco delicada quando o assunto é relacionamento, já que existe essa liberdade com o ouvinte. “Quando nós estamos falando sobre sexo, por exemplo, eles também se sentem à vontade. Daí tem uns que entram na linha contando detalhes sórdidos do que aconteceu com eles, mas é engraçado”, finaliza, rindo.


 

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