FOTOS

Solange Cruz,
presidente da Escola de Samba Mocidade Alegre

Em um mundo predominantemente masculino como as escolas de samba, a presidente da Escola que foi Bi Campeã do carnaval em 2012 e 2013 e promete estar na disputa do título do Carnaval 2014 conta um pouco de sua atuação que vai muito além de preparar o desfile do Carnaval.

CityPenha: Conte um pouco de como começou sua história na Mocidade.
Solange: Hoje eu sou a presidente do Grêmio Recreativo Cultural e Escola de Samba Mocidade Alegre, mas sou nascida e criada aqui na escola. Na verdade a escola foi fundada por três irmãos, e um deles é meu pai. Tenho uma trajetória grande na escola. Já passei por outras alas, já fui chefe de ala, diretora de eventos, mestre de cerimônia, vice-presidente e agora estou na presidência da escola.

CityPenha: Você tem um jeito, uma filosofia totalmente diferente de dirigir a escola. Conta pra gente como é isso, afinal você tem um resultado fantástico. Se não é campeã, é vice ou é terceiro lugar.
Solange: Então em nível de gestão, eu penso muito num conjunto para dar certo. Assim como tudo na vida a Escola de Samba é uma empresa. Nós temos vários departamentos aqui. Eu sempre falo que sou como um polvo, eu tenho um corpo que tem vários braços que me alimentam. Todo mundo traz informações e vai alimentando isso. E esse sucesso não é meu, é da gestão toda, da equipe, da comunidade. Acho que o meu papel é fazê-los entender que, unidos, a gente consegue um algo a mais, que o nosso ideal é sempre o mesmo, que mesmo sendo presidente, eu não sou dona de uma escola, apenas porta-voz de uma comunidade, e eu represento eles, brigo por eles, luto por eles. Minha voz é a deles.

CityPenha: Pelo que podemos perceber sua gestão é bem participativa.
Solange: Eu estou sempre buscando o que é melhor para nossa escola dentro de todo esse conjunto. No início eu era uma pessoa mais rígida. Sou muito segura do que eu quero e sempre falei o que eu acho e fiz o que achei que devia fazer, mas para dirigir a escola, cheguei à conclusão de que temos que dividir mais. Então passei a ouvir bastante, a digerir o que as pessoas acham, tentar entender e transformar para chegar naquilo que a gente poderia chamar de um futuro resultado. Hoje trabalhamos muito com isso.

CityPenha: E fazer uma gestão participativa não é fácil com essa estrutura toda! Quantas pessoas compõem a escola?
Solange: Estamos na faixa de mais de 3mil componentes, divididos em 25 alas. E todos os componentes são dedicados, é todo mundo fazendo algo dentro da escola. Eu acho que o resultado requer a ação do conjunto, é fruto de toda essa união.

CityPenha: No carnaval você tem que fazer a coisa meio competitiva, mas ao mesmo tempo todo mundo tem que se divertir. O intuito é o pessoal estar aqui, gostar, ir e ser campeão, mas é também para se divertir?
Solange: Com certeza, até por que todas as pessoas que estão aqui são voluntárias, trabalham em colaboração. Elas querem um resultado, mas tem que ser um trabalho prazeroso, se não for prazeroso, não tem resultado. Então eu acredito muito nisso. Não existe carnaval sem vibração, sem diversão, sem alegria, sem energia. 
Infelizmente o modelo dos desfiles de carnaval meio que tirou isso, engessou por conta de regras, por conta de critério, de regulamento. Isso é uma coisa que eu sempre procuro falar com o meu pessoal. Sempre procuro brincar, rir, extravasar, cantar, evoluir, mas sem perder a alegria e responsabilidade daquilo que temos que traçar. É uma divisão complicada, mas eles entendem que nosso foco é único, que nossa meta é única: ser campeã. Então o foco é ser atingido e que é sempre o mesmo. Sempre tentamos atingir esse patamar. Juntamente com a comunidade, a gente chega lá. 

CityPenha: E o trabalho é o ano todo, não só na época de carnaval?
Solange: Isso mesmo, a escola tem muitos shows e atualmente eu trabalho com palestras, workshops, visitas para muitas empresas, muitas faculdades. Para mim, isso já virou um trabalho, a minha agenda vive lotada com tudo isso. Então é uma forma de fazer as coisas seguirem adiante. A escola não para. Temos os trabalhos sociais, os projetos sociais, tem todo um trabalho além do desfile, é e claro, a escolha de enredo, a procura de novos parceiros. Tudo isso é durante o ano todo. 

CityPenha: E cabe a você tentar manter a movimentação de toda essa comunidade...
Solange: A Mocidade Alegre é bem participativa, ela é até um pouco carente de eventos e de situações que faça a comunidade toda estar dentro da quadra. Então sempre procuramos estar fazendo isso. Fazendo eventos e promovendo alguma coisa na quadra, que beneficie toda a comunidade, sempre temos algumas parcerias que trazem alguma coisa que podem atendê-los.

CityPenha: Essa parte social, vocês acabam fazendo bastante coisa ligada a isso?
Solange: Nós temos as oficinas. Temos oficina de mestre sala e porta-bandeira, oficina de percussão, já tivemos oficinas de entrelaçamento, de corte de cabelo, de maquiagem. Só que infelizmente perdemos a quadra naquele incêndio, e agora estamos nos ajeitando.
Nós fazemos várias parcerias: fazemos corte de cabelo gratuito, fazemos parceria com o Poupatempo para a retirada de documentos, fazemos parceria com a Sabesp, com um grupo de advogados para atender a comunidade, estamos sempre buscando alternativas para que sempre possamos atendê-los, que possa ajuda-los. Isso faz bem a eles, e a nós também. 

CityPenha: E isso também está ligado a todo o amor que a comunidade tem com a escola.
Solange: Eu acho que hoje as pessoas estão carentes é de aconchego, de aproximação, de doação e de troca. Hoje está muito diferente, a gente precisa resgatar um pouco dessa coisa que ficou. Eu acho que eu devia ter nascido na época dos índios, onde faziam trocas. Ninguém vendia nada. Trocavam uma fruta por uma palha e assim por diante. Acho que era bem mais válido isso.

CityPenha: Você vê alguma dificuldade por ser mulher e ser presidente de uma escola de samba? 
Solange: Nunca senti isso, até porque eu me imponho, tenho opinião própria, para não ficar entrando nessa onda para ficar administrando esse tipo de coisa. Sigo adiante, vou em frente. E na Liga Independente das Escolas de Samba tem muitos homens. São 3 mulheres no total, que sou eu, Angelina Basílio, presidente da Rosas de Ouro e a Dona Guga, presidente do Morro da Casa Verde. Mas na hora de falar, peço a palavra e começo a falar normal assim como eles, de igual para igual. 

CityPenha: E dentro da comunidade você também não tem problemas com isso?
Solange: Sem problemas. Sou nascida e criada aqui. A escola sempre foi de um âmbito familiar, então isso para mim meio que indefere. Na realidade, aqui até sou meio brava. As vezes eles tem medo, pensam “não vou falar com a presidente hoje por que ela não está muito bem”. Mas isso é normal, afinal é muita gente e muitos assuntos para resolver. Às vezes tem coisas que só vai no tranco. Às vezes tem coisas que vai na conversa. Não tem jeito, é assim em qualquer lugar.


 

Voltar